quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Conceituando o Bolsonarismo

O bolsonarismo, essa novidade política que tem investido de fôlego nossos pulmões combalidos pelas dificuldades da vida, merece mais estudos capazes de dar ao fenômeno uma real dimensão de sua complexidade. Segue um relatório de alguns dos mandamentos seguidos pelo fiel bolsonarista:

1 – A luta contra o comunismo. Sem dúvida alguma, o primeiro mandamento do bolsonarismo é a rejeição ao comunista e ao comunismo. Vejam bem, comunismo aqui não deve ser entendido a partir do Manifesto de Karl Marx. Ele é bem mais sutil e ardiloso, quase como o Diabo que puxa os nossos pés durante uma noite de sono. O comunismo é a “guerra cultural” que relativiza os valores da sociedade cristã e nos seduz com uma ideologia igualitária, enfraquece as hierarquias sociais e as distinções de nobreza e empodera os vagabundos que não trabalham. O comunista pode ser o sujeito que prega sobre os direitos humanos, o humanista cristão, o cara que é favorável às cotas e até mesmo a Regina Casé. Noutros tempos, isso seria chamado de macarthismo.

2 – A crença no potencial libertador da repressão policial. O papel educador do Estado não reside nas salas de aula, que foram dominadas pelo comunismo, mas sim nos policiais, cujos sabres de luz são os únicos que podem lutar com convicção pela extirpação do mau comportamento. Não importa que boa parte da estrutura da polícia militar, sobretudo em velhos redutos de criminalidade como o Rio de Janeiro, esteja carcomida pela praga da corrupção e os policiais brasileiros matem mais do que no resto do mundo todo. O fato de um indivíduo usar farda, na crença bolsonarista, torna-o credenciado a se tornar o símbolo excelso dos valores sociais. É batendo que se educa e é matando que se extirpa o vagabundo e se promove a sonhada pureza.

3 – O macho alfa como força estruturante da sociedade. Bolsonaro manifestou de forma sistemática o seu desgosto diante de homossexuais. Para quem não lembra, foi isso que o tornou famoso, na sua heroica campanha contra o potentado chamado Jean Willis. Se não fosse a campanha contra o Jean Willis é pouco provável que Bolsonaro tivesse saído das sombras em que se encontrava desde o início dos seus mandatos parlamentares. Para combater valores amolecidos, afeminados, que fazem com que crescentemente os jovens abracem o homossexualismo e deixem de lado as práticas viris, é preciso educar com rigor, colocar no colégio militar, mandar fazer flexões, essas coisas que produzem macheza e que alicerçam as famílias tradicionais. É preciso ser um varão de bem.

4 – A fé cristã como guia da política. Há muito tempo não se falava no retorno da fé, que direcionou a política no mundo todo até pelo menos o século XVIII, com tanta força. Ao contrário do que nos ensinaram gerações de filósofos vinculados ao pensamento iluminista – onde estariam as raízes do comunismo –, a fé cristã precisa assumir a dianteira da sociedade e prepará-la para o retorno iminente do messias. Nisso Bolsonaro repercute o vovô Olavo e também o Partido Cristão do qual é integrante. Evidentemente, o Jesus Cristo da seita essênia, baseada fundamentalmente na divisão comunitária de bens, é um detalhe que não merece ser considerado. Afinal, Jesus Cristo era carpinteiro, e carpinteiros trabalham, ao contrário dos comunistas, dos vagabundos e dos ateus.

5 – Antiestatismo. Não importa que Bolsonaro cumpra o seu sexto mandato parlamentar, tendo vivido a vida toda dentro do Estado. Evidentemente, ele não conhece outra realidade que não o Estado. Mesmo assim, por se apresentar como um desafiante interno, a partir de seus bate-bocas frequentes com Maria do Rosário e Jean Willis, ele conseguiu emplacar essa imagem de um cara que gosta de desafiar o sistema. A ideia do antiestado veio de impregnações do Rodrigo Constantino, que faz há algum tempo uma cruzada sobre a retirada do Estado da economia. É uma tentativa de afastar Bolsonaro da ideia do Estado brasileiro ruim. Coisa estranha para um nacionalista que prega o protecionismo econômico. Mas toquemos o barco.

6 – Saudosismo com relação à Ditadura Militar. Que Bolsonaro é uma viúva da Ditadura Militar todo mundo sabe. Sua existência é um monumento vivo à Ditadura e aos ditadores. Contudo, na escala de valores bolsonarista, uma ditadura é perfeitamente justificada quando se escora no macarthismo, quer dizer, na luta contra o comunismo. Durante a Ditadura Militar, as planícies eram verdejantes e a economia crescia como um titã, sem homossexuais, índios, vagabundos e ateus que pudessem atravancar o progresso e afrouxar os valores da família.

7 – Combate à erva do mal. Não casa com nenhum liberal, mesmo com um liberal de quinta categoria, a ideia de que o Estado deva controlar rigorosamente o uso recreativo de determinadas substâncias encontradas na natureza. Bolsonaro é um “liberal de mercado” que rejeita veementemente a venda de qualquer narcótico recreativo. Drogas alimentam os homens maus, os inimigos e produzem vagabundagem. Não importa que a liberação do uso da droga fosse produzir novas gerações de empresários vinculados à produção voltada para o mercado. Narcóticos são coisa de comunista, e a maconha é, nessa constatação imperiosa, a porta de entrada para drogas mais pesadas, como os discos do Wesley Safadão.

8 – Desconfiança absoluta com relação à mídia. Da mesma forma que seus congêneres de extrema esquerda, os bolsonaristas detestam a mídia e acham que ela está o tempo todo conspirando contra os valores dos homens de bem. Dessa forma, só aquilo que é publicado no Facebook pode ser considerado purificado da manipulação midiática. Lembre-se: se foi publicado na fanpage do Bolsonaro, é credível, se na Folha de São Paulo, desconfie.

9 – O Exército como primeiro poder. Não importa que o país não vivencie uma guerra desde a ida dos pracinhas da FEB para a Itália em 1945. O Exército é, junto com a família, a célula mater da sociedade. A hierarquia militar é a responsável pela preservação dos valores puros. Também não importa que, em todas as sociedades comunistas, o militarismo tenha sido empregado para a manutenção do regime político. No Brasil, o Exército é digno da mais elevada confiança, por já ter, no passado, lutado contra o comunismo. E, sendo o anticomunismo o primeiro valor da cartilha bolsonarista, ele justifica qualquer forma de repressão. Dá um tilt na cabeça. Mas bola pra frente.

