quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Conceituando o Bolsonarismo

O bolsonarismo, essa novidade política que tem investido de fôlego nossos pulmões combalidos pelas dificuldades da vida, merece mais estudos capazes de dar ao fenômeno uma real dimensão de sua complexidade. Segue um relatório de alguns dos mandamentos seguidos pelo fiel bolsonarista:

1 – A luta contra o comunismo. Sem dúvida alguma, o primeiro mandamento do bolsonarismo é a rejeição ao comunista e ao comunismo. Vejam bem, comunismo aqui não deve ser entendido a partir do Manifesto de Karl Marx. Ele é bem mais sutil e ardiloso, quase como o Diabo que puxa os nossos pés durante uma noite de sono. O comunismo é a “guerra cultural” que relativiza os valores da sociedade cristã e nos seduz com uma ideologia igualitária, enfraquece as hierarquias sociais e as distinções de nobreza e empodera os vagabundos que não trabalham. O comunista pode ser o sujeito que prega sobre os direitos humanos, o humanista cristão, o cara que é favorável às cotas e até mesmo a Regina Casé. Noutros tempos, isso seria chamado de macarthismo.

2 – A crença no potencial libertador da repressão policial. O papel educador do Estado não reside nas salas de aula, que foram dominadas pelo comunismo, mas sim nos policiais, cujos sabres de luz são os únicos que podem lutar com convicção pela extirpação do mau comportamento. Não importa que boa parte da estrutura da polícia militar, sobretudo em velhos redutos de criminalidade como o Rio de Janeiro, esteja carcomida pela praga da corrupção e os policiais brasileiros matem mais do que no resto do mundo todo. O fato de um indivíduo usar farda, na crença bolsonarista, torna-o credenciado a se tornar o símbolo excelso dos valores sociais. É batendo que se educa e é matando que se extirpa o vagabundo e se promove a sonhada pureza.

3 – O macho alfa como força estruturante da sociedade. Bolsonaro manifestou de forma sistemática o seu desgosto diante de homossexuais. Para quem não lembra, foi isso que o tornou famoso, na sua heroica campanha contra o potentado chamado Jean Willis. Se não fosse a campanha contra o Jean Willis é pouco provável que Bolsonaro tivesse saído das sombras em que se encontrava desde o início dos seus mandatos parlamentares. Para combater valores amolecidos, afeminados, que fazem com que crescentemente os jovens abracem o homossexualismo e deixem de lado as práticas viris, é preciso educar com rigor, colocar no colégio militar, mandar fazer flexões, essas coisas que produzem macheza e que alicerçam as famílias tradicionais. É preciso ser um varão de bem.

4 – A fé cristã como guia da política. Há muito tempo não se falava no retorno da fé, que direcionou a política no mundo todo até pelo menos o século XVIII, com tanta força. Ao contrário do que nos ensinaram gerações de filósofos vinculados ao pensamento iluminista – onde estariam as raízes do comunismo –, a fé cristã precisa assumir a dianteira da sociedade e prepará-la para o retorno iminente do messias. Nisso Bolsonaro repercute o vovô Olavo e também o Partido Cristão do qual é integrante. Evidentemente, o Jesus Cristo da seita essênia, baseada fundamentalmente na divisão comunitária de bens, é um detalhe que não merece ser considerado. Afinal, Jesus Cristo era carpinteiro, e carpinteiros trabalham, ao contrário dos comunistas, dos vagabundos e dos ateus.

5 – Antiestatismo. Não importa que Bolsonaro cumpra o seu sexto mandato parlamentar, tendo vivido a vida toda dentro do Estado. Evidentemente, ele não conhece outra realidade que não o Estado. Mesmo assim, por se apresentar como um desafiante interno, a partir de seus bate-bocas frequentes com Maria do Rosário e Jean Willis, ele conseguiu emplacar essa imagem de um cara que gosta de desafiar o sistema. A ideia do antiestado veio de impregnações do Rodrigo Constantino, que faz há algum tempo uma cruzada sobre a retirada do Estado da economia. É uma tentativa de afastar Bolsonaro da ideia do Estado brasileiro ruim. Coisa estranha para um nacionalista que prega o protecionismo econômico. Mas toquemos o barco.

