<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-6137614484918324495</id><updated>2011-09-28T17:48:37.545-07:00</updated><title type='text'>Vale dos Elfos</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://valedoselfos.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://valedoselfos.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Lule</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03948830673393349689</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>35</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6137614484918324495.post-7173825346118162843</id><published>2011-06-06T15:57:00.000-07:00</published><updated>2011-06-10T16:57:17.228-07:00</updated><title type='text'>A estupidez dos pais</title><content type='html'>Como tudo hoje é moda a novidade já não parece mais tão chocante. Parecemos existir para a juventude constante, para rompermos diariamente a experiência, que se fraciona nas redes sociais e mecanismos de comunicação cada vez mais dominados por versos sucintos e esquizofrênicos, em que cada um pensa ser a nova estrela do amanhã comentando sobre a vida de si mesmo e dos outros. RT “Olha o meu gatinho, ele está doente”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Os mais velhos, desorientados pelo ritmo crescente de rejuvenescimento e pela velocidade da comunicação entre os jovens, tentam negar as suas rugas e assim freqüentar baladas com os seus filhos ou tirar fotos na frente do espelho para parecer mais legais - cool. Estes pais rejuvenescidos pensam: “meus filhos são jovens gênios já que passam todo o dia em frente ao computador mexendo nesses renovados instrumentos tecnológicos”. É decerto inútil que conheçam literatura, artes, ciências ou o que quer que seja, mas que sorriam ao comentar a disenteria do seu animal de estimação, o horário em que vão tomar banho ou novidades sobre o horóscopo diante de um público de outros jovens ciosos do espetáculo vazio.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; Os pais new age – travestidos de adolescentes – acham seus filhos engraçadinhos vendo montes de imagens no monitor do computador: o fato de estarem ali o dia todo é de alguma forma um indício da genialização das crianças. Não importa que se exibam seminus para milhares de outros adolescentes na frente da webcam, que difamem colegas e professores, que vandalizem comunidades virtuais ou mesmo que não consigam articular frases com mais de 10 palavras sem a rechearem com uma porção de erros gramaticais. Nada disso tem importância e nada disso é imoral.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;A carência de educação doméstica, quando os pais  assistem à estupidez de seus filhos com a hipocrisia de quem simplesmente vê chegar a novidade, recai como responsabilidade nas costas de uma escola cada vez mais esvaziada de suas funções e cada vez mais impotente. Isto é, cada vez mais obrigada a atuar como intermediária entre professores desorientados e pais superprotetores. Quando se espera que um aluno chegue aos seus 15 anos dotado de noções básicas de responsabilidade e reconhecimento da autoridade, para na escola ter condições psíquicas de começar o processo de aprendizado, ele apenas reverbera o eco vazio de seu lar e de seu quarto inútil, onde na frente de um computador repete mecanicamente frases de microblogs e se diverte com intrigas fúteis. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Os adolescentes não sabem pra quê serve a escola: quando muito um passo para a aquisição do diploma, quanto pouco um lugar para a reprodução de conflitos que acontecem na própria internet entre grupelhos de adolescentes rivais. A educação se viu relegada a um plano tão inútil e mesmo ridículo que o professor é tratado como mero distribuidor de avaliações e não como o passaporte do aluno para a curiosidade cívica ou científica. O aluno, tornado futuro imbecil coletivo, não tem como primeiros culpados os professores – também eles – mas em primeiro lugar os seus lares deslocados, onde seus pais os imbecilizam e tratam a sua imbecilidade com complacência. Acusam a escola pela delinqüência, reclamam de notas baixas e aparecem histéricos nas portas da escola quando seus filhos, despreparados para assumir qualquer responsabilidade, reclamam terem sido ofendidos por algum professor que é humilhado diariamente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Estes pais, hedonistas dissimulados que não negam aos seus filhos senão a possibilidade de serem hipócritas, são o passaporte para a sociedade viciada e frívola que vivemos e que é celebrada em novelas de televisão. Nela a autoridade é degradada pelo mau comportamento, a sexualidade é viciada e animalesca e a irresponsabilidade e incapacidade de arcar com os próprios atos é incentivada. Pais protegem os filhos porque assim estão protegendo a si mesmos e, de quebra, justificando a ausência de educação com a qual não querem se comprometer: ou porque estão preocupados com seu carro novo ou porque querem “namorar”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se um menor de idade depreda a sua escola ou injuria publicamente um professor deve arcar com as conseqüências disso sendo castigado. O castigo – desculpem-me os apóstatas mais doentios de Foucault – é fundamental para levar o jovem a uma reflexão sobre o dano que causou aos seus pares sociais. No entanto, a maioria dos pais – tanto pais quanto ideólogos inúteis que nunca estiveram numa sala de aula – acaricia seus rebentos ou finge não ver, comportando-se eles mesmos como crianças tolas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6137614484918324495-7173825346118162843?l=valedoselfos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://valedoselfos.blogspot.com/feeds/7173825346118162843/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6137614484918324495&amp;postID=7173825346118162843' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/7173825346118162843'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/7173825346118162843'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://valedoselfos.blogspot.com/2011/06/estupidez-dos-pais.html' title='A estupidez dos pais'/><author><name>Lule</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03948830673393349689</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6137614484918324495.post-2727272411702731344</id><published>2011-01-23T06:21:00.001-08:00</published><updated>2011-01-23T11:03:06.607-08:00</updated><title type='text'>Lula é o nosso Aristóteles</title><content type='html'>A maioria das pessoas não é capaz de formular pensamentos sobre problemas políticos caros ao coletivo. Elas materializam isso tanto votando de forma pouco meditada quanto levantando bandeiras para homens cujas ideias possuem menor valor que o alarido dos cães ou os piados das gaivotas. Esta maioria depende de porta-vozes que lhes inculquem na cabeça opiniões sobre assuntos diversos, dado o verdadeiro desalento que sentem quanto não aparece ninguém que lhes diga o que pensar. A expressão líder de opinião justifica-se, portanto, diante da impossibilidade de o coletivo lançar um olhar sobre o próprio coletivo; o que fundamenta o processo político de “autoconhecer”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a Alemanha encarava a guerra franco-prussiana de 1870, Hegel forneceu argumentos para a conquista alemã do espaço francês. Os vários pensamentos que Hegel elaborou, sem querer entrar precisamente no seu mérito, tornam-no um invulgar apóstolo da conquista do território pelo herói político. Aristóteles, quando refletiu sobre a constituição política ideal, menosprezando tanto a democracia quanto a oligarquia, buscou orientar seus compatriotas para a construção de uma República em que as funções sociais seriam distribuídas de acordo com os méritos específicos de cada um dos indivíduos. Os longos e dedicados pensamentos de Aristóteles fazem dele um líder de opinião. Estes indivíduos permitem que a sociedade olhe para ela mesma de forma mais aguçada. Ainda que não estejam sempre certos, fornecem argumentos para que, ao longo da história, exista um acréscimo substantivo de forças pensantes que engrossam a percepção dos homens sobre as organizações coletivas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; O brasileiro não tem seu Hegel ou seu Aristóteles e, na verdade, desde a morte de Sérgio Buarque de Hollanda ou Caio Prado Junior carece de qualquer alto pensador político. A morte da alta cultura brasileira está representada nos preciosos ditos do ex-presidente da República: “nós não precisamos de formadores de opinião. Nós somos a opinião pública”. É detestável admitir, mas Lula está mais do que certo. Lula e seu séquito, agora encarnado na face de Dilma, demonstram a incapacidade do brasileiro para qualquer julgamento crítico; bastando para isso mencionar que o professor, ainda que tenha despendido boa parte da vida entre os estudos – ou assim devesse ter feito –, ganha menos de 5% que um parlamentar que, no caso sincero de Tiririca, admite nem sequer saber o que está fazendo ou para que serve. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A verdade é que Lula pensa por todos nós e portanto não precisamos nos lamentar de não ter um Hegel ou um Aristóteles. José Dirceu pensa por nós. Dilma pensa por nós. Tiririca pensa por nós. Para Dirceu, os jornais brasileiros possuem muita liberdade. É claro que possuem. José Dirceu, o principal mentor do maior esquema de corrupção da história brasileira reclama da liberdade da imprensa.  “A imprensa tem liberdade demais”, diz o mensaleiro. Diante da incapacidade absurda do brasileiro para julgar a baixeza moral dos governantes, ao mesmo tempo em que encara com boa fé o relativismo petista que muda de opinião de acordo com conveniências políticas (a ‘metamorfose ambulante’), não temos melhor formadores de opinião do que Lula e seu séquito e absorvemos seus padrões morais nauseabundos como se fossem a coisa mais natural do mundo. Não precisamos ficar sabendo de escândalos envolvendo dinheiro público, de fanfarras sexuais de ministros, do mascaramento de estatísticas para o engrandecimento do Grande Irmão, do uso do Estado para fins eleitoreiros e manutenção do poder. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lula diz o que devemos pensar: nossa opinião está bem resguardada pelo raciocínio de um indivíduo que subiu na vida mais do que qualquer outro brasileiro e mal aprendeu a ler e escrever. Mas aprendeu a usar terno Armani, a andar de jatinho, a usar roupão de linho egípcio, a andar cercado de uma corja de aduladores e distribuir mercês e benefícios com a mesma pompa de nossos primeiros monarcas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6137614484918324495-2727272411702731344?l=valedoselfos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://valedoselfos.blogspot.com/feeds/2727272411702731344/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6137614484918324495&amp;postID=2727272411702731344' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/2727272411702731344'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/2727272411702731344'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://valedoselfos.blogspot.com/2011/01/eu-sou-opiniao-publica.html' title='Lula é o nosso Aristóteles'/><author><name>Lule</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03948830673393349689</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6137614484918324495.post-5077624402901273155</id><published>2011-01-17T18:23:00.000-08:00</published><updated>2011-01-17T18:29:13.220-08:00</updated><title type='text'>Priapismo</title><content type='html'>O Brasil é uma referência no turismo sexual mundial, além de exportar prostitutas e travestis à revelia para o primeiro mundo. A principal festividade brasileira, o carnaval, é conhecida por atrair contingentes maciços de estrangeiros que aqui vêm seduzidos por nossas facilidades erógenas e pela dimensão do traseiro das mulheres. Nosso último presidente, Luís Inácio, não foi menos arretado quando declarou à revista Playboy que praticou sexo com uma cabrita. Isso é, quando a maior autoridade pública de uma nação diz com naturalidade que praticou a bestialidade, você sabe que existe no brasileiro alguma coisa de muito invulgar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tão celebrada novela de Sérgio Abreu, enfadonha do começo ao fim e ao mesmo tempo referência comportamental para os brasileiros, celebrou a poligamia como um de seus temas condutores. Ao final do espetáculo, incapaz de escolher entre uma ou outra manceba, um personagem pseudo-italiano ficou com as duas, que consentiram serem os objetos da vontade do garanhão. Segue à novela da maior emissora do país, um reality show em que o fio condutor da narrativa se concentra num homem que decepou a piroca para tentar se tornar mulher. O clima de apreensão em torno desse ilustre feito parece concentrar todas as energias criativas dos telespectadores. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A piroca decepada causa comoção geral, é objeto de especulações, apostas, todos os olhos estão postos nela. Mas isso não é novidade. No Brasil, a piroca sempre foi mais importante do que qualquer outra coisa. Gilberto Freyre falava na importância do falocentrismo português para a colonização do Brasil; sendo impossível imaginar como um povo tão limitado demograficamente como aquele conseguiria ocupar o vasto território brasileiro sem fornicar com uma profusão de índias e negras – algo impensável entre os puritanos ingleses. A lubricidade portuguesa é considerada então um dos alicerces da nacionalidade brasileira. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O comportamento das autoridades públicas não fica muito atrás e representa a nação com perfeição. Se já citamos o exemplo de Lula e a bestialidade, porque não mencionar ministros, como Pedro Novais (PMDB-MA), que usaram verbas públicas para custear despesas com motéis, parlamentares, como o ilustre Renan Calheiros (PMDB-PE), que usaram verbas públicas para custear despesas com ex-amantes, ou mesmo personalidades públicas, como Adriano, que se envolveu em orgias com anões e Ronaldo, sexo extra-conjugal com travestis, etc. Evidentemente o povo brasileiro possui uma imaginação sexual bastante invulgar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ana Ferreira, a estudante brasileira que teve seu seio apalpado pelo príncipe William em uma fotografia, revela de modo emblemático a índole do povo brasileiro.  Ao invés de censurar a pouco louvável atitude do príncipe, a estudante tentou lucrar com o episódio, vendendo a imagem para um tablóide. Quer dizer, o povo brasileiro não deixa de se ver refletido na sincera estudante: você passa a mão nele, tira a sua dignidade, avilta a sua honra, mas conseguirá pacificá-lo dando-lhe trocados.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6137614484918324495-5077624402901273155?l=valedoselfos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://valedoselfos.blogspot.com/feeds/5077624402901273155/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6137614484918324495&amp;postID=5077624402901273155' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/5077624402901273155'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/5077624402901273155'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://valedoselfos.blogspot.com/2011/01/priaprismo.html' title='Priapismo'/><author><name>Lule</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03948830673393349689</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6137614484918324495.post-3665975519990091165</id><published>2010-11-27T14:53:00.000-08:00</published><updated>2010-11-28T05:48:05.219-08:00</updated><title type='text'>Como montar discursos políticos</title><content type='html'>Dilma ligou para o governador Sérgio Cabral parabenizando-o pela marcha contra os inimigos do Estado. Os inimigos do Estado são vendedores de droga que moram em favelas. O petismo sempre manteve uma negociação bastante solícita com as Farc, cujo pretexto para a prática do tráfico e produção das drogas é o financiamento de uma revolução popular. O que falta aos nossos traficantes, assim como aos brasileiros em geral, é um cadinho de criatividade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A maioria votante foi ganha em 2010 através de um discurso bipolar: trata-se de mudar de opinião o tempo inteiro, de acordo com aquilo que melhor se encaixa nas pretensões de alcance do poder. O que falta aos traficantes é essa politização do discurso. Seria bem fácil reivindicar um “movimento legítimo e popular, brotado dos morros onde os pobres são esmagados pela ditadura do capital”. Certamente, esse discurso encantaria a natureza sonhadora e irracional do brasileiro: a truculência do Estado, com seus tanques e sua artilharia pesada, contra um bando de traficantes que modestamente atiram fogo nos carrões dos burgueses da Zona Sul carioca. “Isso se chama revolução!”, diriam entusiasmados. Não estou defendendo o tráfico, estou dizendo que é fácil criar um discurso de esquerda com base em violências praticadas, como fez o PT. Só isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As Farc estão diretamente vinculadas à droga vendida nos morros e, evidentemente, figurões políticos lucram com esse comércio. E para onde vai a droga dos morros? Evidentemente que alguém consome toda essa droga. Ninguém fala nos consumidores, que afinal de contas são o motor do comércio. O problema é que metade dos estudantes que fazem militância em universidades é usuário de drogas. As viagens esotéricas que permitem ao eleitorado pseudo-politizado passar por cima do lastro ilimitado de contradições do discurso vencedor petista só pode estar no consumo torrencial da droga. Aliás, quando Rohter insinuou que a cachaça era um problema para a governabilidade, ele foi impedido de sair do país. Falar qualquer coisa de Lula é ser inimigo do Estado, enquanto ele pode, publicamente, vomitar toneladas de bobagens sendo aplaudido vividamente, quase como fosse Jesus Cristo enunciado parábolas hiperbólicas que só vão ser compreendidas daqui 2000 anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Evidentemente, o petismo vai dissimular o problema das drogas. O espetáculo televisivo vai continuar. O tráfico vai continuar. As Farc vão continuar. Enquanto isso, o Estado se ufana de dar combate aos “inimigos dos morros”, sendo respaldado pela televisão, essa amiga “golpista”, enquanto Dilma liga e parabeniza as ações militares. "Metamorfose ambulante" é pouco para explicar a mutação desses discursos...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6137614484918324495-3665975519990091165?l=valedoselfos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://valedoselfos.blogspot.com/feeds/3665975519990091165/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6137614484918324495&amp;postID=3665975519990091165' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/3665975519990091165'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/3665975519990091165'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://valedoselfos.blogspot.com/2010/11/guerra-ao-terror.html' title='Como montar discursos políticos'/><author><name>Lule</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03948830673393349689</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6137614484918324495.post-1284858288382460766</id><published>2010-11-25T08:13:00.000-08:00</published><updated>2011-01-16T08:45:15.227-08:00</updated><title type='text'>Escola de presidentes</title><content type='html'>As três principais facções criminosas da Zona Norte do Rio de Janeiro (Comando Vermelho, Terceiro Comando e Amigos dos amigos) se uniram e estão desencadeando "políticas de libertação" como já fazem o MST e as Farc. Tudo indica que dessa fortuita união sairá o nosso próximo presidente. O carisma de Mica torna-o um postulante provável para ingressar nossas hostes políticas. Ele distribui dinheiro aos pobres e marca com um ferrete os rivais. Tem punho de ferro. "É o nosso camarada de armas".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estão enganados aqueles que denunciam a ausência de pretensões políticas nos criminosos cariocas, dados os verdadeiros currais eleitorais que eles têm criado nos morros, controlando diretamente o trânsito de ideias, como fazem os oligarcas nordestinos. O que se assiste é o ingresso institucional do banditismo na política com o pretexto sonhador de promover a libertação dos mais pobres. Essa é a justificativa que sempre deram os narcotraficantes das Farc, com quem o petismo mantém um fortuito diálogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O banditismo é um instrumento histórico das políticas de esquerda, bastando olhar Stálin, Fidel Castro ou Mao Tsé Tung. Com o pretexto de salvar o Brasil da indômita ditadura, Dilma e seus amigos roubaram aos montes, nunca prestando contas de onde foram aplicados o dinheiro dos assaltos ou com que justeza as aniquilações foram praticadas. É bom lembrar que estas ações iniciaram antes mesmo do golpe de 64 e tinham como o pretexto estender a revolução comunista soviética. O argumento de que se lutava contra a impiedosa ditadura e que isto justifica toda a espécie de banditismo é a institucionalização do raciocínio sonhador que ainda hoje impregna a política brasileira. "Se vamos construir essa abstração que é o futuro melhor e utópico, devemos para isso alcançar o poder aniquilando todos aqueles que se opõem aos nossos projetos de poder". Lula ilustra, com sua impulsividade infantil, esse raciocínio que outrora motivou seus camaradas de armas: 'é preciso extirpar o DEM da política brasileira'.