10 – A diminuição da taxa Selic. Esse é o grande mote da campanha econômica de Bolsonaro. Todo o seu entendimento econômico se reduz a essa fórmula mágica. Bolsonaro não é, a exemplo de Trump, um entendedor de economia. Todos os seus vencimentos e de seus filhos, aliás muito generosos, vem de pensões, aposentadorias e salários pagos pelo Estado. Destarte, é a diminuição da Selic, pronunciada com verdadeira lascívia redentora, que poderia encaixar o Brasil de novo nos trilhos do progresso e incentivar o crescimento econômico.

Qual o melhor anticomunista do Brasil?

Acompanhei meio por acaso algumas discussões em blogs e portais amadores de notícias sobre o papel preponderante que alguns indivíduos ou instituições teriam assumido durante a controversa tecnicalidade jurídica que retirou o poder presidencial de Dilma Rousseff (não gosto da palavra golpe). Disputava-se entre alguns blogueiros considerados como verdadeiras lideranças no movimento de impeachment, “ceticismo político”, “MBL”, “reinaldo Azevedo”, “rodrigo Constantino”, “Olavo de carvalho”, qual teria maior parcela de responsabilidade na derrubada da presidente. O último, com a modéstia e racionalidade que lhe é muito particular, não hesitou um só segundo em dizer que teria sido o arquiteto singular, a causa maior da comoção brasileira que levou o povo às ruas. Apareceu então Luciano Ayan, o blogueiro de “ceticismo político”, para dizer que um conjunto de blogueiros teria sido fundamental ao oferecer “consciência” para a população. Por fim, MBL, talvez o conjunto mais imberbe de babaquinhas prepotentes, anunciando o verdadeiro apocalipse comunista-zumbi, mediante sua luta com panelas nas ruas e selfies com policiais.

Eu tenho dificuldade para entender tudo isso, confesso, talvez por ser um cara simples demais, meio acostumado a ver no ser humano não mais do que um animal esperto. Não consigo ver outra causa no impeachment de Dilma senão o Congresso. Só isso. Por que Dilma caiu? Porque o Congresso quis. É possível atribuir a um indivíduo em particular um papel maior e mais preponderante? Sim, é possível, e a própria Dilma já disse isso durante sua arguição de defesa. Eduardo Cunha é o nome desse indivíduo. Não foi Olavo, Kim Kataguiri, Reinaldo, agitadores de ocasião querendo vender cliques em blogs que derrubaram Dilma. Nem tampouco foram as camisas bem passadas com o emblema da CBF. Foi o Congresso e os lobbies nele instalados, sem dúvida sobretudo o da FIESP. Nem tampouco estes lobbies têm qualquer coisa a ver com valores evangélicos, morais, éticos, querem o fim do casamento gay, do aborto, ou qualquer coisa do tipo. Pura e simplesmente economia. Dilma se tornou um estorvo para a economia e isso derrubou ela. C´est fini.

Quanto ao tal movimento antiesquerdista que se tornou uma nova hegemonia, para ser justo com os blogueiros, não foi Luciano Ayan, Felipe Gringo, o cara que hostilizou os haitianos em Porto Alegre, Nando Moura, Alexandre Frota, Luciano Huck, Reinaldo Azevedo e, muito menos Rodrigo Constantino quem começou a propalar estes valores. Lembremos que quando Lula foi eleito em cima de um enorme populismo, havia tamanho consenso em torno do nome dele que deixou mesmo os mais fervorosos anticomunistas recatados e silenciosos. Na tribuna, Jair Bolsonaro, o hoje tornado mito por adolescentes sem pai nem mãe, saudou o novo presidente e disse esperar um excelente governo. E Lula, a despeito dos problemas morais, fez isso. Durante o mensalão, a população dormitou apaziguada, diante do clima de milagre econômico. Ninguém ousava dizer uma palavra contra a pax petista.


Com exceção de um sujeito que talvez seja um dos poucos liberais de direito nessa história toda. Com a morte de Tales Alvarenga, Diogo Mainardi foi o único blogueiro antipetista e antiesquerdista capaz de mobilizar grandes conjuntos de leitores. Olavo de Carvalho era irrisório em 2002. Escrevia sobre escolástica e debatia sobre a Inquisição com Julio Severo. Não tinha qualquer importância. Rodrigo Constantino não havia nascido. Os blogueiros e movimentos parecidos com vírus oportunistas não eram sequer imagináveis. Portanto, é curioso ver como hoje, dada uma nova hegemonia sendo construída em torno do macarthismo político, blogueiros e militantes até cinco anos irrisórios de repente comecem a disputar uma corrida em torno da condição de McArthur brasileiro.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Miniatura Moral

O bolsonariano, esse tipo catalisado pela insatisfação política e social, julga-se de fato elevado pelo mais puro exemplo moral, julga estar no Céu cristalino dos valores castiços, tanto que, a despeito de qualquer tentativa de discussão (para que discussão se já sei que estou certo?) ele encaixará o outro dentro dos padrões binários para os quais a sua cabeça já está bem treinada: petralha, comunista, soviético, cubano, homossexual, dentre outros epítetos considerados pouco simpáticos. A moralidade desses paladinos que se multiplicaram de uma hora para outra com ideias bastante estranhas, curiosamente tendo a si mesmos como messias da política, merece ser examinada de forma um pouco mais detida. Mais do que como fenômeno político, como fenômeno antropológico, que revela algumas nuances do animal homem.

Quer dizer, quais são os alicerces morais que embasam a conduta desse tipo tão puro? Bolsonaro cresceu, em termos políticos, tendo como plataforma a defesa da família contra a ameaça gay (comunogayzismo). Isso quer dizer que o bolsonariano deve ter o próprio órgão genital com muita consideração, usando-o de forma objetiva para propósitos de procriação. “Gays não geram família” é uma frase que tem sido repetida como um mantra sagrado. Logo, a visão do próprio pênis ou da própria vagina deve estar rigorosamente baseada no contato com um órgão sexual oposto para a geração de filhos e esse é um motivo de orgulho para o bolsonariano.