6 – Saudosismo com relação à Ditadura Militar. Que Bolsonaro é uma viúva da Ditadura Militar todo mundo sabe. Sua existência é um monumento vivo à Ditadura e aos ditadores. Contudo, na escala de valores bolsonarista, uma ditadura é perfeitamente justificada quando se escora no macarthismo, quer dizer, na luta contra o comunismo. Durante a Ditadura Militar, as planícies eram verdejantes e a economia crescia como um titã, sem homossexuais, índios, vagabundos e ateus que pudessem atravancar o progresso e afrouxar os valores da família.

7 – Combate à erva do mal. Não casa com nenhum liberal, mesmo com um liberal de quinta categoria, a ideia de que o Estado deva controlar rigorosamente o uso recreativo de determinadas substâncias encontradas na natureza. Bolsonaro é um “liberal de mercado” que rejeita veementemente a venda de qualquer narcótico recreativo. Drogas alimentam os homens maus, os inimigos e produzem vagabundagem. Não importa que a liberação do uso da droga fosse produzir novas gerações de empresários vinculados à produção voltada para o mercado. Narcóticos são coisa de comunista, e a maconha é, nessa constatação imperiosa, a porta de entrada para drogas mais pesadas, como os discos do Wesley Safadão.

8 – Desconfiança absoluta com relação à mídia. Da mesma forma que seus congêneres de extrema esquerda, os bolsonaristas detestam a mídia e acham que ela está o tempo todo conspirando contra os valores dos homens de bem. Dessa forma, só aquilo que é publicado no Facebook pode ser considerado purificado da manipulação midiática. Lembre-se: se foi publicado na fanpage do Bolsonaro, é credível, se na Folha de São Paulo, desconfie.

9 – O Exército como primeiro poder. Não importa que o país não vivencie uma guerra desde a ida dos pracinhas da FEB para a Itália em 1945. O Exército é, junto com a família, a célula mater da sociedade. A hierarquia militar é a responsável pela preservação dos valores puros. Também não importa que, em todas as sociedades comunistas, o militarismo tenha sido empregado para a manutenção do regime político. No Brasil, o Exército é digno da mais elevada confiança, por já ter, no passado, lutado contra o comunismo. E, sendo o anticomunismo o primeiro valor da cartilha bolsonarista, ele justifica qualquer forma de repressão. Dá um tilt na cabeça. Mas bola pra frente.

10 – A diminuição da taxa Selic. Esse é o grande mote da campanha econômica de Bolsonaro. Todo o seu entendimento econômico se reduz a essa fórmula mágica. Bolsonaro não é, a exemplo de Trump, um entendedor de economia. Todos os seus vencimentos e de seus filhos, aliás muito generosos, vem de pensões, aposentadorias e salários pagos pelo Estado. Destarte, é a diminuição da Selic, pronunciada com verdadeira lascívia redentora, que poderia encaixar o Brasil de novo nos trilhos do progresso e incentivar o crescimento econômico.

Um comentário:

RedPunk disse...

Querido Luís. Parabéns por seu blog.
Não espero que você se lembre de mim, me reconheça etc.
Moramos juntos, no conturbado ano de 2010, na sórdida pensão de Dona Ângela. Trocávamos esparsas idéias, mas sempre te admirei intelectualmente.
Tenho lido seus textos no blog durante os últimos anos, a pesar de ter perdido contato contigo.
Tive um blog, menos crônico que o teu, mas o troquei pela ficção de gaveta que não publico e abandono à crítica roedora das traças.
Queria poder trocar idéias e bibliografias com você. Suas visões são muito interessantes.

Peço que, se quiser, puder e sentir-se a vontade, me procure!
Meu E-mail é y.saiye@gmail.com

Att.: Yuri, o vermelho.