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A política dos criminosos cariocas são assim, na ótica da esquerda histórica, lutas de libertação. Os criminosos são indivíduos excluídos do sistema de produção capitalista e que, obnubilados por uma legislação burguesa, expremem-se em favelas clamando por políticas benfeitoras. Enquanto isso não acontece, lutam com os meios que podem, praticando, através de saques, depredações, tráfico de entorpecentes, uma "legítima" política de alcance de poder, que é o escopo primeiro e segundo de qualquer esquerdista. Acaso não é esse o raciocínio comunista?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso quer dizer que, desse conchavo feliz de traficantes, deverá sair o treinamento dos próximos políticos que ocuparão Brasília. Dilma depredou, vandalizou e roubou para tomar o poder, tendo como justificativa a maldade intrínseca da ditadura. O traficante Mika chegaria na presidência do país, se já não tivesse sido morto pelos malvados policiais. Parem de matar o Mika!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6137614484918324495-1284858288382460766?l=valedoselfos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://valedoselfos.blogspot.com/feeds/1284858288382460766/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6137614484918324495&amp;postID=1284858288382460766' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/1284858288382460766'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/1284858288382460766'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://valedoselfos.blogspot.com/2010/11/escola-de-presidentes.html' title='Escola de presidentes'/><author><name>Lule</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03948830673393349689</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6137614484918324495.post-570232991626851191</id><published>2010-09-24T17:26:00.000-07:00</published><updated>2010-09-24T17:27:24.765-07:00</updated><title type='text'>A reinvenção da história do Brasil</title><content type='html'>Antes de receber Lula no poder, o Brasil era um entreposto comercial português que produzia pau-brasil. Passou por sucessivas mudanças, é verdade, até se tornar o Brasil do açúcar, o Brasil do ouro, o Brasil do café, o Brasil da indústria, o Brasil do Plano Real. Nunca antes na história deste país, no entanto, o destino foi tão dadivoso com o trópico dos pecados, mandando-lhe um locutor das maiorias pobres, um legítimo representante do pauperismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A história começou a ser construída a partir de 2002, quando o presidente operário assumiu o poder através da imagem sedutora construída pelo publicitário Duda Mendonça. Logo se tornou senso comum, com as ideias do ideólogo frei Betto, que a fome assolava o Brasil e crescia como um cancro. “Como eu vou poder dormir à noite, sabendo que estou cercado por uma multidão de famintos?” Pouco tempo depois, a Folha de São Paulo exibiu reportagem que mostrava um país cujo principal problema, muito longe da fome, era a obesidade. O Brasil é mais uma nação de obesos bem alimentados do que esfomeados maltrapilhos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que não nega a fome, evidentemente. Ela existe. O problema do discurso petista é que ele se transformou num discurso que depende do pauperismo e de outras figuras retóricas que toquem o imaginário romântico e irracional do brasileiro. Não se busca ponderar medidas que estanquem definitivamente esses problemas. Fica-se sempre empacado nos fins mais imediatos, como se a distribuição sistemática de esmolas fosse mais importante do que medidas decididas no terreno da educação – essa sim capaz de fornecer não apenas instrumentos de subsistência aos cidadãos como também um cadinho de dignidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A desculpa, quando se fala em educação, é que não se estuda com fome. A fome está em todo o lugar. Ela, por si só, compreende um argumento. Basta dizer, diante de qualquer proposta política, que há, em algum canto, alguém com fome, para seduzir os ouvidos do interlocutor. Diante desse tipo de retórica romântica fundamentou-se um Estado controlador e burocrático, desconectado da vida dos cidadãos. Quer dizer, um Estado que aparece apenas na função de pai. Ele não aparece para conferir cidadania, mas apenas para assistir os necessitados, que nunca têm condições de caminharem com seus próprios pés. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O petismo depende do discurso da fome, e provou que, através da propaganda incutida no bolsa família, baluarte da sua campanha, dificilmente ganharia uma eleição sem a ideia de que se tem fome em todo o lugar. O cidadão que o petismo quer criar não é o cidadão alfabetizado. Ao pedir em 2008, durante a marolinha nos EUA, que o brasileiro continuasse consumindo, Lula ilustrou em que consiste o cidadão petista, ou melhor, o cidadão consumidor. Por mais incrível que pareça, o carro-chefe da argumentação petista é o crescimento das classes médias consumidoras, não importa que analfabetas funcionais, já que o Estado-Pai é capaz de fazer política por elas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse discurso fortemente economicista, que por um lado prega o crescimento a todo o custo e por outro a distribuição de benesses fáceis, é uma forma de infantilizar o cidadão. Em outras palavras, é uma forma de tornar o cidadão político, capaz de amadurecer calmamente as conseqüências do seu voto, num autômato consumidor que se beneficia diretamente do Estado e retorna esse benefício na forma de voto, alimentando o círculo vicioso. Pode-se ilustrar mais amplamente as conseqüências dessa prática através do inchamento do aparato de governo, isto é, da criação de uma chusma burocrática diretamente dependente do dinheiro do Estado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O petismo, enfim, não trouxe nada de novo. Politicamente, perpetuou a covardia de evitar mexer nos blocos de poder entranhados no Estado. Ao contrário, gerou alianças profundas com estes blocos, comprometendo-se com o continuísmo econômico convertido em ufanismo desenvolvimentista. Representou o crescimento, aquele crescimento que o ouro representou em relação à cana-de-açúcar, que o FHC representou em relação à inflação do Sarney, aquele crescimento de sempre, de todos os anos, transmutado sob a retórica agressiva do “nunca esteve tão bom”, ou melhor, do “nunca antes na história desse país”. Mostra o nosso vício em fórmulas fáceis e salvadoras.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6137614484918324495-570232991626851191?l=valedoselfos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://valedoselfos.blogspot.com/feeds/570232991626851191/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6137614484918324495&amp;postID=570232991626851191' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/570232991626851191'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/570232991626851191'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://valedoselfos.blogspot.com/2010/09/reinvencao-da-historia-do-brasil.html' title='A reinvenção da história do Brasil'/><author><name>Lule</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03948830673393349689</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6137614484918324495.post-3129961441279353064</id><published>2010-09-12T10:02:00.001-07:00</published><updated>2010-09-12T16:19:28.180-07:00</updated><title type='text'>Vote em mim</title><content type='html'>Sou ex-guerrilheira e ex-dona de loja de 1,99. Já acreditei que a luta armada era a única forma de subverter a situação dominante no país, mas hoje vejo que a situação dominante e o ar que emana do poder é uma substância etérea e afrodisíaca. Ideologicamente, eu não represento nada. Represento um vazio grotesco, preenchido pelo rosto redondo e barbudo de meu antecessor. Represento o sorriso malicioso, a cordialidade brasileira, a amizade dentro da política, o tapinha no ombro camarada e a arrogância e maldade com aqueles que não pertencem à minha trupe. Isso é o que nós chamamos de governabilidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Por detrás de uma intelectualidade acadêmica arrogante, consigo defender meus projetos que são práticas perenes e duradouras em todos os lugares resolutamente atrasados. Nós transformamos a distribuição de esmolas em algo nobre e bonito. Melhor, transformamos ela num imperativo: não se governa sem distribuir esmolas. A Coréia investiu maciça e asceticamente em educação durante 20 anos. Mas essa não é nossa prioridade. Governo se faz com medidas espalhafatosas, que toquem o coração do faminto e sua realidade esfomeada e imediata. Do ponto de vista ideológico, estamos distribuindo dignidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A intelectualidade que está por detrás de nossa plataforma de governo é composta por um conjunto de paladinos plenamente convictos de que está lutando para o bem maior e a redenção da raça humana contra inimigos invisíveis e maravilhosos. Inimigos que antes eram Sarney, Collor, Calheiros, e hoje são as políticas malvadas do antigo governo de FHC ou de D. João VI. O governador não precisa prestar contas, porque ele tem o respaldo do povo. E tem o respaldo do povo porque lhe distribui coisas fáceis. Ele é o césar que constrói estádios, promove grandes eventos e cura a escrófula das pessoas que tocam em sua roupa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas nós temos sim um discurso que extravasa a compra de voto. É o discurso do crescimento. É o mesmo discurso da descoberta do ouro ou do café: agora o país cresce. É o discurso ufanista da era militar, quando as indústrias iam fazer o país deslanchar de vez. Enfim: vamos crescer, porque crescer é o que há. O brasileiro, como o cidadão do drama orweliano, olha para um presente que é sempre a mesma coisa e acredita no futuro. Vamos trabalhar e crescer, enquanto os políticos, essa trama de homens bardos e corajosos, defende os meus direitos no plenário. O meu programa é o programa da despolitização: não queira saber o que acontece por aqui, apenas vote no barbudo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6137614484918324495-3129961441279353064?l=valedoselfos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://valedoselfos.blogspot.com/feeds/3129961441279353064/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6137614484918324495&amp;postID=3129961441279353064' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/3129961441279353064'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/3129961441279353064'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://valedoselfos.blogspot.com/2010/09/vote-em-mim.html' title='Vote em mim'/><author><name>Lule</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03948830673393349689</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6137614484918324495.post-4811021002535711864</id><published>2010-09-07T12:41:00.000-07:00</published><updated>2010-09-08T12:47:26.452-07:00</updated><title type='text'>Estes homens atarefados e corajosos</title><content type='html'>Da mesma forma que qualquer escritor não hesitará em descrever a profissão do jornalista como o corolário das mais deslavadas mediocridades, o jornalista não hesitará em se descrever como o portador imarcescível das mais elevadas verdades já pronunciadas. Nas redações são uma casta de homens concernidos no difícil exercício de pensar com solidez aquilo que há de mais profundo; a vociferar com orgulho estampado no peito a sua influência sobre a "opinião pública".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No Brasil, da mesma forma como a casta política, grupo de homens bardos e corajosos que lutam pela "instituição democrática", a imprensa constitui, segundo o seu próprio discurso, uma falange sagrada que protege os pobres da chusma invisível de opressores. Defende o público com garras de paladino, enunciando verdades objetivas e simplificando as coisas para que o humilde possa ler relatos de tão sagrada importância. Não se trata de tornar o humilde simples massa de manobra, e sim de lhe oferecer, de bandeija, a Verdade, a metafísica Verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pode-se especular que, em terras brasílicas, a predominância do analfabetismo e de uma leitura empobrecida da realidade permite a associação e mesmo confusão das esferas pública da imprensa com a da política. Essa leitura empobrecida, a que Plínio Arruda atentava quando mencionava a despolitização, é que permite uma crescimento cada vez mais possante da mediocridade. Tudo se vê confundido no discurso simplificado do jornalismo, especialmente televisivo, de forma que a convicção política que está tão-só ao lado do status quo passe por discurso inocente sobre a verdade. Não se percebe que por detrás da "enunciação neutra" existe um direcionamento direto da percepção dos leitores, especialmente na seleção de pautas e na exclusão de temas. Como Chico Buarque lembrava, mencionando o poderio "assustador" da Rede Globo, a emissora pode simplesmente colocar no ostracismo quem quer que seja. Da mesma forma que pode tornar tanto Collor, Sarney, ou qualquer cão uma celebridade da noite para o dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A descrição que Lima Barreto fez da redação d´o Globo, há um século atrás, menciona a inércia cultural da empresa. O documentário "Além do cidadão Kane", da mesma forma, demonstra o servilismo e a promiscuidade na relação da diretoria da Globo com lideranças políticas; o que se torna explícito numa programação que apenas reforça diferenças sociais tocando em problemas de superfície. O jornalismo que faz parte dessa hierarquização de pautas está plenamente convicto de que é um componente direto das mais altas virtudes cívicas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele pode ser ilustrado como Lima Barreto o ilustrava há mais de um século com seu "Isaías Caminha":&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Fiquem vocês sabendo que, se o Barba-Roxa resuscitasse, agora com os nossos velozes cruzadores e formidáveis couraçados, só poderia dar plena expansão à sua atividade se se fizesse jornaista. Nada há tão parecido como o pirata antigo e o jornalista moderno: a mesma fraqueza de meios, servida por uma coragem de salteador; conhecimentos elementares do instrumento de que lançam mão e um olhar seguro, uma adivinhação, um faro para achar a presa e uma insensibilidade, uma ausência de senso moral a toda prova... E assim dominam tudo, aterram, fazem que todas as manifestações de nossa vida coletiva dependam do assentimento e de sua aprovação... Todos nós temos que nos submeter a eles, adulá-los, chamá-los de gênios, embora intimamente os sintamos ignorantes, parvos, imorais e bestas... Só se é geômetra com seu placet, só se é calista com a sua confirmação e se o sol nasce é porque afirmam tal cousa... E como eles aproveitam esse poder que lhes dá a fatal estupidez das multidões! Fazem de imbecis gênios, de gênios imbecis; trabalham para a seleção das mediocridades, de modo que..."&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6137614484918324495-4811021002535711864?l=valedoselfos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://valedoselfos.blogspot.com/feeds/4811021002535711864/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6137614484918324495&amp;postID=4811021002535711864' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/4811021002535711864'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/4811021002535711864'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://valedoselfos.blogspot.com/2010/09/estes-homens-atarefados-e-corajosos.html' title='Estes homens atarefados e corajosos'/><author><name>Lule</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03948830673393349689</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6137614484918324495.post-1434421123476910758</id><published>2010-08-28T09:17:00.000-07:00</published><updated>2010-09-12T16:28:08.346-07:00</updated><title type='text'>Eu não tenho opinião</title><content type='html'>Eu poderia escrever sobre hermenêutica, sobre o amor, sobre paredões rochosos, sobre o livro Crepúsculo ou sobre qualquer outra coisa. Mas eu não tenho opinião. Todos opinam sobre tudo e todos. Meninotas de 15 anos falam sobre a última moda em baladas, rapazolas exaram opiniões profundas sobre o existencialismo e velhos publicam reflexões metafísicas sobre charutos. Eu não sou tão profundo, e nem tão perscrutador. Não tenho nada sobre o que escrever. Pensei em narrar o cotidiano de uma subcelebridade de internet que acompanha seu crescimento de popularidade através de seguidores no twitter, mas eu nem sei como isso funciona. Eu nem sequer tenho um twitter. E, ainda que não tenha nada sobre o que escrever, quando surge algum lampejo de esperança em minha cabeça eu preciso de mais do que 140 letras. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensar deve ter sido um dia uma coisa complicada. O indivíduo adotava uma posição solene, quem sabe até parava de caminhar e, não sem alguma comoção, ele descobria uma verdade que demorou anos para descobrir. Na verdade, pensar devia ser o comprometimento com alguma coisa. Devia tirar o sono de muitas pessoas. E quando aquela verdade sempre buscada aparecia, isso com certeza dava motivo para escrever alguma coisa. Eu devo ter envelhecido: as pessoas escrevem e exaram opiniões sobre tudo o tempo inteiro. Desde as calotas polares até literatura infanto-juvenil que fala de vampiros, lobisomens, bruxos e outras criaturas cabalísticas. A velha razão é como suspensório de velho; não serve mais para nada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tanto eu sou prova disso que me pús na frente do computador apenas para escrever alguma coisa. Também quero manifestar a minha opinião, ainda que seja sobre o fato de não ter opinião alguma sobre coisa alguma. Ou, se eu a tenho, ela é tão singela e despretensiosa que não merece ser posta a público e, com certeza, não vai ser lida por ninguém. A não ser que seja acompanhada por gestos bruscos e mirabolantes, que façam o leitor se convencer de que eu guardo realmente alguma coisa de muito importante - tão importante que faça ele se sentir importante só por estar lendo. Para isso preciso aprender a ser um cara cool, como certa vez me indicou uma revista masculina (ela dava dicas de como conseguir mais seguidores no twitter). Quem sabe falar sobre cigarrilhas aromáticas, sobre literatura pós-moderna, criticar o Brizola. Será que isso cola? Eu nem sei mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que as pessoas toleram hoje em dia? Talvez qualquer coisa que as faça se sentirem importantes: auto-ajuda, romances mentirosos de mocinhas comuns bem sucedidas, romances espíritas que falam sobre reencarnações sucessivas - se sua vida é absurdamente medíocre, a de todos os outros espíritos também já foi um dia. Enfim, esse é um texto sincero sobre não ter opinião. Eu não a tenho. E, se eu a tiver algum dia, ela com certeza não interessará a muita gente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há mais direito para aquela vida lenta e inexata de outros tempos. As pessoas se tornaram inteligentes e pensam muito, e por isso abandonam o recatado anonimato para conquistar o mundo. Pensam sobre tudo e exaram o seu precioso parecer o tempo inteiro. Enchem blogs, colunas, videos na internet e debatem umas com as outras diante de milhares de telespectadores atentos. Eu sou um sujeito anônimo que não tem opinião e nunca se tornará uma celebridade. Não tenho a inteligência descomunal dos blogueiros que manifestam a sua opinião sobre a alimentação dos golfinhos, pintassilgos azuis e física quântica. Admito-o prostrado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6137614484918324495-1434421123476910758?l=valedoselfos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://valedoselfos.blogspot.com/feeds/1434421123476910758/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6137614484918324495&amp;postID=1434421123476910758' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/1434421123476910758'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/1434421123476910758'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://valedoselfos.blogspot.com/2010/08/eu-nao-tenho-opiniao.html' title='Eu não tenho opinião'/><author><name>Lule</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03948830673393349689</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6137614484918324495.post-4106807102943635521</id><published>2010-02-14T10:14:00.001-08:00</published><updated>2010-02-14T10:21:24.468-08:00</updated><title type='text'>Minha contribuição para a música sertaneja</title><content type='html'>O cancioneiro sertanejo parece não encontrar limites para a sua criatividade. Nessa tediosa tarde de domingo carnavalesco decidi incrementar o meu conhecimento sobre a música caipira, lendo algumas das suas letras que fazem maior sucesso. Trata-se de um eflúvio de “balas de prata, meteoros, Robin Hoods, fadas, nuvens de amor, magias de outro planeta”, entre tantas outras baboseiras que tocam interminavelmente na rádio todos os dias. Ainda que você duvide que alguém vai escutar aquilo – pois parece que o autor da canção não faz mais nenhum esforço para inventar a música –, parece não faltar público para as aborrecidas invencionices. Vejamos, neste breve e despretensioso texto, algumas das instigantes canções que provocam a convulsão de milhares de adolescentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parte-se de um conjunto interminável de metáforas sem sentido cuja temática é, invariavelmente, a relação entre um mancebo apaixonado e uma mulher que é “pistoleira”, “traíra”, “nariz empinado” ou “danada”. O perigo de flertar com uma mulher dessas é bem explicitado em Fernando e Sorocaba (sic), duas pérolas da moderna literatura sertaneja. A mulher é, por exemplo, um vendaval: “Vendaval, ela devasta minha vida, por causa de um ciúme banal”. Dentre as outras variantes cosmológicas para denominar a mulher outra é “sol”, “meteoro” e “raio”: “Você é raio de saudade; Meteoro da paixão” ou “Quero você meu sol minha luz a minha alegria”. Para não mencionar o furacão: “O amor é bem mais forte que a força de um furacão!”