O segundo mantra é a defesa das armas. Armas são boas, já que podem defender a família, a tradição e a propriedade. As famílias deveriam ter armas. Pais responsáveis usariam as armas para defender os seus filhos dos bandidos, vagabundos e comunistas. Não importa que qualquer briga de trânsito vire um tiroteio à luz do dia. Os sujeitos responsáveis que têm armas vão saber defender a família, os homens de bem, os cristãos e a propriedade, que é sagrada. Nenhum homem de bem morreria através das armas. Armas foram feitas para matar os bandidos.

O terceiro mantra é a revitalização da memória da Ditadura Militar. A Ditadura foi um regime político bom orientado pelo combate ao comunismo soviético. Não importa que tenha havido torturadores, assassinos e que as ações do governo não admitissem qualquer possibilidade de crítica. Era tudo muito justificável, porque se estava defendendo os valores da família brasileira contra os comunistas. Em outras palavras, pode-se matar e torturar, já que os inimigos são bandidos, já que eu sou o paladino moral. Não importa verdadeiramente a vertente ideológica propugnada pelo inimigo: ele é comunista e seu extermínio é por si justificável.

O quarto mantra é o horror aos imigrantes. Imigrantes estão corrompendo o Brasil. Não importa que, nessa terra indígena, sejamos todos imigrantes. O país deve ser considerado, de forma objetiva, aquilo que se estabeleceu a partir do século XX, quando sucessivas levas europeias lhe deram um pouco de fisionomia caucasiana. Novos imigrantes de regiões afetadas por guerras ou desastres naturais como o Haiti ou a Síria são a “escória do mundo”. Devemos tratá-los mal, porque nós somos puros, bons, e representamos a verdadeira família brasileira.

O quinto mantra é a criminalização das drogas. Evidentemente, a criminalização das drogas que já se tornaram, de alguma forma, ilegais. Isso não implicaria em nenhum prejuízo para a indústria química, que está calcada na propriedade e no dinheiro, valores sagrados. Está sim calcada na luta contra as drogas consideradas drogas de vagabundos, como a maconha, a cocaína, etc. O Estado deve proibir o sujeito de fazer o que quiser com o próprio corpo, evitando que se torne um vagabundo, lutando para que se transforme num pai de família bom, trabalhador, armado e sem tempo para ter ideias desnecessárias. Ideias não são boas. É preciso apenas ter o grupo de ideias mais fundamentais para o crescimento do país, o extermínio dos comunistas e a defesa da família tradicional brasileira não indígena.

Há ainda outros mantras, como a defesa da pena de morte, a criminalização do aborto mesmo no caso de estupro (mulher decente não é estuprada, como certamente diriam), a educação militar (disciplina é mais importante que pensamento); talvez se somassem a esses o toque de recolher (vagabundo não fica na rua depois das 18 horas), a criminalização do álcool (só vagabundo precisa beber), a restrição dos programas na televisão (ver televisão é coisa de vagabundo), dentre outras sumidades que já estiveram em voga e poderiam, sem muita dificuldade, ser resgatadas.

Está mais do que claro que essas ideias, propugnadas pelo Mito, são a mais pura bobagem. Não deveriam ser levadas a sério em nenhum círculo minimamente esclarecido. Contudo, são bobagem que tem efeito sobre o sujeito que, olhando a si mesmo no espelho, na monotonia dos dias, quer enxergar-se como alguma coisa, quer se ver transformado no paladino de uma luta moral. É o sujeito que não tem ideias, cuja cabeça não consegue fazer sequer um simples esforço de perceber a diferença, e se transforma na comissão de frente de uma luta espetacular entre o Bem e o Mal. Noutras palavras, Bolsonaro deu ao medíocre, ao monótono, mais do que uma razão de existir: tornou-lhe o protagonista de qualquer coisa.

domingo, 24 de abril de 2016

Sim, Senhor Presidente

No dia 17 de abril, boa parte dos brasileiros que se sentaram em frente à televisão domingueira devem ter se visto assustados quando um clube de senhores, visivelmente exaltados, dizia “sim, senhor presidente”. Na ocasião festiva, uma micareta em lugar coberto e bem decorado, os senhores com terno e gravata homenageavam os seus familiares e diziam estar fazendo parte de um momento histórico de luta contra a corrupção.

Causou estranheza, para a maioria de nós, ver que aqueles sujeitos eram representantes públicos, pagos com dinheiro de ouro, gritando de forma desavergonhada, beiços gordurosos, como no púlpito de uma igreja, misturando Deus, Israel, o combate à Coreia do Norte, a sobrinha Lígia. Aqueles sujeitos desfigurados, que não gostamos de ver, do qual sentimos vergonha, são o retrato do Brasil profundo, cuja alfabetização é incompleta, a mistura entre coisa pública e privada inevitável, e a religiosidade inflamada sobressai-se sobre o comportamento político. São o retrato de problemas que o Brasil não resolveu, e que o Brasil politizado, culto, varre para debaixo do pano, finge não conhecer.

A maior parte daqueles tios, empunhando uma bandeira fácil, a bandeira de luta contra um partido e contra uma presidente que já estão em frangalhos, insuflados pelo mais grosseiro populismo, estava ali porque era ali que eles deveriam estar. Dessas catacumbas sombrias onde o inconsciente coletivo transborda sua insatisfação saíram discursos que pegaram de surpresa mesmo aqueles que têm o estômago mais forte. Entre deuses, tios, filhas, correligionários, houve uma homenagem ao mais célebre torturador da Ditadura, feita no seio do Congresso de um país livre, cuja democracia sofreu para se estabelecer claudicante e ainda claudica insegura.

Uma das figuras políticas daquela micareta, com fala fina e esganiçada, eleita vereador ainda na década de 80, se chama Jair. Jair, cujo sobrenome não vou sequer citar, garimpava votos das viúvas, pensionistas e gente que recebia dinheiro da União para figurar no Exército. Ele permaneceu amortecido durante muito tempo na vida pública, esperando o momento em que os atavismos mais destrutivos começassem a ganhar a superfície. Ele se tornou célebre por pegar carona nos sentimentos ruins, incitando a perseguição aos mais fracos, insuflando os mais poderosos, defendendo armas, pena de morte e outras sumidades. Foi então que, de repente, surgiu à vista de todos, com 8% das intenções de voto para campanha presidencial, num partido de cunho religioso.