. Em João Bosco e Vinicius (sic) há ainda o terremoto: uma espécie de terremoto grau 7 na escala Richter arrasou meu coração. Guilherme e Santigo agitam um pouco mais o Cosmos: “Está chovendo estrelas, tempestade de paixão, Iluminando o meu coração”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outros extrapolam o limite do empirismo cosmológico para metaforizar a mulher e o amor em entidades culturais como o chocolate: “De chocolate nosso amor é feito; Então não tem jeito, gruda em mim”. Já o Robin Hood da paixão é um pólo atrator de mulheres: ao invés de ser atraído pelas mancebas e chorar dolorosamente quando sofre uma traição, ele faz o tipo macho dominante e mantém um vasto “harém”, o que não dispensa a genial tirada literária remetendo ao herói mítico inglês. Eu distribuo o meu amor, logo, sou o “Robin Hood da paixão”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estas músicas não costumam ser ouvidas por indivíduos silenciosos que sentem prazer em escutar a música. Ninguém se senta na frente de um aparelho de som e ouve “ei, psiu, beijo me liga” de Michel Telo (sic). Muito pelo contrário. Trata-se do popular “batidão”. Meu vizinho há pouco ouvia, junto com toda a vizinhança, uma música que falava de uma “pistoleira” que, naturalmente, arrebentou o coração do autor da música; da mesma forma, aliás, que a “bala de prata”. Há ainda a “bandidaça” de Hugo Pena e Gabriel (sic): “Bandidaça, Brincou comigo e de pirraça, ainda me desmontou, nem cachaça”. Sem falar na fogueira ou na cobra venenosa de Brenno Reis e Marco (sic). Christian e Ralf (sic) são menos evasivos: “Por que não passa de uma perfeita safada, Canalha, cretina, mal criada, amiga, Sem vergonha, carente, apaixonada, doente”. Em outras palavras, filha da p**a.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O inocente machismo dos caipiras não encontra limites. Além das fadas e anjos, uma infinidade de criaturas mitológicas parece rondar as suas simplórias cabeças, encarnando sempre na figura mítica da mulher amada e malvada. Luan Santana (sic), em “Sobrenatural”, fala em “um lindo lugar, Magia de outro planeta”. Dentre as metáforas anatômicas, quem mais sofre é o coração. Ele está constantemente bagunçado, revirado, há até mesmo quem queira leiloá-lo em algumas músicas. E, diante do mal resultado do leilão, pensa em doá-lo, caso de João Bosco e Vinicius (sic): “Eu vou doar o meu coração, Porque no leilão não tive nenhum lance”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a maioria das canções é mesmo composta de uma interminável choradeira por causa da mulher amada: “Sem você tudo é saudade, solidão...”, “ “Volta pra mim antes que eu enlouqueça, antes que enlouqueça esse meu coração”, e nenhuma engenhosidade permite extrair delas mais do que alocuções terrivelmente entediantes. Algumas vezes, são simplesmente uma narrativa das aventuras noturnas dos autores e seus flertes com mulheres apaixonadas. Pela quantidade absurda de referências à dor do amor e ao coração sofredor eu tenho certeza de que ninguém gostaria de estar perto desses sujeitos. Eles devem passar o dia inteiro chorando e olhando para o luar. Ou então, apenas ganham dinheiro em cima da ilusão de jovens emotivas que aprendem, desde cedo, que as razões de suas vidas estão nos flertes provenientes de baladas. (sic)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6137614484918324495-4106807102943635521?l=valedoselfos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://valedoselfos.blogspot.com/feeds/4106807102943635521/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6137614484918324495&amp;postID=4106807102943635521' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/4106807102943635521'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/4106807102943635521'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://valedoselfos.blogspot.com/2010/02/minha-contribuicao-para-musica.html' title='Minha contribuição para a música sertaneja'/><author><name>Lule</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03948830673393349689</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6137614484918324495.post-8207291127507743431</id><published>2010-01-28T09:14:00.001-08:00</published><updated>2010-01-28T09:15:25.438-08:00</updated><title type='text'>O currículo lattes e os jogos de rpg</title><content type='html'>Republico e-mail enviado para a minha lista de dicussões. Oam...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu passei boa parte da tarde de hoje jogando “Hard Truck Apocalypse”. Comprei na banca junto com outro jogo de ação chamado “You are empty”, sobre as experiências científicas na Antiga União Soviética – elas deram errado e geraram uma raça de mutantes prestes a destruir o planeta. Esse jogo não rodou e tive que jogar apenas o primeiro. Dois jogos pelo preço de um. A princípio relutei: não gosto de jogos de rpg – não porque não sejam divertidos, mas porque rapidamente constroem um vício em torno das aquisições individuais de um personagem. No caso do Hard Truck, em suma, você é um fazendeiro que tem a sua fazenda destruída e sai dirigindo seu caminhão por plantações de trigo e estradas desertas. No meio do caminho, aparecem inimigos que você tenta destruir com uma metralhadora acoplada ao caminhão – que vai sendo substituída por armas mais letais; eu já tenho raios lasers e armas de plasma que destroem os meus inimigos com apenas um tiro. Os despojos das lutas são recolhidos e vendidos nas cidades. Nelas também você negocia os seus serviços: pode oferecer proteção a agricultores ou escoltar caravanas de comerciantes. O seu caminhão vai ficando mais reforçado – na verdade, eu já comprei outro. Ele tem basicamente quatro propriedades: defesa, ataque, velocidade, equilíbrio. As propriedades vão crescendo conforme você vai atacando inimigos mais poderosos e juntando os destroços de seus veículos para vendê-los nas cidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A plataforma lattes só não se tornou um gostoso rpg por falta de engenhosidade dos webdesigners. Aliás, eu aposto que isso não vai demorar a acontecer, o que irá facilitar muito a integração das universidades brasileiras em torno de núcleos de pesquisa. As universidades padronizarão os critérios de geração de pontos curriculares; textos publicados entrarão automaticamente no currículo lattes, assim como aquisições individuais repassadas pelas universidades; o que facilitará a contratação de novos professores ou admissões em programas de doutorado e mestrado. O que existe, agora, é um sistema de avaliação baseado em artigos publicados em seminários nacionais ou internacionais, horas-aula de docência, textos publicados em periódicos não acadêmicos, que o autor precisa enviar ao lattes mantendo a documentação comprobatória. A produção de textos acadêmicos é algo como a coleta de fragmentos de outros textos, ela não se estrutura sem esse princípio básico: o princípio da autoridade especialista, basicamente como a coleta de despojos do Hard Truck Apocalypse. Você usa alguns autores consagrados – ou não – e sua produção é avaliada e aceita – especialmente em grandes eventos para os quais há grande número de submissões. O Lattes aperfeiçoado vai funcionar como um depósito de pontos de experiência e conhecimento, baseados nas informações fornecidas pelo indivíduo. Este começa então a sua escalada pessoal. Uma regra importante torna ainda mais unificada a submissão de artigos – que são como a sucata vendida – a exigência de originalidade. Por dever ser original há uma premissa básica: encher a produção científica com retoriquices misturadas com fragmentos de textos importantes e submetê-lo usando a sua autoridade: mestre, doutor, etc. Uma vez submetido, você vai apresentá-lo num evento e então deposita os seus pontos de experiência. As horas-aula de estágio requerem um engenho um pouco maior: recolher assinaturas, forjar um plano de ensino recheado de floreios de pedagogia diletantista e ir encher os alunos com babaquice academicista ou com algum estrelismo coroado de frases grandiloquentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim se ascende e se acumula pontuação. A grande diferença poderia estar na avaliação individual feita por cada universidade com relação à capacidade docente ou investigativa do indivíduo; mas mesmo nisso o Rpg tradicional não fica atrás: a desenvoltura adquirida para atirar nos outros adversários, se esconder atrás de rochedos e colocar minas em lugares estratégicos,  se transforma na capacidade de articular pensamentos de pedagogos consagrados com rompantes de originalidade incontida, forrada com alguns truques de conversação, quiçá tirados de manuais que discutem a capacidade oratória de Hitler logo ao prefácio e, que, por serem chocantes, adquirem prestígio. Hitler, Mao Tse Tung, Maomé, a física quântica. A Academia assim se torna a própria forma de o sujeito estruturar a sua vida, independente de ela guiar à alguma produção de algum conhecimento ou não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltando da corrida...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Organizei durante a minha corrida mais um conjunto de idiotices e desculpas para ao invés de estudar jogar Hard Truck Apocalypse. A facilidade da Academia está numa cisão ocorrida dentro das ciências humanas, chamada pelos “especialistas” de “linguistic turn”. Isso veio depois de um conjunto de afirmações que ainda hoje estampam manchetes de revistas. A última Cult, por exemplo, traz Foucault na capa e embaixo a frase: “o homem desaparecerá como um rosto de areia na orla do mar”. A afirmação parte do pressuposto de que não existe realidade humana fora da linguagem e ambiciona destruir aquelas metanarrativas que estruturam os conhecimentos ocidentais tradicionais. Surge assim uma porção de pequenas sabedorias, particulares, derivadas de percepções individuais. Isso desautoriza o saber baseado na autoridade da objetividade linguística e autoriza a linguagem em si mesma enquanto sistema de vida par excelence. Torna mais importantes questões de método e discussões chamadas de epistemológicas, ou seja, baseadas nas formas com que os vários conhecimentos se configuram. Todo um universo semântico surge: “árvore derivativa”, “método arqueológico”, “rizoma”, “formação discursiva”, “hermenêutica do sujeito”, “particularismo analítico”. Isso dá margem a um amontoado de devaneios que trazem para as ciências humanas metáforas da geografia (campos de saber), da biologia (biopolítica), da matemática (tempo linear), sem falar da física: ah, a física quântica, aquelas particulas danadinhas que ficam se revolvendo de um lado para o outro, travessas demais para experimentações racionalizadoras! Um mundo de matéria morta semelhante ao de Hard Truck Apocalypse. Você coleta cacarecos e os transforma em produtos que podem ser trocados por pontos. E não começa um texto sem uma longa “discussão epistemológica”, que demonstra carisma e profundidade, isto é, desenvoltura em avaliar o “mundo da vida”. Ou seja, ao invés de partir de um pressuposto para construir algo fica-se simplesmente discutindo o pressuposto, que é sempre falseável. Eu queria saber o equivalente do Hard Truck Apocalypse para diletantismo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em suma, não vou mais jogar (esse é um fragmento póstumo, adicionado logo à hora de salvar uma aula para amanhã no pen-drive e ir dormir): cheguei numa parte do jogo em que sou o “homem mais forte do mundo”, depois de ter destruído Felix. Alicia, uma bandidinha, quando lhe pedi como faço para acessar o submundo, disse: “você não vai conseguir, ele é muito bem guardado”. “Mas eu posso destruir qualquer homem”, respondo. Então ela replica: “mas o que o guarda não é humano”. É sim uma imensa máquina que me atirou latarias e que me aborreceu imensamente, não só por ser difícil de derrotar como por consumir toda a memória Ram do computador. Eu atirei nela durante meia hora com três armas de plasma acopladas no meu caminhão e não surtiu nenhum efeito. Eu já tinha pensado em substituir esse jogo por outro; porque sabia de antemão que ele ia me vir com babaquices do tipo máquina gigantesca e destrutiva que emperra o computador. E já tinha ido ao Shopping comprar algum outro jogo de ação e estratégia, mas a configuração da minha máquina não suportava nenhum deles; o único para que ela dava suporte é o “Todos contra um do Silvio Santos”, que exige 500 Mhz de processador. Isso me levou a sair da Saraiva ir procurar um calção novo para praticar ciclismo: acabei na loja Track &amp; Field, em relato para o qual o Brãns foi ouvinte privilegiado. Uma série de estultices, que termina não sem antes eu sugerir, diante do ouvido imponente da Academia forjada nos bancos da Seção Corey Haim, um longo estudo sobre a genitalização. Um vez estudados os princípios e fundamentos da mancebíase (MUNARETIA, 2005; BRANS e MUNARETIA, 2006), as causas e consequências do matrimonialismo (BRANS e MUNARETIA, 2007; BRANS, 2008), nada mais resta; eis, com convicção, depois do derradeiro estudo sobre a ginecologia do saber, a genitalização pura e simples da sociedade.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6137614484918324495-8207291127507743431?l=valedoselfos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://valedoselfos.blogspot.com/feeds/8207291127507743431/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6137614484918324495&amp;postID=8207291127507743431' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/8207291127507743431'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/8207291127507743431'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://valedoselfos.blogspot.com/2010/01/o-curriculo-lattes-e-os-jogos-de-rpg.html' title='O currículo lattes e os jogos de rpg'/><author><name>Lule</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03948830673393349689</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6137614484918324495.post-4030176146509650993</id><published>2010-01-25T17:43:00.001-08:00</published><updated>2010-01-25T17:47:03.589-08:00</updated><title type='text'>Caça às bruxas</title><content type='html'>Para restaurar o edifício corrompido de nossa sociedade, é necessário antes de tudo lançar um bom olhar para a educação, onde, afinal de contas, os jovens espíritos se tornam estagiários nas coisas de D-us e iniciam uma longa vida de expiação pelo fato de Adão ter comido uma maçã. A atual independência das crianças e sua permeabilidade ao grande afluxo de informações que brota de aparelhos elaborados recentemente, como o rádio, abre espaço a uma porção de perspectivas de vida, esquecendo, afinal de contas, que mais de uma Bíblia não é necessária para uma boa educação. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; As aulas de ciências deveriam ser substituídas pela apologética bíblica e o português pelo aramaico antigo, língua útil para destrinchar as revelações. As apostilas escolares, forradas de imagens de satanistas célebres, como Voltaire, Rousseau ou Marilyn Manson, deveriam estar repletas de cruzes e imagens do Calvário, a lembrar às crianças a incomensurável culpa da raça humana – fazendo com que sequer elas desejassem ter nascido, mas que, já que nasceram, se penitenciem diariamente ouvindo a discografia da Banda Calypso ou jogos de futebol narrados pelo Galvão Bueno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; De uma forma geral, a escola vem sendo achincalhada por princípios relativistas de filósofos franceses. Basta lembrar que os franceses são quase que em sua totalidade sodomitas e veneram um grande falo, popularmente chamado de Torre Eiffel. Sob essa inspiração, a doutrina do intercurso invadiu as escolas: os jovens deixaram de crescer percebendo em suas intimidades um sinal de alerta (no caso do homem, o pênis funciona como uma antena que, uma vez rija, o conecta diretamente a Satanás).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Quanto à sociedade como um todo, a fornicação deveria ser realizada apenas debaixo de expressa autorização das autoridades religiosas, segundo instruções muito específicas, como portar a bíblia debaixo do colchão e evitar posições licenciosas, restringindo-se ao confiável e dignificante “papai e mamãe”. Pelo contrário, a impudicícia sexual é instilada desde cedo na cabeça das pessoas – daí o alerta aos catequistas e jesuítas. Boa parte dessa onda de atrofiamento moral vem de revistas e gibis, como a Turma da Mônica, por exemplo, que trata de uma gordinha gulosa, Magalides, e das travessuras de Salsinha (ou Cebolinha, se não me engano), sempre pensando em manter intercurso com Monica – para não falar na intolerável luxúria de Franjinha. A ampla difusão desse tipo de literatura herética deriva do esquecimento do index librorum prohibitorum adotado pelo Concílio de Trento em 1546.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; A educação física é outro construto diabólico enxertado na sociedade pelo Tinhoso, e que mostra que sua influência perniciosa transcende o âmbito da produção ideológica propriamente dita. No handebol, por exemplo, os homens vestem shorts apertados e pulam de forma serelepe, assumindo assim o papel de damas. As mulheres vestem calças apertadas e montam em cavalos, quando deviam vestir o véu e se dedicar apenas a competições culinárias. Outros esportes, ainda mais torpes, como o golfe e o tênis, reproduzem nos tacos e raquetes o formato de falos. No xadrez, o rei come a rainha e até mesmo a rainha come o rei!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Para expulsar o Príncipe das Trevas de nossa sociedade são necessárias, enfim, medidas enérgicas, corajosas, que visem estancar o processo de mudanças que teve início com o final da Idade Média, ainda que adquiram imensa impopularidade dentre os relativistas, conspiradores, debochados e maconheiros. É necessário rever célebres erros instaurados pelos cientistas, como “a terra é uma bola” ou “não existem águas em cima do firmamento” ou, por fim, que não somos todos filhos de Adão e Eva e das relações incestuosas de seus filhos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6137614484918324495-4030176146509650993?l=valedoselfos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://valedoselfos.blogspot.com/feeds/4030176146509650993/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6137614484918324495&amp;postID=4030176146509650993' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/4030176146509650993'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/4030176146509650993'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://valedoselfos.blogspot.com/2010/01/caca-as-bruxas.html' title='Caça às bruxas'/><author><name>Lule</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03948830673393349689</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6137614484918324495.post-5127515025601881443</id><published>2009-09-24T14:31:00.000-07:00</published><updated>2009-09-24T14:48:52.651-07:00</updated><title type='text'>Democracia à Brasileira</title><content type='html'>Eu assistia à Tevê Senado quando o presidente da Câmara, Michel Temer, e o do Senado, José Sarney, aprovaram a emenda constitucional que aumenta o número de vereadores nas cidades brasileiras. O Senado virou uma festa: tão logo Sarney anunciou a Boa Nova, as galerias entoaram o moroso hino nacional como se celebrassem a própria chegada de Jesus Cristo; depois cantaram um “parabéns pra você” a Michel temer, enquanto um ou outro suplente, com as mãozinhas já postas no novo cargo de edil, gritava “democracia”, “viva a democracia”!.