A história comprova que em momentos de convulsão política e dificuldade econômica e social a razão se fragiliza e as pessoas se tornam mais afeitas aos discursos prontos, mastigados, bovinos, que prometem uma salvação fácil com slogans estereotipados, sobretudo aqueles que culpam um grupo pelo Mal. Armas contra os vagabundos! Propriedades para os defensores da tradição! Religião para fortalecer a família contra o assalto dos gays! Essa réplica nauseabunda do discurso de um senhor feudal, ainda que não escorado em qualquer tipo de honra pessoal ou hombridade, é aceita como uma “alternativa”.

Mas isso não é uma questão de direita e de esquerda. É uma questão de bom senso, de puro respeito e cordialidade com a diferença, de convivência, coisa que qualquer criança deveria aprender na escola. Nessa altura do campeonato, invejo os argentinos não apenas porque escolheram nas urnas o seu representante político – Macri está aí para dizer a que veio – como também porque não toleram a apologia de capítulos que tingiram de vergonha a sua história.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Olavinho, o pregador da moral

Durante os dois anos em que morei no Rio de Janeiro pude conviver de perto com uma infinidade de usuários de drogas. Vou descrever aqui particularmente um deles, Olavinho, codinome que deverá me poupar de qualquer processo judicial. Olavinho gostava muito de fumar um baseado. Cheirava ocasionalmente, já que achava aquilo bem social. Como tinha vínculos farmacêuticos, conseguia e distribuía ilegalmente receitas de medicamento, inclusive para finalidades estéticas, como promover o crescimento muscular.

Aconteceu, então, algo bastante marcante em 2010. Quem tiver um cadinho de memória histórica, vai lembrar que foi o período de instalação das UPPs no Rio de Janeiro e teve início uma forte guerra contra o tráfico de drogas nos morros cariocas. Vários desses morros foram esvaziados e traficantes migraram para cidades da região metropolitana, onde continuam a vender para os mesmos usuários.


Já escrevi o porquê penso ser a política de guerra ao tráfico intrinsecamente falida. Qualquer indivíduo com um mínimo de capacidade intelectiva já descobriu por conta própria que o consumo vai continuar a acontecer e os pólos de distribuição simplesmente vão migrar de um lugar para outro. 


O que me surpreendeu, verdadeiramente, foi a posição ideológica de OLAVINHO, meu colega usuário. Ora, Olavinho era um consumidor frequente, apesar de não se intitular um viciado. Olavinho era um típico acadêmico presunçoso. Achava que podia dar palpites sobre tudo e todos, mas precisou comprar a sua monografia de conclusão de curso, já que o pensamento lógico não era seu forte. Era um energúmeno destes que vemos por aí disseminando opiniões cada vez mais banalizadas sobre assuntos os mais diversos, graças ao acesso generalizado à esfera pública cibernética.


A posição do usuário Olavinho, então, foi a seguinte: "os traficantes deveriam ser exterminados!!". "Mas, Olavinho", perguntei: "quem te venderá a droga? Não seria mais fácil que você e outros usuários simplesmente parassem de consumir e secassem a fonte de financiamento do tráfico". "Eu não sou criminoso", Olavinho respondeu. E emendou: "Esses marginais, eles precisam morrer todos". 


Então, quando externo o meu menosprezo pelo pensamento preguiçosamente construído, demagógico e populista, me vem a face redonda de Olavinho, seu moralismo, sua pretensa facilidade de arranjar soluções, seu egoísmo canceroso...