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qualquer estudante colegial é obrigado a descobrir o que é a democracia. Seu berço [da democracia] é a Grécia Antiga, mais precisamente Atenas (SIC); e era assim chamada já que, teoricamente, todos os cidadãos (categoria que excluía mulheres, estrangeiros e escravos) participassem dos atos políticos através da ocupação de cargos públicos – de forma que a rotatividade na ocupação desses mesmos cargos era bastante acelerada. Assim, o cargo público não era uma “carreira”, e sim uma forma de o cidadão, imbuído do “espírito público”, tomar parte na decisão de coisas importantes para o bom andamento da cidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se, ao final de sua administração, as contas não fechassem, o arconte tirava do próprio bolso o dinheiro para tapar o rombo provocado. Tendo isso em consideração, pode-se declarar como óbvio o desconhecimento dos políticos brasilienses em relação à “democracia”. A emenda aprovada pelo Senado, chamada democrática, incha desnecessariamente a máquina pública ampliando pequenos currais eleitorais instalados em municípios do país que não conseguem nem arcar com o ônus dos serviços mais básicos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela parece estar instalada numa prática antiquada da promoção do Estado forte – que se traduz no seu inchaço – como forma de induzir o crescimento da nação – prática tornada nítida com as pseudo-filosofias políticas do lulismo. O lulismo que corrobora as atitudes do Senado é, em outras palavras, uma tentativa de jogar cimento num Estado combalido, carente de reformas políticas importantes, uma forma de tapar com a peneira o patrimonialismo que ainda é predominante sobre a gestão da coisa pública no Brasil. Assim, o cargo público é visto geralmente como uma forma de ascensão pessoal: está diretamente ligado à concessão de privilégios, a negócios familiares que perpetuam pequenos grupos de poder baseados em princípios de solidariedade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corporativismo é uma palavra bastante simpática para designar o atual estado do Congresso Nacional: esse se replica de forma quase hermafrodita, na medida em que mantém os próprios privilégios e a complacência de uns homens públicos com os outros; quase entre irmãos que, receando perder os cargos nas próximas eleições, lutam pela manutenção de mecanismos que propiciam a estabilidade do status quo. Filosoficamente, o hermafroditismo do Estado brasileiro está traduzido na própria visão que os políticos mantêm de si mesmos: eles pensam que são baluartes imarcescíveis da dignidade nacional, representantes legítimos dos clamores populares, como se traduz, por exemplo, no unânime grito de “Democracia” que ecoou no Senado tão logo Sarney anunciou o inchamento da vereança. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda que pareça uma piada de mau gosto, a milícia de Dom Quixotes que comanda a política brasileira em sua luta heróica contra Moinhos de Vento não sabe o que é democracia. No pequeno mundo de Brasília o significado de democracia é outro. E também é pouco importante. De fato, como pequeno país instalado no Planalto Central, Brasília quer estender o seu poder sobre o Brasil: trata-se de uma entidade estranha, autista, que vive num mundo apartado. Para lembrar Thomas Jefferson, um dos patriarcas da democracia americana, “o melhor Estado é o que menos governa”. No caso do Trópico dos Pecados, a democracia é simplesmente um polissílabo vago, uma palavra de ordem utilizada por um grupo de homens que julga ser um sol ao redor do qual orbita massa anônima e desconhecida.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6137614484918324495-5127515025601881443?l=valedoselfos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://valedoselfos.blogspot.com/feeds/5127515025601881443/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6137614484918324495&amp;postID=5127515025601881443' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/5127515025601881443'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/5127515025601881443'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://valedoselfos.blogspot.com/2009/09/democracia-brasileira.html' title='Democracia à Brasileira'/><author><name>Lule</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03948830673393349689</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6137614484918324495.post-6794446754432285618</id><published>2009-07-31T07:01:00.000-07:00</published><updated>2009-07-31T07:02:04.397-07:00</updated><title type='text'>Onde está o jornalismo?</title><content type='html'>De acordo com pesquisa de 2003 do sindicato de jornalistas do Distrito Federal, mais da metade dos jornalistas formados no Brasil trabalham em assessorias. Esse número é ainda maior com relação a jornalistas não formados. A informação, antes confinada num ambiente técnico onde reinava soberano o imperativo duvidoso da objetividade, cada vez mais é ela mesma produzida pelos protagonistas dos eventos. A concentração da produção de notícias nas assessorias gera um círculo de retro-alimentação: confortáveis, os jornalistas recebem notas oficiais, enquanto os assessores são bonificados com publicidade gratuita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Uns querem publicar e outros ser publicados. A reportagem e a investigação, que são as grandes contribuições do jornalismo para o conhecimento do tempo presente, são enxugadas. Enquanto isso, o jornalismo se limita à tarefa de bricolagem de informações adquiridas por telefones ou mesmo de dados extraídos da internet. Os jornalistas engordam nas redações, se é que, de forma ou de outra, ainda se os pode chamar de jornalistas.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; A abolição da necessidade do diploma para o jornalismo é, nesse aspecto, previsível. Não é necessária nenhuma habilidade especial para compor textos simples, senão aquelas aprendidas no ensino fundamental. O segundo quesito, um bom relacionamento com instâncias de poder, é aprendido com uma boa dose de dissimulação e conveniência. Acariciar aqui, passar a mão acolá.  Enquanto isso, o número de jornalistas se multiplica indefinidamente, todos pavoneando a sua condição de fontes privilegiadas de informação. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como prefaciava o notável sociólogo e jornalista Ignácio Ramonet:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O sistema já não os quer. Podia funcionar sem eles. Ou digamos, antes, que aceita funcionar com eles, mas atribuindo-lhes um papel menos decisivo: o de operários numa produção em cadeia (...). Dito de outra maneira, rebaixando-os para a categoria de retocadores de despachos de agência. A qualidade do trabalho dos jornalistas está em vias de regressão e, com a precarização galopante da profissão, acontece o mesmo com o seu estatuto social.”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6137614484918324495-6794446754432285618?l=valedoselfos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://valedoselfos.blogspot.com/feeds/6794446754432285618/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6137614484918324495&amp;postID=6794446754432285618' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/6794446754432285618'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/6794446754432285618'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://valedoselfos.blogspot.com/2009/07/onde-esta-o-jornalismo.html' title='Onde está o jornalismo?'/><author><name>Lule</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03948830673393349689</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6137614484918324495.post-6117525169766120050</id><published>2009-02-03T11:14:00.000-08:00</published><updated>2009-02-03T11:15:09.119-08:00</updated><title type='text'>Brasileirismos maçônicos</title><content type='html'>As maçonarias provocam a curiosidade pública desde que se tornaram espaços privilegiados de discussões políticas, mesclando as trocas de idéias com símbolos esotéricos e passagens hierárquicas relativamente complexas. O privilégio filosófico das maçonarias estava no caráter restrito das suas reuniões, ou seja, teoricamente não se admitia qualquer um que não tivesse o espírito suficientemente aberto para discutir problemas caros à humanidade. Essa restrição fez com que, no Brasil do início do século XIX, a loja maçônica Grande Oriente Brasileiro (GOB), no Rio de Janeiro, concentrasse vários elementos revolucionários e ajudasse a conduzir, pelo menos no plano das idéias, a Independência brasileira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os historiadores maçônicos costumam associar a sua instituição de forma muito positiva a importantes momentos históricos. As maçonarias teriam para eles dirigido, quase que desligadas do mundo profano, os seus ideais de forma a possibilitar o exercício pleno das liberdades humanas. Nalguns momentos, os maçons vão até mesmo muito mais longe, catando origens ancestrais confusas, que remetem às pirâmides egípcias, a Moisés ou Salomão, aos cavaleiros templários, e a toda uma obscura genealogia que se liga a triângulos e uma infinidade de outros símbolos míticos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o objetivo desse breve texto não é discutir a simbologia dos triângulos ou as ligações maçônicas de Salomão. Apenas observar como ao longo da história brasileira e especialmente hoje, as lojas maçônicas apresentam comportamentos ambíguos e contrários aos seus princípios fundadores. Para dar um exemplo de quais eram os seus ideais: no Brasil, em 1821, o maçom José Joaquim Lopes assim definiu seus confrades no Dicionário Corcundático: “todo aquele que proclama a liberdade da sua pátria; que não beija as mangas aos frades; que abomina a Inquisição e as suas fogueiras; que fala sem preâmbulos; escreve sem dedicatórias; e imprime sem censuras”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No ano seguinte, o imperador brasileiro D. Pedro I ingressava na maçonaria na categoria de aprendiz. Dois meses depois, ele adquiria o grau de Perfeição Universal. O acolhimento do imperador deu prestígio às maçonarias brasileiras que, depois de 1822, passaram a abrigar altos escalões políticos. Elas se consolidaram como um espaço importante para a aquisição de alianças e articulações políticas. A seguir, a Igreja Católica promoveu poderosa repressão aos círculos maçônicos, criando uma briga que, no final das contas, acabou por dar popularidade à imagem dos maçons. A mesma igreja difundiria uma série de boatos, como a prática nas lojas maçônicas de cerimoniais com bodes, invocações do tinhoso, e etc., criando alguma ojeriza pública contra os maçons, logo contraposta por várias iniciativas destes para proteger a imagem de sua instituição, como a criação de escolas, jornais, etc. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante a ditadura de Vargas, o maçom e coronel Viriato Dornelles Vargas, irmão do ditador, realiza conferências sobre o Estado Novo no GOB que nada lembram as teses maçônicas da igualdade, liberdade e fraternidade: “Quanto à palavra autoritário, o povo a emprega no sentido de que autoritário é aquele que abusa da autoridade. É por isso uma palavra antipática. Chamemos, pois, nosso regime pelo nome verdadeiro – Ditadura Republicana – que quer dizer governo forte e estável”. Não é preciso acrescentar que o aniversário do presidente Vargas era efusivamente comemorado, por determinação do GOB, nas lojas maçônicas de todo o território brasileiro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas as maçonarias só definiram mesmo a sua identidade durante o regime ditatorial de 1964, quando ingressaram no combate contra o inimigo chamado Comunismo. Nesse momento, elas já estão indissociavelmente ligadas ao mundo profano, tendo fragmentado as suas doutrinas políticas originárias numa miríade de outras prioridades que dizem mais respeito à sobrevivência interna dos membros, confortavelmente associados às esferas de poder. Nesse contexto, por exemplo, ocorre a associação do General Golbery de Couto e Silva, ideólogo da Doutrina da Segurança Nacional, e uma grande centralização das lojas em torno das diretrizes do GOB, que se alia ao clima de ufanismo patriótico, como se vê, por exemplo, no Boletim de 1972: “É preciso, a cada hora, firmardes a fé que tendes nos destinos da nossa nação!”. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Depois da redemocratização brasileira, com o surgimento de tantos fóruns de discussão e espaços de sociabilidade nos quais é possível debater livremente idéias políticas, as maçonarias abandonaram a sua tradição e parecem viver um tanto quanto deslocadas e apáticas. O amadurecimento da nação fez ruir vários preconceitos existentes contra a maçonaria, como as relativas às suas práticas envolvendo bruxarias, mas também fez ruir os positivos, como àqueles que dizem respeito à sua verdadeira isenção das práticas de poder e busca da realização das liberdades dos homens. A Maçonaria brasileira, desde então, tornou-se um espectro do que, supostamente, já foi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dados retirados de: O Poder da Maçonaria, de Marco Morel e Françoise Jean de Oliveira Souza.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6137614484918324495-6117525169766120050?l=valedoselfos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://valedoselfos.blogspot.com/feeds/6117525169766120050/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6137614484918324495&amp;postID=6117525169766120050' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/6117525169766120050'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/6117525169766120050'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://valedoselfos.blogspot.com/2009/02/brasileirismos-maconicos.html' title='Brasileirismos maçônicos'/><author><name>Lule</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03948830673393349689</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6137614484918324495.post-6678381825108888924</id><published>2009-01-30T11:46:00.000-08:00</published><updated>2009-01-30T11:48:49.171-08:00</updated><title type='text'>§3</title><content type='html'>Parece-me que, em verdade, nos tornamos vítimas de um escândalo que nós mesmos criamos e se chama, mal e porcamente, democracia. Que perdemos completamente o sentido daquilo que somos é bastante claro há um bom tempo. Mas mais do que isso nos futilizamos e nos transformarmos em criaturas afeminadas e dantescas, ridiculamente conformadas e fragilizadas por um espírito barbarizado. O monstro se voltou contra nós e agora somos garotos de vitrine, quando muito pouco nossa vida não é dedicada à espetacularização para um conjunto de fêmeas que nos assiste na sua sede de poder mesquinho. Os culpados do extremo absurdo da aparenciação somos, há que dizer mais uma vez, nós mesmos. Esvaziamo-nos e agora assistimos sentados, sedentos por carne nova, a barbárie trajada com roupas da moda e carros elegantes.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6137614484918324495-6678381825108888924?l=valedoselfos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://valedoselfos.blogspot.com/feeds/6678381825108888924/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6137614484918324495&amp;postID=6678381825108888924' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/6678381825108888924'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/6678381825108888924'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://valedoselfos.blogspot.com/2009/01/3.html' title='§3'/><author><name>Lule</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03948830673393349689</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6137614484918324495.post-281071140892581359</id><published>2009-01-26T17:23:00.001-08:00</published><updated>2009-01-29T14:53:28.521-08:00</updated><title type='text'>Blecaute (reescrito)</title><content type='html'>O grande problema de nossa juventude está em que ela é incapaz de perceber o ridículo. Indivíduos que viveram há muito tempo os seus dias sem as tecnologias de que dispomos, sem a internet para comunicar, carros para se locomover, ou dentaduras confortáveis, pareciam guardar dentro de si tal curiosidade pela vida que não encontra paralelo em nossos semblantes desfigurados por tantas paixões mesquinhas. Aqueles homens do século XVIII, e sei que incorro aqui no risco de uma idealização barata, pareciam se encantar intimamente com cada sol que viam nascer ou cada campo que viam florescer. Tudo lhes causava espanto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Refiro-me mais especificamente a um conjunto de homens que tomaram para si um grande projeto: levar aos seus semelhantes o que chamavam de Luzes, um conjunto de conhecimentos que permitissem a todos que pensassem por si mesmos. Por isso, ficaram sendo conhecidos pela história como iluministas. A tarefa de explicar como esses homens pensavam e no que acreditavam deve sua dificuldade à enorme distância no tempo e às diferentes categorias sociais que dispomos para refletir. E para facilitar essa provisória empreitada, usarei a narração do historiador Robert Darnton, sobre quando visitou o Museu da Independência nos Estados Unidos e se deparou com a cadeira em que se sentou George Washington, um dos pais fundadores daquela grande nação:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Era uma bela cadeira georgiana com um sol emblemático entalhado nas costas, e Washington estava presidindo a Convenção Constitucional de 1787. Num momento particularmente difícil dos debates, quando o destino da jovem república parecia incerto, Benjamin Franklin, sentado aqui, perguntou a George Mason, que estava a seu lado: “O sol está nascendo ou se pondo?” Eles superaram o impasse em que se encontravam e uma dúzia de outros. E quando, por fim, deram por terminado o seu trabalho, Franklin declarou: “Ele está nascendo”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é fácil para um homem do nosso tempo se imaginar, durante horas a fio, discutindo com outros homens projetos de tão grande importância para a humanidade; no caso de George Washington, o nascimento de uma jovem nação. Essa incapacidade tem na sua parte menos visível a impossibilidade de pensar um futuro coletivo, de desacreditar-se completamente de qualquer projeto e viver mediocremente um presente que se esvai a todo instante. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nossa geração cresce aprendendo a mentir e mente sem perceber: cultua automóveis, ergue tributos a heróis de brinquedo e vive uma vida tornada espetáculo, recheada de sociabilidades inúteis e conversas comezinhas, nas quais se projeta, quando muito, o que se vai comer ou quem se vai comer. A sexualidade e o prazer se tornaram fetiche: deixaram de ser feitos pelo que valem, e passaram a ser feitos pelo que significam... para os outros. Abandonou-se aquela libertinagem coloridaque tinham os tais iluministas, para se viver a tensão que existe entre o recalcamento do corpo e o desconhecimento de si mesmo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mais singular disso tudo é que, ainda que não tenhamos aparentemente muito por que lutar – ou disso queiramos nos convencer –, apegamo-nos à vida de forma muito mais mesquinha: queremos viver a todo o custo anos dilatados e choramos a cada mosca que vem a nos picar. Para isso recauchutamos expressões faciais, escondemos rugas, tornamos o nosso corpo um experimento cirúrgico destinado à eternidade do momento que representamos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse ar pesado, nauseabundo, que tragamos desde os nossos primeiros dias, torna-nos um pouco incapazes de pensar como é durante dias a fio escrever com nossos semelhantes um projeto para o futuro. Por ora, o mínimo que temos feito é tentar desacreditar aqueles homens, os iluministas, dizendo que seus projetos foram enganosos ou terminaram em catástrofes, e assim poupar a nossa consciência da ausência de sentido coletivo e do esvaziamento daquilo que era tão caro ao passado, a civilização. O regresso à barbárie, senhores, tem como primeiro indício a incapacidade de perceber a grandeza.