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Fiscalismo Neopentecostal



A tradicional aversão do catolicismo à riqueza tornou-lhe o avesso do protestantismo histórico, com sua ênfase no trabalho gerador de lucros e como retribuição pelo esforço pessoal. Nessa forma histórica do protestantismo, derivado das doutrinas de Calvino e Zwingli, não há nenhuma alusão ao consumo e à fruição dos bens terrenos. O acúmulo era simplesmente uma consequência do ascetismo e da obstinação pelo trabalho e pela fuga das tentações mais mundanas, qualidades consideradas adequadas aos escritos canônicos da Bíblia.
O que se percebe mais recentemente, com a teologia da prosperidade que começou a ser propagandeada pelos evangelistas de televisão nos Estados Unidos, é a fruição ostensiva dos produtos de consumo. Trata-se de uma inversão bastante radical da tradicional política cristã, como monopolizada durante pelo menos 1500 anos pela Igreja Romana. Ela busca se adequar a um momento histórico em que o consumo se tornou uma política cotidiana, convertendo o tradicional axioma da pobreza numa busca ativa pelo ganho – diretamente ligado à retribuição financeira para a igreja, vista como uma instituição externa ao indivíduo, gerida pelo corpo de pastores.
Segundo essas novas regras, o postulante à vida eterna no Paraíso deve entregar-se a um esforço unilateral em torno do trabalho e numa comprovação contínua de que sua fé na entidade suprema não esmoreceu. Os intermediários dessa entidade suprema são os administradores da instituição fiscal, a igreja. Esta, assim, recebe dinheiro por administrar o futuro das almas. O dízimo é o imposto direto que assegura a fé do postulante ao Céu e, consequentemente, sua proximidade da bonança eterna. Quanto maior a sua fé, maior a quantidade de dinheiro depositado na conta dos intermediários – considerados, em muitos casos, elo mais próximo com o dono do Paraíso, Deus.
Essa ênfase crescente na fiscalidade, acompanhada pelo ritmo ostentatório com que as pessoas consomem e buscam exibir-se consumindo, quer dizer, demonstrando o produto de sua fé, tem-nos levado a episódios bastante bizarros, senão risíveis, de deturpação da fé e criação de novas modalidades de consumismo. É provável que todos já tenham se deparado, nalguma altura, com um indivíduo ostentando produto da moda, guardando ali a escritura: “foi Deus quem me deu”. Sendo o dinheiro depositado diretamente na tutela de Deus, por intermédio dos usurários e pastores, o indivíduo se crê o beneficiário da investidura divina, podendo gozar o excedente na forma de produtos da moda – inclusive da moda gospel, um novo setor econômico construído para explorar essa demanda.
A tradicional política da Igreja Católica, com mais ênfase no estudo doutrinal do que no gozo da vida ou na filosofia empresarial, perderam espaço para essa infinidade de doutrinas religiosas voltadas para a prosperidade financeira. Evidentemente, trata-se de um círculo vicioso: quanto mais as denominações crescem, mais possuem dinheiro para investir em publicidade e meios de comunicação, formando verdadeiros conglomerados de mídia e atraindo fieis sobretudo entre os recém-ingressos na classe média.
Esses indivíduos costumam ter nos pastores, intermediários, administradores, seus “livros”, programas de televisão, de rádio, panfletos, jornais doutrinários, como única fonte possível de ilustração e educação. Alicerçado na doutrina da “guerra santa contra o Diabo”, o inimigo esconjurado que atiça a tudo e a todos, agregam-se em comunidades fechadas onde temem ideias que surjam à revelia de sua fé, sendo inclusive manobrados para votar em candidatos de ideias associadas, pescados geralmente entre os pastores-fiscais (Leia o texto “bancada evangélica é a mais ausente, inexpressiva e processada”, em http://www.vermelho.org.br/noticia/185635-1).
Não fosse esse mundo fechado, em que os pastores se tornam a principal referência intelectual, à revelia da própria literatura, da história, da Academia e de qualquer outra contribuição humana histórica – tornada subitamente irrisória –, esse mundo autista tem também protagonizado cenas das mais estranhas. Tutelados pela nação fiel, adepta ideológica da prática do dízimo-consumo-paraíso, os pastores-fiscais são virtualmente imunes a qualquer pressão social externa à igreja. Dessa forma, acabam desenvolvendo sistemas doutrinários simplesmente bizarros, como a ideia da “maldição africana” de Marco Feliciano, ou o neojudaísmo do Bispo Edir Macedo.
Num caso extremo, como aquele envolvendo a prisão do líder da Assembleia de Deus dos Últimos Dias Marcos Pereira, o pastor conseguiu forjicar um sistema doutrinal em que a apropriação do dinheiro do tráfico é simplesmente lícita, já que derivada do trabalho de um “convertido” (Veja o documentário “Religião e Tráfico”, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=d2Vyfu6vhfs). Nessa versão estranha do cristianismo, a igreja recebe dinheiro sujo, autointitulado “dinheiro do dízimo”, e o retorna limpo para as associações criminosas, na forma de serviços prestados.
Evidentemente, o que é pior, o Estado não tem qualquer forma de controle sobre esses empreendimentos ilícitos, já que são simplesmente um dinheiro imune de tributação, construído a partir de uma concepção fiscal paralela à do Estado: o imposto sobre o Reino dos Céus. Isso nos traz uma discussão cada vez mais importante: qual o sentido atual da manutenção da isenção tributária num dos setores econômicos que mais cresce no País?

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Droga de ideologia


Drogas ilícitas se tornaram tão disseminadas que o Estado não é mais capaz de estabelecer critérios sérios sobre o que deve ser proibido ou não. Se, por um lado, temos um número crescente de indivíduos buscando distrações e sensações as mais bizarras, decidindo pagar um preço alto por isso, outros a usam como símbolo de ascese e poder, como vemos nas fechadas ideologias de grupos que se dedicam a cultuarem a inflação física.
            Num momento histórico em que crianças e adolescentes crescem descobrindo que precisam de uma vaidade incomum para adquirir seu lugar no mundo, também se expande um raciocínio dismórfico sobre o corpo humano. Constantemente, ele é confundido com o sonho de “crescer”, de deixar de ser invisível, ou simplesmente de ingressar num grupo fechado em que os indivíduos partilham dos mesmos desejos e aspirações.
            Na cultura estreita desses grupos, padrões estéticos derivados do uso de anabolizantes são exibidos sub-repticiamente como exemplos máximos daquilo que se pode alcançar, gerando verdadeiras hordas de seguidores sobretudo entre jovens e  adolescentes. Evidentemente, para alguém cujos padrões culturais são forjados no seio de um grupo em que o tamanho físico é o maior objetivo a ser aspirado, receios como a contaminação com drogas ou uso excessivo de anabolizantes são simplesmente ignorados.
            No interior desses grupos, há uma cultura específica, fortemente ideologizada, para responder à pressão legal contra o uso das drogas: “eles são todos frangos”, “quer ficar grande?”, “o que você está disposto a fazer para seguir o seu sonho?”. O “sonho” é tornar-se fisicamente grande, a exemplo dos indivíduos mostrados num rito de apreciação quase sexual em sites e redes sociais. Os “frangos” são os indivíduos alheios à cultura do crescimento muscular. E “ficar grande” é o objetivo central de toda a vivência individual.
            O discurso para legitimar esse tipo de prática também não é muito mais engenhoso: “todos os atletas usam drogas ilícitas”, “a mídia não sabe de nada”, “minha mãe é muito preocupada”, “são todos hipócritas”. A favor dessa argumentação, costuma-se exibir as mesmas doses exaustivas de filosofias motivacionais compostas de apenas uma frase, imagens de fisiculturistas e, mais raramente, indivíduos que chegaram na terceira idade usando testosterona fabricada em laboratório.
            Evidentemente, aqueles que pararam ou param no caminho com sequelas ou problemas diversos escondem-se ou são escondidos, deliberadamente colocados de lado, como espécimes fracassados devido à sua própria negligência ou falta de motivação. Muitas vezes, quem se encarrega de gerar essa exclusão são os próprios traficantes que tornaram o tráfico um meio e estilo de vida.
Essas práticas ilícitas geram uma importante reflexão: a proibição tem ajudado a abrandar o uso de drogas? É claro que não. Da mesma forma que a proibição dos anabolizantes favorece sua venda e disseminação em grupos fechados, a guerra contra o tráfico nos Estados Unidos se tornou um megaempreendimento que tornou os carteis mexicanos umas das fontes econômicas mais importantes do México. Nos EUA, trata-se de uma das movimentações de dinheiro público que mais gera corrupção, sendo responsável pelo enriquecimento tanto do tráfico quanto da soldadesca adepta às práticas de propina (Veja o documentário “Como enriquecer vendendo drogas”, de Matthew Cooke).
            No que concerne à droga anabolizante, a rotina, a ideologia e o status social produzem um verdadeiro encanto no espírito dos mais jovens. Alguns, com maior facilidade genética de ganho e possibilidade de acompanhamento médico e esportivo profissional podem até se tonar fisiculturistas, mas a maioria, aquela multidão anônima que parou de postar fotos em redes sociais, esmoreceu pelo caminho, com sequelas psico-físicas difíceis de lidar, inclusive a queima de neurônios provocada pela apoptose (morte celular), processo induzido pelas altas doses de esteroides sexuais (Consulte a Revista Mente e Cérebro, Outubro de 2006). Evidentemente, a queima de neurônios não é um argumento à altura para um jovem cujo projeto de vida gira em torno unicamente do ganho muscular.
            A legalização do consumo de substâncias entorpecentes ou anabolizantes para maiores de idade tem o benefício de gerar uma discussão aberta sobre o assunto. E não só isso: permite o controle da venda e a identificação do usuário pelo Estado, a utilização objetiva de padrões de publicidade e propaganda capazes de desmistificar o uso revelando de forma aberta seus benefícios e prejuízos, a construção de estatísticas que possibilitem estudos sobre grupos de consumidores, e também a possibilidade de, através do serviço social, investir nesses grupos de risco, fornecendo outros tipos de tratamento, persecução de “sonhos” e formas mais amplas de valoração e ascensão social. É preciso lembrar que enquanto são grupos fechados, também suas mentes são fechadas.
                Colocando-se, por fim, a coisa na balança, os danos causados pela manutenção da proibição geram um prejuízo maior do que a venda de substâncias ilícitas em lugares assistidos pelo governo e capazes de fornecer informações adequadas às pessoas sobre os danos colaterais do produto – incluindo sua própria morte.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Síndrome de Einstein



            O precoce talento de Albert Einstein se tornou notável logo nas suas primeiras publicações acadêmicas. Sua forma de encarar a física demonstrava um gênio invulgar que, no início do século XX, foi responsável por uma publicação média de cinco artigos por ano. Ele só parou ao receber o Prêmio Nobel de 1921, resultado da elaboração da lei do efeito fotoelétrico, que lhe acalmou um pouco a sedenta criatividade. A qualidade da produção de Einstein não foi assegurada apenas pelos pares científicos, que avaliaram suas ideias, mas pelo próprio tempo, diante do qual suas teses difíceis resistiram através da exigência e rigor com que praticou a ciência.
            Quantitativamente, Einstein tem rivais de peso no Brasil. O Brasil nunca teve um prêmio Nobel ou um cientista verdadeiramente importante no cenário internacional. Mas tem publicadores, replicantes e donos de revistas aos montes. São figuras ornamentais, praticantes daquela velha pompa descrita por Antonio Candido: distantes dos problemas concretos, eles estão mais concentrados em si mesmos e na sua autocelebração do que num diálogo rigoroso com outros cientistas.
Exemplifico: uma busca rápida pelo site do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (lattes.cnpq.br) vai descobrir números verdadeiramente grandes de portadores do título de doutor com mais de 100 artigos publicados. Trata-se de um monumento ao intelecto humano. Sem dúvidas, números que fariam Einstein empalidecer de dúvida. Se cada artigo apresenta uma ideia renovada num campo científico específico, temos um eflúvio intelectual e cultural anual, criadores de perspectivas amplas, quase martelos vivos de valores, para usar a linguagem nietzschiana. Algumas vezes, tais preciosas publicações vêm em parceria com números bizarros de acólitos e alunos bolsistas, noutras constituem repetições, noutras ainda, revisões que repetem aquilo que já foi dito e pensado, sempre de forma pomposa, se não com algum encaixe pós-estruturalista incompreensível.
Os números ligeiramente inflados têm pelo menos dois motivos principais: um deles deriva das próprias exigências quantitativas de produtividade. A rigor, qualquer Universidade séria deve ser capaz de produzir pesquisa. Se um indivíduo receber dinheiro para pesquisar, sobretudo se enquadrado naquilo que a Academia chama de Dedicação Exclusiva (DE), deve conseguir publicar um artigo por ano relatando sua experiência de pesquisa. É uma coisa bastante salutar e simples, para não dizer que é o mínimo. Vários, contudo, rompem essa tenebrosa barreira para revelar uma grandiosidade quântica, verdadeira capacidade intelectiva para a invenção cotidiana.
Tais números, em franco crescimento, escondem, contudo, uma rotina pequena. É comum, para responder às exigências de produtividade ou simplesmente para satisfazer o ego diante de outros acadêmicos cuja escrita é simplesmente broxante, reaglutinar os próprios textos, já pouco originais, para comporem uma nova publicação. Editores pouco curiosos ou preocupados com o rigor científico acolhem-no segundo as expectativas depositadas no nome do autor, da sua titulação ou simplesmente das trocas estabelecidas entre revistas amigas. Muitas vezes não compõem nem uma nova ideia ou sequer um esforço intelectual sério. São uma necessidade de vida, uma bruxuleante tentativa de conferir visibilidade a si mesmo, quase como o bombado que se esmerilha no anabolizante para parecer maior.
Noutra ponta está a árdua defesa da corporação e dos brios nacionais. Mesmo devendo em muito para autores estrangeiros – há autores nacionais autointitulados de gabarito cuja produção se limita à descoberta de nomes estrangeiros desconhecidos –, a Academia brasileira repele fortemente a busca por padrões internacionais de qualidade. A fluência numa segunda língua não é sequer uma exigência para um doutor, senão uma formalidade para adquirir titulação. Quer dizer, o bom doutor absolutamente não precisa estabelecer diálogos com pares internacionais, não precisa buscar inserir-se na comunidade científica e discutir hipóteses originais, mas sim convencer outros acadêmicos, geralmente pessoas próximas, a se retropublicarem uns aos outros.
Por estes méritos quantitativos, esta verdadeira chuva torrencial e abundante de publicações que não são lidas, diríamos ser verdadeiros herdeiros de Einstein. Sob a rubrica de que não somos “vira-latas”, celebramos o esforço do intelecto nacional em uma quixotesca batalha contra os números de vento. Se as ciências biológicas, da saúde e exatas conseguem das mostras de querer sair desse círculo vicioso, as humanidades claudicam num verdadeiro empenho ufano, fechadas como uma corporação de ofício, tendo como função primeira a replicação de títulos, artigos, livros que constituem amontoados de textos inconcatenados, quase como numa mediocridade festiva.
Quando passou pela Argentina, Einstein disse, em frase que podia ser facilmente estendida ao Brasil: “as questões científicas eram tão estúpidas que era difícil permanecer sério." No Brasil, Einstein proferiu sua palestra, na década de 20, diante de espectadores completamente alheios à teoria da relatividade. Talvez a nossa mediocridade e dificuldade em lidar com ideias novas, no âmbito da academia, está diretamente ligada a uma desconfiança, a uma percepção de que nossos artigos fáceis, risíveis, podem ser um dia objeto de verdadeiro escrutínio científico.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