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6137614484918324495-281071140892581359?l=valedoselfos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://valedoselfos.blogspot.com/feeds/281071140892581359/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6137614484918324495&amp;postID=281071140892581359' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/281071140892581359'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/281071140892581359'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://valedoselfos.blogspot.com/2009/01/blecaute-reescrito.html' title='Blecaute (reescrito)'/><author><name>Lule</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03948830673393349689</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6137614484918324495.post-7948814885255645291</id><published>2009-01-24T18:55:00.001-08:00</published><updated>2009-01-24T19:14:08.266-08:00</updated><title type='text'>Blecaute</title><content type='html'>O grande problema de nossa juventude está em que ela é incapaz de perceber o ridículo. Eu tentava, com o pouco de história que sei, pensar o que caracteriza um indivíduo superior; não era nada má aquela curiosidade científica dos grandes homens que viveram no século XVIII, e que se encantavam, intimamente, com cada sol que viam nascer ou cada campo que viam florescer. Tudo lhes era motivo de especulação. Nada lhes passava indiferente. Por detrás dessa grande curiosidade tinham um projeto: levar aos seus semelhantes aquilo que chamavam Luzes, um conjunto de conhecimentos que permitissem às pessoas pensar por si mesmas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tentar, ainda que miudamente, explicar como esses homens pensavam e no que acreditavam é uma tarefa que deve sua dificuldade à enorme distância no tempo e às diferentes categorias sociais que dispomos para refletir. Para facilitar essa provisória empreitada, usarei a narração do historiador Robert Darnton, sobre quando visitou o Museu da Independência nos Estados Unidos e se deparou com a cadeira em que se sentou George Washington, um dos pais fundadores daquela grande nação:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Era uma bela cadeira georgiana com um sol emblemático entalhado nas costas, e Washington estava presidindo a Convenção Constitucional de 1787. Num momento particularmente difícil dos debates, quando o destino da jovem república parecia incerto, Benjamin Franklin, sentado aqui, perguntou a George Mason, que estava a seu lado: “O sol está nascendo ou se pondo?” Eles superaram o impasse em que se encontravam e uma dúzia de outros. E quando, por fim, deram por terminado o seu trabalho, Franklin declarou: “Ele está nascendo”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda que eu reconheça que homens superiores eles eram, sou incapaz de me imaginar, durante horas a fio, discutindo com outros homens projetos de tão grande importância para a humanidade, que no caso de George Washington, diziam respeito a uma ainda jovem nação. Essa incapacidade tem na sua parte menos visível a impossibilidade de pensar um futuro coletivo, de desacreditar-se completamente de qualquer projeto e viver mediocremente um presente que se esvai a todo instante. Essa geração sem projetos, a minha, vive para um empobrecido culto do eu: cultura da ascensão pessoal, da aparição pública gratuita, do estrelato vazio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela cresce aprendendo a mentir e mente sem perceber. Cultua carros e ergue tributos a heróis de brinquedo. E, quando pára pra ouvir, bem poderia não estar ouvindo nada. As crenças acabaram: vive-se para a vida tornada espetáculo, recheada de sociabilidades inúteis e conversas comezinhas, nas quais se planifica, quando muito, o que se vai comer ou quem se vai comer. A sexualidade e o prazer se tornaram fetiche: deixaram de ser feitos pelo que valem, e passaram a ser feitos pelo que significam... para os outros. Abandonou-se aquela libertinagem colorida pela reflexão que tinham os tais distintos homens do século XVIII, para se viver uma tensão sempre inacabada temperada com recalcamento do corpo, um corpo tornado massa de modelar. Coadjuvante disso tudo, a vida, essa já perdeu o equilíbrio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mais singular disso tudo é que, ainda que não tenhamos aparentemente muito por que lutar – ou disso queiramos nos convencer –, apegamo-nos à vida de forma muito mais mesquinha: queremos viver a todo o custo anos dilatados e choramos a cada mosca que vem a nos picar. Para isso recauchutamos expressões faciais, escondemos rugas, tornamos o nosso corpo um experimento cirúrgico destinado à eternidade do momento que representamos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse ar pesado, nauseabundo, que tragamos impunemente desde os nossos primeiros dias, torna-nos sim incapazes de pensar como é durante dias a fio escrever com nossos semelhantes um projeto para o futuro. Por ora, o mínimo que podemos fazer é nos poupar de elaborar uma comparação com homens que, senão muito precariamente, conseguimos compreender e, quando fizermos muito, admitir que poderíamos pelo menos tentar, tentar não ser tão subservientes ao espetáculo vazio.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6137614484918324495-7948814885255645291?l=valedoselfos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://valedoselfos.blogspot.com/feeds/7948814885255645291/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6137614484918324495&amp;postID=7948814885255645291' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/7948814885255645291'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/7948814885255645291'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://valedoselfos.blogspot.com/2009/01/blecaute.html' title='Blecaute'/><author><name>Lule</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03948830673393349689</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6137614484918324495.post-4059661384858599027</id><published>2009-01-19T17:44:00.000-08:00</published><updated>2009-01-19T17:45:29.588-08:00</updated><title type='text'>Ei-la, a vaidade.</title><content type='html'>Ele é um balão inflado, até que a sua soberba não o abandone. As pessoas são pela sua natureza voltadas para fora; tanto sobrevivem das impressões que causam quanto se alimentam das impressões que têm dos outros; e assim, coletivamente constroem um conjunto de crenças e formas de comportamento. Nas suas varandas, observam as ruas enquanto as ruas observam-nas, transformam-se em espectadoras dos outros, e, nalguns casos, são capazes de dançar indiscretamente para as ruas quando já não são capazes de viver para alguma coisa além delas.&lt;br /&gt;As impressões da rua enchem o balão, inflam-no com um conjunto de expectativas que o balão, humilde ou orgulhosamente, suga para dentro de si. Muitas dessas criaturas, a que singelamente chamamos balões, não conseguem sobreviver do lado de fora das ruas, já foram por elas engolidas. Trata-se de um tipo muito especial de ser humano. Você é capaz de percebê-lo num rosto contorcido de felicidade exacerbada, maneiras expansivas, indiscrição no falar, riso exageradamente falso.&lt;br /&gt;Essas criaturas não enxergam muito sentido em ficarem, ainda que alguns minutos, sozinhas. Precisam, mesmo para coisas mais simples, ser encaradas por outras pessoas, para se assegurarem de que, intimamente, estão fazendo alguma coisa. Os maneirismos podem crescer e assumir a proporção de uma exterioridade doentia: suas ações, quando não têm publicidade, parecem não existir. Assistir a um filme, alimentar-se, caminhar; tudo lhes é insuportável sem um público que, ainda que com um gesto de cabeça, manifeste a sua segurança e destile um cadinho de ar no balão, sempre inseguro de ficar murcho um dia.&lt;br /&gt;Quando compram alguma coisa, os balões precisam mostrá-la às outras. Roupas, pingentes e, até mesmo livros, se é que os compram um dia, tão penoso lhes é passar o rosto por várias páginas cheias das letras escritas, e sem ser assim, o protagonista de alguma coisa. Quando o lêem, depois de penoso exercício, precisam mostrar aos outros que leram, e então desfilam trazendo cuidadosamente o exemplar debaixo do braço. E se o leram por completo, coisa mui difícil, é porque tantas pessoas à sua volta leram que se tornou impossível não ler também.&lt;br /&gt;Esses balões hiper-inflados parecem ser cada vez mais comuns entre os jovens. Talvez com medo de que sua individualidade seja engolida por uma ego-massa  indiferente, eles tomam todas as precauções para não simplesmente deixarem de existir, assumindo gestos exagerados, buscando publicidade em cada canto, gravando-a eternamente na internet. Quando jovens, adoram o Orkut, e nele colocam fotografias de tudo: deles praticando esportes, comprando canetas, se recuperando de alguma doença. Não tenho dúvidas de que esse exagero balonístico é produto de um tempo em que tudo aparece e desaparece com grande velocidade. &lt;br /&gt;Os balões, há que dizer ainda, precisam de grupos. Ainda que o grupo seja uma singela união amorosa. Amor não como afeição íntima e discreta a uma segunda pessoa, mas sim àquilo que ela representa socialmente. Há balões que se tornaram apêndices de seus esposos ou esposas, e são carregados como se fossem maletas, combinando nos detalhes com a calça ou a camisa do parceiro. Esses matrimônios esporádicos sobrevivem da impressão que causam e terminam como se despede de uma camisa velha, que não se quer mais. De forma que, como parecerá óbvio, não se efetivamente se ama uma pessoa sem que isso seja demonstrado através de declarações públicas, passeios em lugares da moda, gestos expansivos e melodramas constrangedores a todos os que estão por perto.&lt;br /&gt;Balões que se enchem de ar ressecam com facilidade, e a muito custo sobrevivem quando uma situação lhes exige muito engenho. Podem ser apenas aquilo que aparentam ser, e quando não o estão demonstrando, provavelmente estão dormindo. E, infelizmente, muitas vezes não seria mau que continuassem dormindo, porque balões inchados de ar os temos aos montes nas avenidas, televisões, etc. Para usar um pensador da moda, Nietzsche, “não te enchas de ar: a menor picadela te esvaziaria”.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6137614484918324495-4059661384858599027?l=valedoselfos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://valedoselfos.blogspot.com/feeds/4059661384858599027/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6137614484918324495&amp;postID=4059661384858599027' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/4059661384858599027'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/4059661384858599027'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://valedoselfos.blogspot.com/2009/01/ei-la-vaidade.html' title='Ei-la, a vaidade.'/><author><name>Lule</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03948830673393349689</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6137614484918324495.post-731549523608066551</id><published>2009-01-02T11:28:00.000-08:00</published><updated>2009-01-02T14:36:31.650-08:00</updated><title type='text'>Testemunhal de leituras: Nietzsche e Foucault.</title><content type='html'>Nietzsche sempre me reservou momentos de leitura agradável. Mas sou apenas um leitor. Não sou pós-graduado em Nietzsche e nem escrevi alguma tese doutoral sobre ele. Mesmo sem devido credenciamento, disponho-me a dar o meu testemunho sobre alguns destes momentos. Para usar a sua própria metáfora, ler seus livros é como “respirar o ar que circula nas grandes alturas, onde o ar é mais puro e mais arrebatador”. Lê-lo, de fato, inspira uma grande sensação de liberdade, sem profecias “conglobadas de enfermidades”, e sem sacerdotismo, como é comum “nesses terríveis hermafroditas, cabeçudos, aos quais chamamos fundadores de religiões”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foucault, ainda que eu ouça comumente o seu nome e de vários de seus seguidores associados a uma renovação, não me parece um espírito independente, ainda mais se lido à luz de seu tempo, um tempo de revolução estudantil. É comum que façam a comparação entre os dois, referindo-se até mesmo a Foucault como um sucessor de Nietzsche. Eu explicarei porque, pela minha experiência pessoal de leitura, considero isso uma falsidade; parecendo-me, sobretudo, que a comparação entre os dois escritores, um livre pensador e um acadêmico, já parece em si mesma uma grosseria. A primeira você a imagina sendo escrita num campo aberto, que inspiraria a alentadora calma de Aurora e Gaia Ciência; assim, com animais fazendo carícias nas suas pernas, Nietzsche descreveu o recanto de Epicuro. A filosofia se fazia caminhando, ativando o sangue e fazendo-o correr pelas extremidades do corpo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foucault você o imagina numa sala fechada, recheada de textos e mais textos escritos com truculência e pressa, que impregnam os neurônios como uma substância viscosa. Vê-se ali uma tara mal dissimulada pelas palavras; ali falta aquele ar da montanha e surge o ar daquela fábrica de ideais de Genealogia da Moral (http://nietzschebrasil.blogspot.com/2006/08/fbrica-de-ideais.html). Tem-se a impressão de estar fechado, quando se é de fato trancafiado por expressões que aparecem com ares precariamente definitivos, com a complexidade retórica que anuncia o estertor da humanidade. Para Foucault, a linguagem percorrida como linguagem, por exemplo, instala-se no horizonte do homem e anuncia a sua morte. Surge o império das textualidades. Esse “ideal” - e isso não é mais do que um ideal -, é a mais pura negação da filosofia nietzschiana, para não dizer da própria vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Permeia Foucault uma rejeição do mundo, para dizer como os seus seguidores, “imanente”, recheada dos termos extraídos daquelas textualidades de ares sufocantes; são virtualidades, multiplicidades, disciplinaridades e toda uma miríade de termos dominados quase misticamente pelo seu séquito de aduladores. Em Nietzsche, para usar um dualismo fácil, encontra-se um homem, se não isolado, é claro, difícil de confundir: “e sobretudo não me confundais com os outros”. Tão mais difícil ser um extemporâneo em meio ao germanismo militarista de 1870 do que estar no epicentro de uma revolução estudantil cujos objetivos centrais não poderiam ser outros: relativizar o homem para melhor adequá-lo às propostas transformistas da epistemologia revolucionária. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foucault tem incrível instinto de negação, patente na também incrível capacidade de se fazer longe da realidade e fabricar ideais (em Ecce Homo, a realidade, ainda que do mundo aparente, o único mundo, tinha “R”). O esoterismo do texto é um caminho para o distanciamento: surgem propostas cada vez mais distantes, impenetráveis, muradas fechadas de textos e mais textos. Ler um livro como “As palavras e as coisas” fornece essa perspectiva de trancamento e perda de ar; do sátiro para o acadêmico percorre-se uma grande distância até a sensação total de falta de matéria, de vida, pois aqui, já se é tão materialista que não se vê existência por fora das palavras – não discuto aqui a idéia do texto, mas as vias porque se a alcançaram e os objetivos do seu autor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nietzsche foi um homem de seu tempo. Forneceram-lhe material o darwinismo social, o romantismo volkish, o wagnerismo e especialmente Schopenhauer, considerado, antes da escrita de Gaia Ciência, “como um pai”. Nietzsche participou da guerra franco-prussiana e faz apologia da batalha como experimentação necessária para a formação do caráter do homem. Depois disso, a doença carcomeu-lhe lentamente. A condição para viver foi ver e descrever a vida pelas vias afirmativas que caracterizaram a sua obra: precisamente uma apologia da vida. Existe em Nietzsche uma incomparável vontade de aproximação, de intimidade com seu leitor, um clima de entendimento no qual o escritor sussurra as suas conclusões, sem pretensões de atingir as massas, e nunca de distanciamento esotérico - para o que se aplaude e reifica hoje em dia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6137614484918324495-731549523608066551?l=valedoselfos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://valedoselfos.blogspot.com/feeds/731549523608066551/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6137614484918324495&amp;postID=731549523608066551' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/731549523608066551'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/731549523608066551'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://valedoselfos.blogspot.com/2009/01/testemunhal-de-leituras-nietzsche-e.html' title='Testemunhal de leituras: Nietzsche e Foucault.'/><author><name>Lule</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03948830673393349689</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6137614484918324495.post-3467892436739000382</id><published>2008-12-12T11:32:00.000-08:00</published><updated>2008-12-14T19:06:15.802-08:00</updated><title type='text'>A caricatura de um país</title><content type='html'>O Brasil é um país caricaturesco. Seu nome é herdado de uma árvore chamada pau-brasil, usada pelos portugueses para a produção de tinturas. Nossa carta de fundação é um escrito português de Pero Vaz de Caminha, que diz, entre um bocado de outras coisas, não nestas palavras, que nesta terra “tudo se plantando dá”. Experimentamos, ao largo de 3 séculos, pequena parte desse “tudo”: basicamente cana-de-açúcar e café até o final do século XIX. Não somos um povo muito engenhoso. A terra nos dá tudo, isto é, cana-de-açúcar, café e outras monoculturas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           O ano de 1808 alçou o Brasil à condição de importante ponto estratégico no mapa mundi. O Brasil recebeu o príncipe D. João e o seu séquito de aduladores e parasitas. O cortesão gostou do clima molengo do Rio de Janeiro: o Brasil estava longe das guerras européias e não tinha muito trabalho. Uma das poucas guerras de D. João foi contra os índios botocudos, declarada logo que ele chegou no Rio. O alistamento militar era obrigatório, como acontece ainda hoje. Foi o mesmo alistamento militar da guerra do Paraguai, já no período Imperial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           A guerra do Paraguai foi a maior guerra internacional da qual a nação brasileira já participou. Os alistados, forçadamente metidos em comboios para seguir para o certame, foram chamados de “voluntários da pátria”. Essa guerra, ainda que de proporção limitada, trouxe enorme prestígio para os militares e os encheu de um monte de patentes inúteis. Pipocaram os generais, coronéis e et coetera. Ela mostra o regozijo que brasileiros têm com as hierarquias. O Major Policarpo Quaresma, criação de Lima Barreto, denunciaria a inutilidade de boa parte destes oficiais de plantão, a maioria deles, apesar de ostentar grotescamente uma patente, nunca ter visto sequer uma batalha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           A ditadura militar foi outra grande conquista do povo brasileiro. Longe de um golpe, a ditadura foi uma negociata lenta entre as elites. Nada teve de imprevisível. Combatia-se o comunismo, como se combatia o comunismo em 1860, quando barões do café oprimiram os colonos suíços que trabalhavam em suas terras em São Paulo. Liberalismo, democracia, comunismo, sempre foram termos usados de forma vaga pelas elites políticas. Hoje elas vivem enfurnadas no seu mundo esotérico chamado Brasília, boa parte delas compostas de caciques políticos, onde conhecem um reinado de fantasia sobre uma nação muda. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           Já os caciques indígenas são líderes de povos que tantas vezes foram usados para retratar a nossa nacionalidade, como no caso dos índios heróicos de José de Alencar. Ao lado de antropólogos esquizofrênicos, eles usam desculpas ancestrais para justificar a sua presença em determinados territórios, quando já absorveram tanto uma cultura estrangeira que quase mais nada os caracteriza como índios, senão algumas penas de pássaros em extinção. Trata-se de uma versão bem nacional do direito natural dos juristas do século XVIII, que advogavam o trono dos príncipes e monarcas do Antigo Regime. No Brasil vive-se uma confusão em advogar o mesmo direito dos caciques. Não se sabe o que quer ou onde se quer chegar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           Cidadãos brasileiros não são o povo em geral, mas o Estado. O Estado em si compõe a cidadania. Desde a criação do Estado brasileiro, quando foi comprado de Portugal por 1,4 milhões de libras esterlinas, com dinheiro emprestado da Inglaterra, ele tem sido um fardo para a nação. O Estado brasileiro é pesado, autista, sua forma de compensação são cargos públicos e indenizações. As pessoas, pelo menos as mais expertas, buscam chupar a sua substância, através da infinidade de cargos públicos que ele coloca à disposição. Para isto, se aliam a outros políticos, fazem negociatas, ou adquirem-no através da compra ou do aliciamento de pessoas simples.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           Uma vez conquistada a cidadania, o cidadão tem acesso a regalias e informações privilegiadas, quiçá até foros privilegiados, que o colocam numa situação muito superior à das pessoas que habitam o Brasil e não são cidadãs. Isso se reproduz em micro-esferas: desde os honrados edis até pequenos cargos de repartições. Mas o exemplo mais gostoso de mencionar, para qualquer cartunista ou chocarreiro de plantão, é mesmo Brasília.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           Brasília é a capital do mau gosto. É o coração do Brasil que bombeia toda a sua breguice misturada com terrível burocracia para os quatro cantos da nação. O povo brasileiro carrega com ombros olímpicos o pesado fardo, sendo recompensado pelos sisudos homens que fazem e executam a legislação com mais burocracia, patrimonialismo e leis morosas e disfuncionais. O judiciário coroa com louros essa simplória e obscura máquina: é parcial; absolve os grandes para punir pequenos; é uma fábrica de sentenças ambíguas que geram impunidade, diante da qual se regozijam os advogados daqueles que têm muito dinheiro para pagar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           Como no início do século XIX, a política brasileira é entulhada de bacharéis, especialistas em contornar as mesmas e ambíguas leis por eles formuladas. E a nação, debaixo do Estado, por ele esmagada, é composta de pessoas que se dizem brasileiras, ainda que sem saber muito bem por que.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6137614484918324495-3467892436739000382?l=valedoselfos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://valedoselfos.blogspot.com/feeds/3467892436739000382/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6137614484918324495&amp;postID=3467892436739000382' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/3467892436739000382'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/3467892436739000382'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://valedoselfos.blogspot.com/2008/12/caricatura-de-um-pas.html' title='A caricatura de um país'/><author><name>Lule</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03948830673393349689</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6137614484918324495.post-459820866131750931</id><published>2008-12-04T10:40:00.000-08:00</published><updated>2008-12-06T18:59:25.254-08:00</updated><title type='text'>Maravilhoso mundo universitário</title><content type='html'>Há uma interessante fauna de óculos nas universidades. É composta de criaturas ágeis e serelepes, que dão sorrisos túrgidos, cumprimentando nas mãos, quando não solenes e pomposas, andando como faria um nobre francês de perucas. Em casa, frente aos seus computadores, gostam de freqüentar os seus currículos e admirá-los: põem ali qualquer coisa imaginável, enquanto deslizam cursor para cima e para baixo, visualizando no monitor o resultado do seu fatigante esforço para publicar peças acadêmicas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu verdadeiro regozijo é publicar, publicare, tornar público o seu desgastante esforço intelectual de recolher frases de pensadores (quiçá até, pasmem, verdadeiros pensadores) e organizá-las de forma a parecer minimamente convincente. Essa intrigante fauna reúne-se em congressos e finge que gosta de pensar, quando gosta sim de viver a rotina sem doidice, receber tratamento doutoral e, se pudesse, erigir vários monumentos em homenagem à sapiência que pensa ter.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A fauna universitária gosta de andar em círculos e sempre descobre a roda nos lugares mais inusitados, isto é, na esquina de algum pensador nem tão famoso. Exclama então: eureka!, pensa por instantes em escrever um livro, mas depois contenta-se com um artigo acadêmico publicado numa revista obscura que renderá uma indicação no currículo lattes. Esses intelectuais pagos para pensar são mesmo figuras muito inusitadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles rendem reverência integral à Universidade. Fora dela, sua sabedoria se torna confusa e suas mãos cambaleantes. No reinado do ensino, não conhecem nada que venha fora das salas de aula. São pagos para transitar com rapidez e maleabilidade nos corredores estreitos, baixam a cabeça e logo chegam, sem muita astúcia, nos seus lugares familiares. Essa gente que lê livros mas não vê as coisas têm uma inveja íntima de quem está fora da universidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pessoal que está fora consegue ver outras coisas com outros olhos e ganha muito dinheiro. A fauna universitária sabe que nunca vai ganhar dinheiro e esse é o seu desespero mais íntimo. Então ela busca maneiras de contornar a situação e se celebrizar de outras formas, ainda que forjando ideologias próprias, dizendo que o seu saber é superior ao de todas as outras formas de vida. Ela precisa confirmar que o pouco que pensa vale o pouco que ganha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Universidade é um lugar muito esotérico. É de uma sabedoria mística e quase fechada, que vive dentro dela sem querer sair. Ali, vive-se em segurança um pequeno mundo. Mundo que, por muitas vezes, sobrevive da fachada que o alimenta. Mundo, mundo, nem tão vasto mundo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6137614484918324495-459820866131750931?l=valedoselfos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://valedoselfos.blogspot.com/feeds/459820866131750931/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6137614484918324495&amp;postID=459820866131750931' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/459820866131750931'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/459820866131750931'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://valedoselfos.blogspot.com/2008/12/maravilhoso-mundo-universitrio.html' title='Maravilhoso mundo universitário'/><author><name>Lule</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03948830673393349689</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6137614484918324495.post-5378174269598933790</id><published>2008-10-07T12:39:00.000-07:00</published><updated>2008-10-07T12:41:11.852-07:00</updated><title type='text'>§2</title><content type='html'>Esse clima manso e morno nos tornou mais fúteis: um clima de calefação de salas fechadas, termostatos, prédios altos, que faz tudo, lá fora, ficar muito irreal. Uma brandura geral e controlada, cheia de afetos e chameguismos, traduzidos filosoficamente por “amor à humanidade” ou respeito aos minoritários grupos que, mesmo inexistentes, batem à nossa porta. Essas criaturas de prédios não têm nenhuma grande preocupação e criam preocupações imaginárias, não aceitam a picadela de um mosquito e aprendem a enxergar tudo pelo caleidoscópio do idealismo cultural. Suas inquietações são pequenos cargos burocráticos, afazeres domésticos, compras de roupas, tudo traduzido pela ótica do papel e da internet.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa ociosidade degenera em entorpecimento de um corpo que passa a não mais existir. Criam-se então vidas paralelas, reforçadas pelos papéis textuais que essas criaturas desempenham. Surge com isso a possibilidade de maquiar o homem, fugir dele, e criar, ainda que imaginariamente, uma vida de puro deslumbramento estético, onde o corpo, dormente, apenas conjetura coisas e foge constantemente dele mesmo, guiado pela possibilidade de moldá-lo pela criatividade estética. Daí as deformidades que temos visto no apego degenerado pela cirurgia estética, na implantação de produtos sintéticos para realçar determinadas partes do corpo, no apego à luxúria e, em geral, no afeminamento dos costumes, no trato lânguido e incorpóreo, quase angelical, que uns homens dedicam aos outros. O que se retraduz mais uma vez no terror pelo próprio corpo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6137614484918324495-5378174269598933790?l=valedoselfos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://valedoselfos.blogspot.com/feeds/5378174269598933790/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6137614484918324495&amp;postID=5378174269598933790' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/5378174269598933790'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/5378174269598933790'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://valedoselfos.blogspot.com/2008/10/2.html' title='§2'/><author><name>Lule</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03948830673393349689</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6137614484918324495.post-7000497158323244431</id><published>2008-10-07T11:53:00.000-07:00</published><updated>2008-10-07T11:58:08.694-07:00</updated><title type='text'>§1</title><content type='html'>Escrevemos muito sobre pouca coisa. Debruçamo-nos sobre textos e mais textos e repetimo-os vividamente, qual estivéssemos dando imensa contribuição à história da humanidade. Essa textualidade exagerada exala grande vontade de relativismo; percebe-se, em alegre contraponto à nossa cultura da inverdade, o prazer com que os antigos narravam acontecimentos que, não por acaso, com seus próprios olhos eles mesmos tinham vivenciado. Não é à toa que Tácito, por exemplo, contava deslumbrado e cuidado para não ocultar um pormenor das batalhas a que assistiu, crendo assim que, quanto mais possível, poderia ser fiel àqueles grandes momentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós queremos o contrário: nada vemos, a nada assistimos senão o ocaso da civilização, a celebração da beleza fútil, os convescotes à tarde na coffe-house, as festas democráticas, pequenas exalações de ociosidade pós-moderna: o mundo todo transformado num parque balançado de quando em quando por alguma “crise”. Mais do que lógico é não querermos acreditar nas palavras: nem sequer temos mais o que fazer com elas! Caímos no ridículo: a cada coisa que temos que escrever, limitamo-nos a comentar. A isso, graciosamente, com rodeios e coroas de flores, chamamos epistemologia. Quiçá até mesmo epistemologia revolucionária.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6137614484918324495-7000497158323244431?l=valedoselfos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://valedoselfos.blogspot.com/feeds/7000497158323244431/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6137614484918324495&amp;postID=7000497158323244431' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/7000497158323244431'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/7000497158323244431'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://valedoselfos.blogspot.com/2008/10/1.html' title='§1'/><author><name>Lule</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03948830673393349689</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6137614484918324495.post-6329823073326492582</id><published>2008-09-14T13:38:00.000-07:00</published><updated>2008-09-17T05:16:22.123-07:00</updated><title type='text'>Tenho vergonha do Brasil</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.45pt; line-height: 150%;"&gt;Ser brasileiro é uma condição humilhante: é como carregar uma corcova, o estigma de ter nascido onde nasceu e não se poder libertar, a não ser por grosseira amputação cirúrgica, que nunca, não obstante, livrará a pele do infamante grilhão. O brasileiro é, em geral, um sujeito tímido, amiudado diante da pomposa pressão exercida por uma pesada túnica, a corpulenta política que administra os vastos recursos naturais espalhados ao longo do território. Essa chusma de ares imperiais, a que se chama túnica, vive confortavelmente o seu mundo da corte, apartada do grosso da população que mendiga os farelos que caem das mesas e tenta abocanhar ao menos uma fatia da administração pública. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.45pt; line-height: 150%;"&gt;Em sua terrível simplicidade, o Estado brasileiro é um queijo. O brasileiro o cheira, desde pequeno, almejando entrar nele. O projeto de vida do brasileiro, quando não sair do Brasil, é dependurar-se no queijo, e sobreviver ali quietamente, levando a medíocre existência comum aos burocratas. Relacionar-se com esse aparelho público que engole como um imenso ralo o dinheiro dos contribuintes é conseguir dele benefícios pecuniários, isenções fiscais, informações privilegiadas, etc. A corrupção é de tal forma predominante que parece se ter incrustado à constituição genética do povo, donde que, quando se vê um cidadão minimamente honesto em suas obrigações públicas, parecerá mais uma ilha solitária sobrevivendo em meio ao mar de magma.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.45pt; line-height: 150%;"&gt;A desonestidade, ainda que nas pequenas coisas, é um requisito para a sobrevivência cotidiana do brasileiro. Burlar pequenas regras, apoderar-se do bem alheio, fazer tudo isso com a naturalidade de um cachorro que, diante da carne, não pode fazer outra coisa que não lambê-la gostosamente. É natural: a corrupção é natural, diz-se revirando os olhos. Esse adágio vale tão bem que, em vários países no Velho Mundo já não se suporta mais essa gente que vai para mordiscar, sem se preocupar com a vida pública implicada nos velhos conceitos gregos de cidadania, apenas afoita por mordiscar, preocupada com as formas de vivência mais imediatas. O brasileiro típico é um sujeito humilde, humilde por fraqueza, mas que não perde, quando se lhe dá a chance, a oportunidade de abocanhar.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.45pt; line-height: 150%;"&gt;Nos Eua e outros países no Norte, vão para limpar bundas de neném, pintar casas, derrubar paredes, e outros serviços braçais, que acumulam rapidamente para juntar dinheiro e voltar um pouco mais ricos para o Brasil. Juntam vários empregos, que não cumprem com integridade, ao mesmo tempo em que descumprem com as obrigações locais, tidas como caras para aquelas populações, por que, a única coisa que se lhes vale, aos brasileiros, é o acúmulo fácil e gratuito. A “psicologia” geral do povo brasileiro, assim fundada, resulta nas tantas sanções externas que se têm elaborado contra esse povo, impedindo-o de entrar naquelas ricas e prósperas nações, onde a administração pública funciona para o bem público e os cidadãos se sentem em profunda identidade com o Estado.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.45pt; line-height: 150%;"&gt;A administração pública brasileira, um aparato monumental de cargos inúteis e mal preenchidos, eleitos por uma população lasciva e apática, é uma caricatura quase perfeita desse estado de coisas que se têm prolongado indefinidamente ao longo dos anos. Essa coleção de criaturas quixotescas, sempre a buscar o prolongamento de seus empregos e dinheiros quilométricos, anda com os ares da nobiliarquia que governava o Brasil há 200 anos atrás. É um dos aparelhos públicos mais pesados do mundo inteiro. Um aparelho pago para governar, mas usado prioritariamente para dois fins: enriquecimento rápido e ilícito e, mais genericamente, ganho de poder. Quem se pendura na máquina enriquece, pois para ali conflui o dinheiro de uma vasta nação de contribuintes sedados pela vida imediata dos trópicos. Essa máquina, que é paga para servir, serve quem entra nela. É como as pedras da pirâmide do faraó: carregadas por muitos, dão vida eterna apenas a quem está dentro da pirâmide.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.45pt; line-height: 150%;"&gt;Quem está dentro da pirâmide, é o rico folgado, o rico suado do calor do sol preguiçoso, suado do sol que o impede de trabalhar, que quer levar uma vida tranqüila na sua adorável lascívia, sem ter que fazer para isso muito esforço, aquele monumental esforço do enriquecimento das nações protestantes, que tiveram na sua muito estranha ética religiosa, muitas vezes por nós tão criticada, o principal motor do seu trabalho. No Brasil, não se trabalha, não se gosta disso, quer-se enriquecer, para gozar dos frutos dos trópicos; amparados todos como estão no berço esplêndido.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.45pt; line-height: 150%;"&gt;O letargo se espalha pelas academias. O ensino nacional é igualmente preguiçoso. Professores abonam alunos ruins. Professores acadêmicos vivem enfurnados no seu mundo de pensamentos previsíveis, terrivelmente previsíveis, todos datados de revoluções passadas que assim autorizam políticos presentes que, sob o manto da mudança, petrificam e enregelam ainda mais a situação atual. São burocratas, também eles, cabides que encontraram no cabideiro do Estado um método fácil de enriquecer, e sobreviver até o final mediocremente a sua vida, defendendo os mesmos conceitos em que acreditaram hipocritamente durante toda a sua vida. A originalidade, para estes cérebros cansados, é a &lt;i style=""&gt;revolutione aeterna&lt;/i&gt;, absoluta, que acontece indefinidamente pelo tempo, mas não é mais aplicada, em seus exemplos ultrapassados, a mais canto nenhum do mundo. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.45pt; line-height: 150%;"&gt;Esse pensamento autorizado, brotado das academias, ilustra o pensamento nacional, do povo nacional, para o qual o hino, aquele que fala no berço esplêndido, está mais do que adequado. Nunca lutamos, para nada. Apenas tergiversamos, mudamos histórias, procuramos nos convencer de que somos algo, tirando para isso elementos da mais profunda retórica, que empolada de palavras grandiloquentes, nunca mudou a terrível situação a que nós, brasileiros, estamos submetidos. E como temos medo! Somos absurdamente medrosos e comodistas; se temos algo em mãos, seguramo-lo silenciosamente, com medo de que um outro rato chegue e dela se apodere. Por detrás da defesa da mudança eterna, escondemos as nossas mãos trêmulas e preguiçosas, nosso cérebro que vive a regurgitar aqueles mesmos conceitos que já não causam impacto nem ao maior de todos os bêbados. &lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.45pt; line-height: 150%;"&gt;Nada exprime essa impotência de nada poder fazer, ainda mais quando, a fundo, se conhece que, estruturalmente, essa situação vige, ainda que maquiada pelos ares de novos tempos, desde há muito ao largo da história brasileira. Tapar o sol com a peneira, desde o tempo dos reis ilustrados, desde o tempo de Marquês de Pombal, tem sido quase que como uma especialidade desses povos, heróicos no mister de embotarem os olhos para não ver, para poder, confortavelmente, gozar do queijo. E quando a televisão assume o início do futebol, essa horda de burocratas e pobres, duas camadas tão distintas e tão próximas no desejo de enriquecer facilmente, aproxima-se mais do que nunca para gritar: eu sou brasileiro. Para o inferno o Brasil. &lt;span style=""&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6137614484918324495-6329823073326492582?l=valedoselfos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://valedoselfos.blogspot.com/feeds/6329823073326492582/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6137614484918324495&amp;postID=6329823073326492582' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/6329823073326492582'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/6329823073326492582'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://valedoselfos.blogspot.com/2008/09/tenho-vergonha-do-brasil.html' title='Tenho vergonha do Brasil'/><author><name>Lule</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03948830673393349689</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6137614484918324495.post-3103946963107094112</id><published>2008-08-19T20:05:00.000-07:00</published><updated>2008-08-19T20:12:47.767-07:00</updated><title type='text'>Aplaudam o canudo</title><content type='html'>&lt;p&gt;Contraditoriamente à aquisição de um título intelectual, que ao menos em tese deveria requerer, para seu alcance, labor silencioso e quietude, as cerimônias de entrega de canudo são celebradas com requinte e alarde público, excepcionalmente em terras onde são poucos aqueles que conseguem completar o ensino superior. O diploma, qual fosse uma medalha olímpica, é ostentado impunemente diante da massa inculta, como símbolo que denota distinção e poder.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;No sistema de honrarias intelectuais brasileiro, o pensador, ainda que de baixo-calibre, é visto como uma criatura de poderes mágicos, para isto bastando tagarelar com ares importantes e apresentar alguma conclusão de modo sumário. Estuda-se, escreve-se, divulga-se, não pelo reconforto íntimo que gera a aquisição intelectual, o prazer silencioso de chegar a uma grande idéia, e sim, parece, pelas honrarias fáceis, pelo dinheiro ou pelo aplauso do inculto. A glória do canudo existe sintomaticamente no Brasil pelo menos desde o ensino jesuíta, muito mais pródigo em celebrar uma nova entrega do que nos méritos intelectuais de cada formado. Eis, para Carlos Rizzini, no livro “O Livro, O Jornal e a Tipografia no Brasil”, como funcionava o sistema de concessão de títulos jesuítico:&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;“O mesmo aparato aplicavam os jesuítas à esfera lectiva, excitando o amor-próprio dos colonos com títulos e láureas. Se por tantos anos arderam os brasileiros pelo canudo de bacharel, avalia-se o que não significaria na bazófia colonial um diploma de mestre em artes conferido com pompa não inferior ao das universidades européias: discursos, juramentos, música e séqüito, sem faltar o anel, de celebérrimo destino, o capelo azul, o livro, o cavalo e o pajem com o barrete.”&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Durante o primeiro reinado, os intelectuais tinham à sua cabeça uma auréola mítica, atribuição, em boa parte, do clima de autoctonia da elite intelectual brasileira, ainda pouco arejada pelo contato com o estrangeiro e, por outro lado, imersa no meio político, o que fazia com que os redatores de jornais e panfletos do período usassem os seus jornais exclusivamente como forma de militância partidária. E a política, de vistas curtas e imediata em seus propósitos, resseca os grandes sistemas de pensamento. Esse relacionamento íntimo entre pensamento e política militante degenerou numa ideologia política mitigada, num liberalismo de improviso, circunstancial, patente na própria indefinição dos políticos, que não conheciam as raízes históricas dos termos que usavam com tanta sobeja. Assim Antonio Candido descreve as associações intelectuais desse período, no livro “Formação da Literatura Brasileira”:&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;“É preciso, naturalmente, lembrar o fator complementar decisivo que foi a profunda ignorância do povo e a mediocridade passiva dos públicos disponíveis – o que só concorreu para aumentar o hiato entre a massa e a élite e reforçar a autovalorização desta. Nesse estado de coisas, agiu como corretivo o caráter participante com que o intelectual surgiu aqui. A participação na vida social, preconizada ou favorecida pelos ditames ilustrados, impediu o divórcio e a segregação, fazendo com que lhe conferissem, e ele se arrogasse, deveres de intervenção na vida pública”.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;A esse caráter político com que nasce a intelectualidade pátria, remanescente ainda hoje, é possível atribuir a sua busca relativamente atabalhoada pelo reconhecimento público. O potencial pensante, mesmo nas academias, absorve uma epistemologia rala brotada de movimentos estudantis, quando muito vive entocada nos DCEs, com a camisa de um líder revolucionário qualquer e na boca um conjunto de vulgatas políticas. Parece que, nessa pátria grande, levamos nos ombros o fardo de pensar pouco, pensar, quando muito, para ganhar algum dinheiro, demonizar o Daniel Dantas, falar bobagens e, é claro, ganhar aplausos.