O Outro e Deus


Vejo que, constantemente, Deus é usado como vocabulário que legitima a ação do indivíduo e também ajuda a justificá-lo diante de si mesmo e dos outros. É bastante comum ouvir, por exemplo, que certa pessoa está próxima de entender a vontade de Deus, já que se dedica, constantemente, a ouvi-Lo, ou a seguir Suas prescrições segundo os livros sagrados de uma ou outra religião. Dessa forma cada um, em sua solidão individual, pode julgar sua experiência de conversa legítima e convertê-la no motor para as suas ações. Na medida, assim, em que a “experiência com Deus” se interpõe entre o indivíduo e sua ação, ela pode ser considerada um componente ideológico subjetivo de consequências bastante imprevistas.
A intenção desse texto, nesse sentido, é encontrar recursos para entender que minha responsabilidade diante da outra pessoa implica num exercício de moralidade mais efetivo e universal do que minha experiência diante de Deus. A experiência do sujeito que alega estar diante de Deus não deve ser percebida somente pelo aspecto psicológico: “o Deus que julgo estar falando comigo pode ser um embuste”, “Deus é misterioso e sempre podemos compreendê-Lo de forma incorreta”, “as palavras sagradas que utilizo para legitimar minhas ações devem ser interpretadas de forma contextual”, mas sim ético: o sofrimento que causo à outra pessoa, a dor que inflijo a ela, independente de qualquer crença que ela possa sustentar, é o primeiro indício para descobrir que eu posso ter abraçado o mal. Não posso ser bom se o sofrimento do outro me produz indiferença: seja por ele ser ímpio, a-civilizado ou pagão. Isso exclui o componente subjetivo implícito na interpretação das palavras de Deus dirigidas individualmente, como alegam constantemente os vários indivíduos que dizem escutá-Lo ou agir em Seu nome.
O uso de Deus como intermediário entre eu e o outro admite a ideia de que posso infligir algum tipo de sofrimento para outra pessoa, contato eu esteja contribuindo para o bem maior de servir a Deus ou ampliar o Seu exército, quer dizer, Sua cidade terrena. Essas experiências podem ser facilmente percebidas durante a análise histórica de grandes eventos e conjunturas políticas, assim como ainda são vistas hoje, sob vários aspectos. Percebamos algumas delas, a título de exemplo.
Segundo a experiência histórica do cristianismo, os descrentes são prisioneiros da asebeia (impiedade), da adikia [injustiça] (Rom, 1,18) e helenos e judeus incorrem igualmente no pecado (Rom 3,9). Nas palavras de Karl Barth, “quem diz humanidade, diz humanidade não-redimida.” Para a experiência histórica cristã, na medida em que o outro não dividir a semelhança cristã comigo, seu destino é, de qualquer forma, o assujeitamento. Noutras palavras, o inferno, durante o Juízo Final. Quando o homem teve a oportunidade de se converter ao credo cristão e não o fez, deixa de ser compreendido como humano. Seu extermínio é não só tolerável como desejável. As recomendações papais para o assassínio dos pagãos durante as cruzadas são um exemplo disso. Matar o ímpio é uma forma de construir a cidade de Deus na Terra o quanto antes, expulsando aqueles que não usam Deus como intermediário para suas ações.
Como alega o historiador Reinhardt Koselleck em sua “Semântica dos tempos históricos”, “não resta dúvida que, na literatura polêmica da teologia, os adversários são discriminados, com o uso de uma larga espécie de juízos negativos. Eles são os infideles, impii, increduli, perfidi, inimici Dei, enriquecidos por mágicas determinações diabólicas, são também de cor negra, de modo que matar esses pagãos, como cães, seria agradar a Deus” (p. 216). 
Podem alegar, então, diante do meu argumento de que ouvir Deus sempre pode trazer componentes subjetivos potencialmente danosos, que a única verdadeira forma de se entregar ao juízo da divindade é lendo os textos sagrados. Mas sabemos que, mesmo isso, pode resultar em problemas muito grandes. A ira de Deus contra aqueles considerados pagãos perpassa várias estórias e alegorias. Um exemplo delas é o dilúvio, no qual Deus teria exterminado por volta de 99% da humanidade por conta de um arrependimento diante de sua criação.
Evidentemente, a experiência diante do outro não deve me levar a uma apreciação ingênua da realidade, sobretudo quando estou diante daquele que objetiva me aniquilar. Em todo o caso, o rosto da pessoa a quem eu causei dor é um termômetro objetivo de que incorri numa má ação. Ou, em outra circunstância, o sofrimento de outra pessoa me é uma garantia de que alguma coisa está possivelmente caminhando mal. Para usar um vocabulário mais egoísta, aquele sofrimento bem poderia ser o meu sofrimento...
As experiências históricas demonstram as conseqüências de se deixar de considerar o outro como um sujeito semelhante a mim. Sob o pretexto de que não exterminavam homens, e sim ímpios, os europeus na América mataram sem que, nem o choro das crianças que perdiam seus pais, e nem o choro dos pais que perdiam seus filhos, pudesse ser percebido como algo negativo. Quem chorava era aquele que não podia abraçar Deus. A alegação de um Pizarro, quando do assassinato de vários incas que buscavam proteger seu rei Ataualpa é de que, bem ou mal, agiam para a expansão do reinado de Deus: “"Deus, o criador do céu e da terra e de todas as coisas nele existentes, nos autoriza a fazer isso para que vocês possam conhecê-Lo e deixar essa vida bestial e diabólica que levam"...
Um sujeito com sensibilidades mais contemporâneas poderia dizer: mas Deus não foi culpado de tais atrocidades. Precisaria responder, contudo, que a crença em Deus também não ajudou os indivíduos a serem mais sensatos naquela ocasião e nem em outras. Pelo contrário, potencializou a insensatez que os levou a dizimar o outro sem precisarem responder diante dele ou de sua família. Estavam seguros de que trabalhavam para Deus e nada os podia dissuadir disso...
Dessa forma, em todos estes casos, a ideia de Deus é usada como um componente de legitimação, ideológico, diante do qual não pode haver precisão empírica. A única forma de corrigir tal imprecisão é considerar o outro, humano, a partir da humanidade que eu compartilho com ele, independente de qualquer forma de crença que possa se interpor entre nós. A sugestão desse texto, nesse sentido, é que o policiamento de Deus (ou o do Diabo) é menos sensível para a consecução do bem do que “o rosto do outro”, para aclimatar a expressão de Lévinas num contexto não-teológico.
A partir do momento em que o sofrimento do outro me toca, não posso ser indiferente. Pelo simples motivo de que, contanto eu não seja um psicopata, sou capaz de imaginar a dor que ele sente e isso me aflige: “eu poderia estar naquela situação”. Assim, o sofrimento de quem quer que seja não é parte integrante de nenhum plano divino, é o resultado concreto de causalidades diante das quais eu posso ser responsável ou não, mas sempre tenho imperativo moral de não diminuir ou relativizar aquela dor.