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6137614484918324495-3103946963107094112?l=valedoselfos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://valedoselfos.blogspot.com/feeds/3103946963107094112/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6137614484918324495&amp;postID=3103946963107094112' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/3103946963107094112'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/3103946963107094112'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://valedoselfos.blogspot.com/2008/08/aplaudam-o-canudo.html' title='Aplaudam o canudo'/><author><name>Lule</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03948830673393349689</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6137614484918324495.post-2326379551088507565</id><published>2008-07-20T19:26:00.000-07:00</published><updated>2008-07-20T19:43:58.699-07:00</updated><title type='text'>A arte de furtar</title><content type='html'>&lt;p&gt;Os episódios recentes envolvendo figurões do patrimonialismo nacional não revelam mais do que uma certa grosseria estrutural do Estado brasileiro. São lances de uma luta farsesca de alguns indivíduos, juízes ou delegados, contra o Leviatã pesado e estamental, que cresce pomposamente sobre uma nação relutante e tímida. O relacionamento íntimo, quase matrimonial, entre a coisa pública e a privada se revela na televisão como espetáculo dantesco sem que, mesmo caindo o véu de Maia, nada altere o incorruptível estado de coisas, fio a fio costurado ao longo da história brasileira.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Daniel Dantas e seus escândalos, agora manchetes diárias dos principais canais de imprensa, são uma janelinha através da qual se pode ver algo do patronato político nacional, forjado sob a sombra do Estado: as somas nababescas destiladas pelo banqueiro no valerioduto (o canal de irrigação dos deputados favorecidos pelo mensalão) mostram que bom empresário, no Brasil, é aquele que sabe corromper, assim como bom político é aquele que sabe ser corrompido mantendo um mínimo de elegância e discrição. Rousseau define o Estado como la volonté générale, a representação de uma intenção geral bem expressa pela figura do legislador público. Tão básico pressuposto da constituição do Estado parece, não obstante, nunca ter sido interiorizado pela política nacional, que permanece, em suma, um estamento burocrático, pesada manta carregada pelos contribuintes.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;O aparatoso Estado, com seus grupelhos de beneficiários é além de “um mercado de peixes onde ninguém se entende”, como definiu o deputado Clodovil, uma criatura alienígena. Ele representa uma casta burocrática dobrada sobre si mesma, com uma dinâmica de funcionamento apartada da realidade, plenamente representada por Brasília, uma construção no meio do deserto. Os polêmicos hábeas corpus recentemente concedidos pelo ministro Gilmar Mendes a figurões do patrimonialismo explicitam esse incontornável edifício histórico no qual os altos escalões mitigam e desencorajam as iniciativas individuais. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Essa realidade arcada pelos ombros olímpicos da sociedade brasileira é uma herança, segundo o sociólogo Raymundo Faoro, dos tempos do reinado português. A sociedade serviria deliberadamente aos ricos e ao estamento burocrático, ambos em intenso relacionamento. A máquina pública, voluptuosa e inchada de empregos desnecessários, seria o alvo do homem de negócio, capaz de sobreviver apenas dependurado no dinheiro público. No início do século XIX o autor anônimo da “Arte de Furtar” escrevia: “Há certo que se gasta neste Reino todos os anos das rendas Reais quase um milhão, ou que se acha na verdade, em salários de oficiais e ministros que assistem ao governo da justiça, e meneio das coisas pertencentes à Coroa: e é mais que certo, que uma metade dos tais Ministros, e pode bem ser que com a terça parte deles, se daria melhor expediente a tudo; porque nem sempre muitos alentam mais a empresa, e se ela se pode efetuar com poucos, a multidão só serve de enleio. Se basta um Provedor em cada Província, para que são cinco ou seis? Se basta um Corregedor para vinte léguas de distrito, para que são tantos, quantos vemos? Tantos escrivães, meirinhos, e alcaides, em cada Cidade, em cada Vila, e aldeia, de que servem; se basta um para escrevinhar, e meirinhar este mundo, e mais o outro?”&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Num casamento grosseiro com a “política de enleio”, uma casta incapaz de empreender e orientada pelo paternalismo do Estado que é a tônica do liberalismo à brasileira. Esse Estado funcionou durante o império como um poderoso ímã que atraía as ferrugens enriquecidas por toda a nação, instilando uma forte centralização do poder, sufocando, nas palavras de Faoro, “a seiva espontânea da nação”. Hoje o valerioduto é um exemplo de relativa clareza desse sistema: a nata econômica sem vontade de renovação é especialista em preservar antigos benefícios, tal como receber informações privilegiadas para assim se articular com antecedência à chamada seiva espontânea. O seu empreendimento é o Estado, sua especialidade abocanhar a coisa pública.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;No alto dessa pirâmide, o rei taumaturgo não possui vontade própria: trata-se de apenas um símbolo usado para reforçar a confiança da nação e a demagogia. A imagem de Lula, como a das barbas de D. Pedro II, é a imagem do bom príncipe que canaliza as energias públicas e rende os desafetos. Ele é, como dizia Faoro, referindo-se aos nossos reis e a Getúlio Vargas, “o pai do povo, não como mito carismático, nem como herói, nem como governo constitucional e legal, mas o bom príncipe..., empreendendo, em certas circunstâncias, uma política social de bem-estar, para assegurar a adesão das massas... Em casos extremos, será o ditador social, de aparência socialista, de um suposto socialismo que sacia aspirações, desviando-as e acalmando-as, com algum circo e algum pão”. Enquanto isso, por detrás do picadeiro, da realidade densa do patrimonialismo, vive ensombrecida uma nação crente no taumaturgo, o rei que, uma vez tocado, cura todas as chagas.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6137614484918324495-2326379551088507565?l=valedoselfos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://valedoselfos.blogspot.com/feeds/2326379551088507565/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6137614484918324495&amp;postID=2326379551088507565' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/2326379551088507565'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/2326379551088507565'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://valedoselfos.blogspot.com/2008/07/arte-de-furtar.html' title='A arte de furtar'/><author><name>Lule</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03948830673393349689</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6137614484918324495.post-6701906923769485766</id><published>2008-02-10T17:10:00.000-08:00</published><updated>2008-02-10T17:11:14.389-08:00</updated><title type='text'>Big brother Brasilia</title><content type='html'>No programa Big Brother Brasil  um grupo de pessoas que nunca se viram antes fica confinado durante meses em uma casa. Passa pouco tempo até a maioria delas começar a deixar transparecer as suas extravagâncias pessoais: umas são feministas loucas, outros são homossexuais silenciosos, outros pitboys que passam a maior parte do tempo seminus, cortejando as cocotinhas marcadas pelo Sol. A temperatura da casa mistura inocência indígena com malícia de militância social.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Apesar da bagunça que resulta dessa junção de doidices, ela ainda é ingênua, os personagens são fracos, suas máscaras não duram muito tempo, logo caem vexando o participante diante de todo o Brasil. O resultado sempre redunda no mais óbvio: o participante é eliminado por votação popular, num exemplo claro de democracia. Não gostamos dele e podemos tirá-lo, bastando para isto ligar para um número telefônico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Quem não gosta do Big Brother, pode assistir à Tv Senado. Os personagens que ela mostra, todos entocados numa grande construção chamada Brasília, são igualmente simplórios, mas surpreendem por lhes ser dado um terreno muito maior de atuação. O teatro extravaza os muros do Sanatório, e se espalha pelo Brasil inteiro na forma de episódios que mostram o que de mais degradante existe na natureza humana: há dinheiro escondido nas cuecas, Land Rhovers, mensalões, mensalinhos, sanguessugas, todo um batalhão de personagens exóticos cometendo insanidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Também assim eram os primeiros administradores imperiais que puseram os pés no Brasil: a corte era então composta de um príncipe medroso, uma rainha louca e cortesãos corruptos que passavam o dia paparicando o Soberano. Para sorte dos humoristas de plantão – ainda que o humor seja negro –, há cada vez mais espaço para chocarrices. As últimas dizem respeito aos cartões corporativos usados pelos ministros de Estado. Eles foram empregados na compra de produtos de beleza, bugigangas paraguaias, tapioca e até na reforma de mesas de sinuca. Da mesma forma como acontece no Big Brother, o autor dos escândalos, pelo menos aquele que fica mais exposto, é convidado a dar explicações ao público e, eventualmente, a se retirar, como no caso de Matilde Ribeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Mas isto nem sempre acontece. Esta é a grande desvantagem de Brasília em relação ao Big Brother. Podemos ver e extasiar-nos com as extravagâncias dos personagens públicos do Planalto, mas não podemos tirá-los de circulação. Temos que nos contentar com participações desgraçadas e personagens desabusados, rostos flácidos que se eternizam no cenário político, fundando principados em lugares pobres do país, com discursos hipócritas e terrivelmente entediantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quando os conseguimos tirar, mesmo que não através de ligações telefônicas, eles simplesmente são substituídos, e muitas vezes por outros personagens ainda mais desventurados. Não há como se livrar deles. Brasília nunca podia dar certo. É um Big Brother de mau gosto. Como disse Simone de Beauvoir em sua visita com Sartre à capital: "Estou em Brasília, a mais demente lucubração que o cérebro humano jamais concebeu. (...) Que loucura erguer uma cidade tão artificial no meio de um deserto!”. Mas este era só o início da loucura.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6137614484918324495-6701906923769485766?l=valedoselfos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://valedoselfos.blogspot.com/feeds/6701906923769485766/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6137614484918324495&amp;postID=6701906923769485766' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/6701906923769485766'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/6701906923769485766'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://valedoselfos.blogspot.com/2008/02/big-brother-brasilia.html' title='Big brother Brasilia'/><author><name>Lule</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03948830673393349689</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6137614484918324495.post-976662771030788837</id><published>2008-01-31T18:29:00.000-08:00</published><updated>2008-01-31T18:35:20.672-08:00</updated><title type='text'>As pistolas de Sumpter</title><content type='html'>Hipólito José da Costa é o primeiro brasuca a sair em missão de reconhecimento para o exterior do Reino luso-brasileiro. Isso acontecia apenas em 1798, depois de ele ter se educado na Universidade de Coimbra, em Filosofia e Leis. O jovem bacharel, acostumado com inclinar a cabeça aos bragantinos da Coroa, não conseguiu se adaptar à exorbitante informalidade com que os cidadãos norte-americanos tratavam o seu presidente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os EUA assumem em 1789 a forma de República Federal. O presidente legalmente eleito possui a função de representante máximo do povo no Poder Executivo. A idéia era bastante extravagante para um português do século XVIII, obrigado a beijar a mão de sua rainha, d. Maria I. Tanto assim que, deslumbrado pela descortesia com que se tratavam os altos figurões políticos em Washington, ele não segura a pena ao descrever o presidente John Adams, quando este sediava uma comemoração em sua própria residência:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O presidente estava de pé, de casaca, espada e chapéu debaixo do braço, conversando com algumas das pessoas que ali se achavam; quando se entra dirige-se a ele e se lhe faz um cumprimento, ele pega na mão, pergunta pela saúde e diz mais alguma coisa, a mim me perguntou que tal achava seu país; depois disso todas as pessoas conversam umas com as outras, mesmo passeiam pela casa e o mesmo presidente muda de lugar freqüentemente, de modo que estão todos confundidos sem ordem ou arranjamento de etiqueta.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A descrição é feita no seu diário de viagem à Filadélfia, dia 1 de Janeiro de 1799. Grandes transições ocorriam no mundo nessa época. Uma delas, apressada por Napoleão Bonaparte, é a dissolução dos Antigos Regimes europeus, caracterizados pela monarquia absoluta de inspiração divina, como ainda acontecia em Portugal. Essa expansão napoleônica obriga, como já se tem cansado de dizer, a Corte lusitana a migrar para o Rio de Janeiro, que passará a funcionar como um grande entreposto comercial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele período de mudanças, Portugal abraçava-se ao passado. A Corte de d. João VI ainda exigia dos seus súditos a prática do beija mãos, distribuia títulos de nobreza e cercava-se de cortesãos parasitários que só serviam para desgastar o Erário Público. Enquanto o mundo Ocidental ia se rodeando de instituições liberais, os portugueses ainda se acreditavam os conquistadores dos mares, rendendo-se ao sistema mercantilista do século XVI. A Corte lusa ainda não conseguia, e nem era do seu interesse consegui-lo, racionalizar a administração pública, em nome do povo, em expressão já tão desabusada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O choque entre o súdito da Coroa portuguesa, Hipólito, e a República americana, é no mínimo singular: o visitante não elogia o tratamento impolido entre o presidente e os cidadãos americanos, antes o condena, por ser desrespeitoso à figura de altos escalões, prática considerada “incivilizada” para os modelos políticos interiorizados pelo viajante. Filho da monarquia absoluta, Hipólito pensava que a figura do representante máximo do Executivo deveria ser preservada dos arroubos espasmódicos do grosso da populaça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por outro lado, não deixa de ser ainda mais singular a reação de um cidadão norte-americano, ao aqui por os pés e ser constrangido a tratar com reverência os nobiliarcas portugueses. O caso remete a Thomas Sumpter, ministro dos Estados Unidos que trabalhava no Brasil, e é narrado por Laurentino Gomes, em seu livro 1808:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sumpter estava passeando a cavalo quando a comitiva da rainha se aproximou a galope. O ministro cumprimentou- a polidamente, mas sem tirar o chapéu ou se ajoelhar. Carlota não se deu por satisfeita e exigiu que os guardas o obrigassem a desmontar e cumprir o protocolo. Os soldados cercaram o diplomata e ameaçaram chicoteá-lo. Irritado, Sumpter puxou um par de pistolas e avisou aos soldados que estava disposto a matá-los caso usassem o chicote contra ele.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O episódio indignaria se não fosse grotescamente cômico. E seria cômico, caso ainda não subsistisse no Brasil, ao longo de tantos anos, preservado na memória dos brasilianos, na forma de delírios que explodem à superfície como atavismos autoritários. O nosso excelentíssimo presidente, Lula, está cansado de dar exemplos cuja substância remete à petulância dos governos nobiliarcas, isto é, seja quando impede arbitrariamente um jornalista de deixar o país por tê-lo chamado de cachaceiro, quando megalomaniacamente se intitula um homem acima de qualquer julgamento ético, ou quando recebe os jornalistas, do alto de sua imponência, como se estivesse fazendo à nação um desmesurado favor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A política brasileira é assim. Ela guarda os ranços do Antigo Regime português, entupida de parlamentares que, na Ilha da Fantasia de Brasília, julgam-se os baluartes do procedimento moral, quarenta degraus acima do resto da nação, gozando de sua redenção junto às virgens do Paraíso. Mas não é necessário descer tão baixo, ao submundo da criminalidade, para coletar exemplos de petulância e insanidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Episódio exemplar da marca canarinha, que anexo aqui para finalizar, é aquele que pôs de um lado o porteiro de um condomínio na região metropolitana do Rio e do outro o juiz estadual Antonio Marreiro, que então habitava o prédio. O problema surgiu do tratamento pouco respeitoso do porteiro, que só tratava o juiz por “você”. O grande dissídio foi para o tribunal e Antonio ganhou o direito de ser tratado pelos moradores do prédio apenas como “doutor”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante de tal exigência majestática, será que o Sumpter teria pegado as pistolas?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6137614484918324495-976662771030788837?l=valedoselfos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://valedoselfos.blogspot.com/feeds/976662771030788837/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6137614484918324495&amp;postID=976662771030788837' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/976662771030788837'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/976662771030788837'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://valedoselfos.blogspot.com/2008/01/as-pistolas-de-sumpter.html' title='As pistolas de Sumpter'/><author><name>Lule</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03948830673393349689</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6137614484918324495.post-4450382817346283934</id><published>2008-01-26T18:38:00.000-08:00</published><updated>2008-01-27T07:29:17.048-08:00</updated><title type='text'>Mercado da dignidade</title><content type='html'>Para além da pobreza física do Brasil, sintoma primeiro de uma decadência secular, está a pobreza espiritual em que vive a maioria dos brasileiros, quer tenham dinheiro ou não. É bem possível ser despossuído e preservar em si a dignidade silenciosa das criaturas superiores, assim como, por outro lado, a abundância material não salva ninguém da degradação moral. Pelo contrário, às vezes parece inclusive torná-la mais acentuada, inchando-a na forma do inglório vício chamado ostentação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para ficar num exemplo urbano comum: carrões de luxo desfilam os seus motores bombados em largas avenidas, competindo com automóveis que, para os mais pobres, não são mais do que um meio essencial de locomoção. Esses acessórios vistos como meios de celebração da glória correm o risco de ser gradualmente abolidos em alguns países europeus, que os estão substituindo por meios de locomoção mais simples, que incluem até mesmo bicicletas, alugadas por preços módicos, como é o caso de Amsterdã, na Holanda. Essas grandes nações, modelos de um processo civilizatório bem sucedido, afogam progressivamente necessidades medianas, como a de demonstrar publicamente a posse de bens, substituindo-as por uma vida interior mais ativa. São exemplos de onde uma vida saudável e feliz passa pelo bem-estar geral da comunidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesses lugares, o nível superior da existência de todos determina o crescimento civilizatório comum. Para isto não é necessário ostentar ao vizinho a posse de uma nova roupa, um novo automóvel, ou mesmo de alguma honraria. As pessoas são felizes, tragando silenciosamente o luxo de estarem num estágio mais alto da existência humana. Não são supérfluas, não vivem para as ruas ou para os vícios aquisitivos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No Brasil, país pobre em todos os sentidos, ocorre radicalmente o oposto. É um vício ostentar, tanto cargos quanto posses, que vão de automóveis a mulheres, mansões a helicópiteros. Enquanto uma selva de indigentes margeia as estradas deste infeliz e grande manicômio, os loucos maiores vivem a sua imperturbável luxúria, que, ao contrário de silenciosa, precisa ser regida continuamente para todo o resto do hospício. Aqui juiz exige que porteiro de prédio o trate de forma adequada à sua altissonante posição, as socialites da tricotagem dão festas para os seus cães, ou mesmo ruas servem de desfile para compras ricas, de sujeitos pobres que abrem as janelas do carro para tacar fora a sua podridão. São todos exemplos da degradação mental de um país que vive a época das senzalas, exige dos seus inferiores a vassalagem, descontente com a apreciação silenciosa de seu dinheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeiro passo para o Brasil entrar no processo civilizatório, esse caminho lento rumo à felicidade humana, é suprimir as frivolidades corriqueiras, as honrarias grosseiras, os faustos ignóbeis. Isso não significa deixar de ganhar, mas sim saber olhar o dinheiro com outros olhos. A grandeza interior do ser humano, este sustentáculo silencioso das realizações mais gigantescas, é a semente preciosa, aquela que garante a mais insofismável característica dos homens, sejam eles pobres ou ricos, qual seja, a dignidade. Destruir esse bem precioso, eis tudo, é esgotar qualquer chance de civilidade.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6137614484918324495-4450382817346283934?l=valedoselfos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://valedoselfos.blogspot.com/feeds/4450382817346283934/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6137614484918324495&amp;postID=4450382817346283934' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/4450382817346283934'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/4450382817346283934'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://valedoselfos.blogspot.com/2008/01/mercado-da-dignidade.html' title='Mercado da dignidade'/><author><name>Lule</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03948830673393349689</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6137614484918324495.post-3014173190544583091</id><published>2008-01-16T07:20:00.001-08:00</published><updated>2008-01-16T07:20:59.621-08:00</updated><title type='text'>Brava gente brasileira</title><content type='html'>&lt;p&gt;Brasileiros não desistem nunca, é o que diz a propaganda oficial. Mais do que isto, brasileiros pensam que são paladinos da luta pela igualdade social, por um mundo melhor; plantam flores diariamente, reclamando das políticas dos intrusos que vêm à Amazônia colher as nossas plantas. Brasileiros choram pelo esmagamento das minorias, são porta-vozes do Terceiro Mundo, odeiam as políticas belicistas. São pacíficos. Falam em alteridade: é necessário dar voz aos excluídos. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mas basta mexer com um destes dogmas impunemente arraigados para que vertam os brasileiros numa política febril de ofensas, que redunda sempre no "cala a boca". É sempre desta forma que nós brasileiros encaramos aquilo que mexe com os nossos brios. Foi assim, por exemplo, com Larry Rother, quando chamou nosso presidente, apreciador incondicional de cachaça, de cachaceiro, foi assim com o seriado norte-americano"Os Simpsons", que não deu a devida atenção estética ao Rio de Janeiro, ou o filme "Os Turistas", que não faz jus à "alma riquíssima" de nosso povo, ou aqueles que urinam em nossa bandeira, como se nunca tivéssemos queimado nenhuma bandeira, ou os canarinhos que ouvem blues, ou mesmo que sonham em sair do Brasil. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Brasileiro grita, e gritando acha que não existe nada mais digno do que o seu grito. A sua defesa dos "oprimidos", por mais atabalhoada que seja, está sempre acima de tudo. Aliás, brasileiro é sempre oprimido. Deitado em seu berço esplêndido intelectual, apenas grita, julgando que qualquer coisa o oprime: um sistema abstrato, um modelo econômico, a política de alguma nação imperialista. Sempre há algo de incômodo, que justifica a apatia cultural da nossa gente, a nossa letargia, a nossa criatividade cambaleante e duvidosa. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;A situação adquiriu ares cômicos com o apalpamento de seio sofrido pela estudante Ana Ferreira na Inglaterra, em virtude do desleixo do príncipe inglês, que deixou desapercebido escorrer a mão até o seio da menina. A foto saiu nos jornais ingleses e brasileiros e: "Oh", disseram todos os canarinhos, estupefatos, "como esta pequena foi capaz de tamanha vulgaridade? Como estará a nossa imagem agora?" &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mas a verdade é que isto é o Brasil. Brasileiro, em geral, vende-se covardemente, todos os dias. Dos coiotes que atravessam a fronteira mexicana para entregar nos Eua conterrâneos ilegais até a multidão que vai trabalhar na Europa, seja catando migalhas de mesas de uma classe média abastada ou trocando fraldas sujas de bebês. Brasileiro sempre chora por migalhas. Diz que não recebe salários dignos, diz que as políticas estão erradas, enfim, chora diariamente. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Quanto à nossa moralidade, recebemos turistas que procuram pelas mulatas do samba carioca, politizamos as nossas prostitutas para que atendam os clientes internacionais, temos rotas de sexo e exportação de gente que começam em Foz do Iguaçu e acabam no Nordeste, somos, enfim, um viveiro de sexualidade à flor da pele, mas que insiste em querer manter o seu destempero moral silenciosamente, longe dos olhos de todos. Só não podemos admitir que esta tão valorosa imagem seja humilhada. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Afinal, somos tão morais, portadores da luminosa Virtude, para que, num só coro, possamos condenar a estudante apalpada publicamente por um príncipe inglês? &lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6137614484918324495-3014173190544583091?l=valedoselfos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://valedoselfos.blogspot.com/feeds/3014173190544583091/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6137614484918324495&amp;postID=3014173190544583091' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/3014173190544583091'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/3014173190544583091'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://valedoselfos.blogspot.com/2008/01/brava-gente-brasileira.html' title='Brava gente brasileira'/><author><name>Lule</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03948830673393349689</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6137614484918324495.post-2777538218040467787</id><published>2008-01-15T16:35:00.000-08:00</published><updated>2008-01-15T16:43:06.693-08:00</updated><title type='text'>Capital do Império</title><content type='html'>Mais uma vez se aproxima o Carnaval. E como bons contemporâneos, filhos do Brasil brasileiro, terra que passou de colônia a império num só grito, impossível ficar imune aos apelos que nos chegam, seja da televisão ou de tantos outros canais que falam das virtudes carnavalescas. O principal produto desta festa afrodisíaca, mais genuína das celebrações nacionais, é a mulata sambista  do Rio de Janeiro tropical. As terras fluminenses são o berço de inspiração do Deus brasileiro, Dioniso, deus das festas e orgias. O Rio de Janeiro é a terra das “Brasileirinhas”, filme pornográfico de repercussão internacional, das shemales da avenida Atlântica, das aventuras de Buttman e de tantos outros capítulos pitorescos da história nacional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto inclui também o berço da Corte portuguesa em 1808, agora tão alardeada pelo jornalista Laurentino Gomes, a Independência no Ipiranga, os conflitos regenciais e, mais recentemente, os certames diários entre policiais e traficantes nos morros. É capital de uma série de medidas de combate à exploração de crianças e jovens, pioneira nas tentativas de profissionalizar a prostituição, encabeçadas por associações de prostitutas desde 2003, quando aconteceu o II Encontro das Profissionais do Sexo fluminenses. O Rio de Janeiro é uma terra recoberta de exotismos, chamada “cidade Maravilhosa”, onde a lubricidade é produto vendido como cachorro quente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Rio da Janeiro é um dos lugares no mundo onde o turismo sexual funciona com maior eficácia, uma eficácia invejável, tanto quanto o tráfico nos morros e o contrabando de armas nas fronteiras do país. O dinheiro do sexo lá brota como outrora brotou o ouro das Minas Gerais ou o café do oeste paulista. São jazidas de dinheiro fácil que movimentam um comércio submerso nas águas de uma nação ainda rançosa da sexualidade e apegada a setores tradicionais do cristianismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensadores como Albert Einstein e Charles Darwin, em suas breves passagens pelo Rio de Janeiro, nutriram profundo desgosto por aquela terra de papagaios e sambistas. Apesar de berço da Ilustração brasileira, o Rio de Janeiro é certamente um lugar muito mais dado aos vícios da concupiscência do que à difícil arte do juízo. Hoje ele é visto globalmente como um paraíso, um recanto edênico para onde se vai fornicar sem fronteiras durante um certo tempo, para que depois se possa voltar à dificuldade da civilização.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como o ouro, o sexo que se reflete e refrata pelo Brasil é o chamariz de aventureiros internacionais de toda a espécie. Para relembrar como o Brasil é visto no exterior, bastam alguns exemplos consagrados: no cinema, como o filme “Turistas”, na televisão, como no seriado Os Simpsons, no jornalismo, como com o episódio envolvendo o redator do The New York Times Larry Rohter, ou as críticas de Jim Rizoli, que considera os brasileiros, com sua cultura do imobilismo e do dinheiro fácil, o verdadeiro câncer que se alastra pelos Estados Unidos. São pequenos exemplos de como o Brasil é visto, eternizado como a terra do futebol e do samba, visão que, apesar de simplória, não está afastada da mentalidade simplória do povo brasileiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O carnaval, sinônimo desta quase institucional depravação de caráter, no entanto, é percebido como uma virtude, alardeado nos canais de televisão, mote para distribuição em massa de camisas de látex, sexo barato e sambistas seminuas, isto porque, de fato, rende lucros tanto aos veículos da mídia quanto aos hotéis e agenciadores particulares nos diversos rincões do Brasil, especialmente o Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A “alegria carnavalesca” não é mais do que um disfarce semântico para museu natural ou qualquer outra expressão que diga respeito ao coito como um final em si mesmo. Não é pecado fornicar, logicamente, mas não é nada fecundo ter uma imagem nacional associada ao sexo fácil e à prostituição. Passados 500 anos, a imagem dos estrangeiros sobre o Brasil permanece, essencialmente, a mesma de Caminha, o viajante deslumbrado com a espontaneidade dos nativos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Também andavam [...] quatro ou cinco mulheres, novas, que assim nuas, não pareciam mal. Entre elas andava uma, com uma coxa, do joelho até o quadril e a nádega, toda tingida daquela tintura preta; e todo o resto da sua cor natural. Outra trazia ambos os joelhos com as curvas assim tintas, e também os colos dos pés; e suas vergonhas tão nuas, e com tanta inocência assim descobertas, que não havia nisso desvergonha nenhuma.&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6137614484918324495-2777538218040467787?l=valedoselfos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://valedoselfos.blogspot.com/feeds/2777538218040467787/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6137614484918324495&amp;postID=2777538218040467787' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/2777538218040467787'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/2777538218040467787'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://valedoselfos.blogspot.com/2008/01/capital-do-imprio.html' title='Capital do Império'/><author><name>Lule</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03948830673393349689</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6137614484918324495.post-5254474678385955988</id><published>2007-11-09T19:01:00.000-08:00</published><updated>2007-11-10T10:28:32.859-08:00</updated><title type='text'>Farisaísmo cultural</title><content type='html'>O pior de assistir a uma obra como “La Traviata” não é nem ver um grupo de damas da sociedade chorosas diante da tristeza do espetáculo e nem o aborrecimento da linearidade previsível da narrativa. É mais do que tudo saber que, apesar de o autor ter mergulhado o texto nos clichês narrativos dos romances do século XIX e de a música não ser lá de nenhum Mozart ou Beethoven, jamais um homem nosso contemporâneo, filho de nosso tempo, seria capaz de compor um semelhante espetáculo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A música vai-se calmamente, como a corrente de um riozinho cristalino, até cair num turbilhão de cascata quando, por fim, a mocinha tuberculosa põe a mão no peito e vai principiando a bater as botas. Todos se emocionam, curvando ligeiramente os ombros, comose não fosse isso, decerto, o que invariavelmente haveria de acontecer. Do lado de fora das lamentações da mocinha e do mocinho, cantando ambos que “o amor é o pulsar do universo”, senhores e senhoras tirando fotografias histéricos, qual fossem eternizar aquele momento que, de eterno não tinha nada.&lt;br /&gt;Mesmo que queiram exibir as suas propriedades culturais desfilando-se em eventos deste jaez, como que para corroborar um “eu interesso-me por cultura”, estes grã-finos brasileiros, filhos do Brasil tropical, são uma gente peluda e que não merece nada mais silencioso. São crias do barulho e da confusão, admiradores de música sertaneja ou qualquer outra coisa que tenha surgido nos últimos dias. Impacientam-se nas cadeiras, liberam feromônios, sentem reciprocamente o cheiro uns dos outros, no calor típico dos dez brasis, até saírem para as selvas que são o seu lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há dúvida de que a ópera, esta casamata grande e inclinada, é um lugar dialético, onde obras lineares são encenadas. O povo amiúda-se nas cadeiras, cumprimenta-se jovialmente, até tentar adotar um ar de sobriedade, quando os primeiros acordes da ópera começam a soar. Ficam então todos fleumáticos e embevecidos, apreciando aquelas notas que, quando muito, inspiram um sentimento vago de alegria. É uma obra dialética e passiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela faz lembrar de Nietzsche, um defensor entusiástico do teatro grego, no interior do qual, coro, atores e platéia, transformavam-se em heróis e celebravam a glória da raça humana. Muitas óperas nada tem de glorioso. Elas são fechadas e entediantes. Só servem para que os homens se jactem diante dos seus pares por terem assistido a algo que não seja um dueto sertanejo ou uma gostosa do funk.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a verdade é que mesmo isso tem qualquer coisa daquela civilização celebrizada pelo Iluminismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós ultrapassamos o saudoso farisaísmo cultural do século XIX para recair na completa falta de noção, na admiração de barulhos e lugares fechados que bombardeiam continuamente os tímpanos. Tenho pena de mim e de minha geração. Somos deslocados. E digo somos por polidez.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6137614484918324495-5254474678385955988?l=valedoselfos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://valedoselfos.blogspot.com/feeds/5254474678385955988/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6137614484918324495&amp;postID=5254474678385955988' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/5254474678385955988'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/5254474678385955988'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://valedoselfos.blogspot.com/2007/11/farisasmo-cultural.html' title='Farisaísmo cultural'/><author><name>Lule</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03948830673393349689</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6137614484918324495.post-3134964102620621255</id><published>2007-11-02T12:51:00.003-07:00</published><updated>2008-01-25T10:16:14.919-08:00</updated><title type='text'>Civilização e Paraíso</title><content type='html'>Como ensina o Velho Testamento, o ser humano não nasceu todo cheio de pudores, tendo uma folha de videira cobrindo as intimidades, para que elas não ficassem balançando. Nasceu sim numa pureza original que dispensava qualquer espécie de vestimenta, até ser coagido pelo demônio, que sorrateiro qual serpente destilou o seu veneno e inaugurou a chamada vida sedentária. Homem e mulher, tão rápido quanto houveram entrado, saíram das terras do Éden e foram obrigados a viver as agruras do exterior, tendo uma larga linhagem de filhos e um milênio de labores pela frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É precisamente na saída do Paraíso que tem início a civilização. Civilização é um conjunto de obras duráveis produzidas pela humanidade, dotadas de ampla unidade cultural, e que é entendida, de uma forma geral, como processo de aquisição de conhecimento e rumo ao progresso. Norbert Elias, afamado sociólogo, ensina que o processo em questão implica num abrandamento dos instintos mais animalescos que, uma vez seguros, tornam passível a convivência do homem em grandes agrupamentos urbanos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, certamente que tal urbanidade não era necessária no Paraíso, onde homem e mulher podiam copular fartamente em qualquer lugar, comer costelas de porco durante todo o dia e defecar nas encostas de rios. À espontaneidade da criação original, onde os instintos são desprovidos da vergonha, contrapõe-se uma dura existência que exige o uso de preservativos durante o coito, que já é bastante escasso, excepcionalmente para os que não são galãs de novela e nem têm muito dinheiro, o uso de talheres durante as refeições e também do sanitário, única e exclusivamente, para o depósito das excrescências que o corpo humano produz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A este depósito da sujeira no lugar adequado e à introdução de práticas que tornam o homem mais inofensivo, como contar até dez nos momentos de intensa fúria, prosseguiu a criação de obras e uma literatura regular, que suprisse as necessidades do homem nas cidades. O comércio introduziu a obrigatoriedade de conhecer, de se relacionar, o que, é certo, não era necessário no Paraíso. Lá bastava que Adão, o único macho, grunhisse para Eva, a única fêmea, para que ambos simplesmente pudessem acasalar doidamente, aos olhos do elefante e de outros animais que, por ventura, por ali estivessem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Civilização, que não é sinônimo de Paraíso, portanto, implica num abandono ou repreensão dos instintos mais animalescos, num certo recato, na fornicação em lugares isolados e calmos, na substituição de violências físicas por pequenas ironias verbais, da espontaneidade das selvas por uma certa hipocrisia, uma certa dissimulação que facilita o convívio com as outras pessoas, e na contenção das flatulências e de outros gases que visitam as extremidades de nosso corpo, pedindo insistentemente para sair.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Paraíso, do qual tanto se jacta Deus por ter criado, nada mais é do que a livre expressão dos instintos, incompatível com a complexidade da urbe civilizada. Após terem mordido a maçã da ciência, homem e mulher são atirados para fora do Éden e obrigados a uma vida de labutas, que exigiria constante aprimoramento intelectual, como forma de lidar com as intempéries da natureza. A civilização e o intelecto, como se pode depreender da própria Gênese bíblica, nada tem a ver com aquilo que teria projetado Deus.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6137614484918324495-3134964102620621255?l=valedoselfos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://valedoselfos.blogspot.com/feeds/3134964102620621255/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6137614484918324495&amp;postID=3134964102620621255' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/3134964102620621255'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/3134964102620621255'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://valedoselfos.blogspot.com/2007/11/civilizao-e-paraso-como-ensina-o-velho.html' title='Civilização e Paraíso'/><author><name>Lule</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03948830673393349689</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6137614484918324495.post-4029520493162880622</id><published>2007-11-02T12:40:00.001-07:00</published><updated>2008-01-16T07:22:11.926-08:00</updated><title type='text'>Postagens em Vale dos Elfos até 2007</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Postagens anteriores a 2008 estão em &lt;/strong&gt;&lt;a href="http://www.valedoselfos.weblogger.com.br/"&gt;&lt;strong&gt;www.valedoselfos.weblogger.com.br&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6137614484918324495-4029520493162880622?l=valedoselfos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://valedoselfos.blogspot.com/feeds/4029520493162880622/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6137614484918324495&amp;postID=4029520493162880622' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/4029520493162880622'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6137614484918324495/posts/default/4029520493162880622'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://valedoselfos.blogspot.com/2007/11/postagens-em-vale-dos-elfos-de-dezembro.html' title='Postagens em Vale dos Elfos até 2007'/><author><name>Lule</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03948830673393349689</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