Posso, nesse sentido, não ter condições e nem meios diretos para privar-lhe a dor, mas a partilha, com ele, da consternação de sofrer, e de haver sofrimento, é ideologicamente suficiente para que eu busque fazer o bem.

sábado, 12 de outubro de 2013

Proposta de religião

 O que não faltam, no decorrer da existência humana, são fórmulas de salvação que estribam pensamentos religiosos, baseadas sempre na vontade individual de salvação e no medo da inexistência ou do sofrimento. Minha proposta religiosa substitui o tradicional Deus como rosto impassível e policial invisível, pela outra pessoa que necessita de mim.
Isso, contudo, não é fácil. Não implica nenhum esforço básico de humilhação, mas sim um autocultivo constante, que não pode ser levado em consideração sem que o outro também tenha o seu espaço na construção da minha individualidade. Mesmo o maior esforço autodidata conta com a participação do outro, seja na forma de partilha da língua, costumes ou tradição. Construindo o outro e deixando brotar a sua individualidade de forma criativa, construo também a mim.
Dentro dessa proposta de religião, é possível destacar alguns termos:
à  O voluntariado. O lugar do voluntariado é a igreja dessa nova religião. Ali, onde se entra em contato com o Outro (na escola, no orfanato, no hospital) e se oferece ao serviço dele, daquele que precisa, é onde se conhece a santidade;
à A entrega de parte dos ganhos financeiros. Como a causa é o bem do outro, todo o dinheiro que se queira depositar, na forma de dízimo, deve ser destinado diretamente para aquele que precisa, sem intermediários;
à Deus é o Outro. Deus não é um princípio metafísico vulgar, um deus das lacunas que conforta meu torpe medo e preenche o meu egoísmo, mas sim uma devoção ao princípio comum que reúne os homens, uma devoção ao Outro que necessita de mim;
à Não há vida eterna. Para tanto, devo aproveitar tanto quanto possível minha efemeridade para oferecer aos outros minha contribuição. É pelo caráter limitado da existência que devo aproveitá-la para a prática sincera do bem;
à O que se chama, tradicionalmente, de espírito, é uma relação entre eu e o conjunto de obras duráveis produzidas pela humanidade. Elas exigem sempre um novo posicionamento, já que o espírito é inquieto e não se contenta com um conjunto de máximas arbitrariamente instituídas. Os princípios de vida são construídos a partir da soma de elementos positivos, que crescentemente tornam possível ao homem uma convivência mais compreensiva e harmônica;
à A entrega ao Outro não é um esforço de ingenuidade passiva. É a construção de sorrisos. Se vejo que, através do meu esforço, consegui tornar-me alguém melhor tornando também o outro alguém melhor, é por que consegui a salvação;
à Essa liberdade sem nenhum tipo de coerção para fazer o bem é o único caminho para o homem conseguir a santidade. Não se conquista essa santidade observando o rosto impassível de uma divindade inexistente, observando tábuas de leis antigas com o objetivo de ser salvo individualmente, nesse egoísmo que tem afastado os homens ao longo dos anos, a causa direta dos maiores morticínios já praticados (seja na forma de religião ou anti-religião);
à A religião, como tradicionalmente imaginada, afasta os homens. Cada líder oferece um conjunto obscuramente capturado de dogmas que deve ser seguido por manadas individualistas que buscam o paraíso, onde podem usufruir das delícias prometidas. Ser santo é saber da efemeridade do próprio espírito e, mesmo assim, dedicar-se a fazer o bem. Essa é a única forma de santidade possível;
à Poder-se-á alegar que, sem um policiamento invisível e sobrenatural, poderei discursar esses princípios de forma hipócrita. Já que não vou colher frutos no paraíso, não tenho verdadeiros motivos para praticar o bem, na forma de redenção e entrega ao Outro. Isso implica, contudo, que eu pense nos outros e nos seus rostos, naqueles que foram o fundamento da minha autoconstrução enquanto individualidade, mesmo que eu não os conheça diretamente, e para quem necessito, como imperativo categórico, deixar um mundo melhor;
            àPor fim, o prazer de fazer o melhor. Relacionar-se com as boas obras, transmitir esse prazer comum ao espírito, também para os outros, é um prazer compartilhado por todos os homens. Contribuir para a ilustração e enobrecimento dos sentimentos do outro, sabendo que um mundo melhor está por vir, é o maior sentimento. Não é tão grandiloqüente quanto o paraíso dos antigos, mas, ainda assim, é melhor e não implica no sofrimento daqueles que não foram escolhidos. A partir do momento em que há o confronto com o outro e seu sofrimento, passa-se a ter também o imperativo moral de ajudá-lo.