Como tudo hoje é moda a novidade já não parece mais tão chocante. Parecemos existir para a juventude constante, para rompermos diariamente a experiência, que se fraciona nas redes sociais e mecanismos de comunicação cada vez mais dominados por versos sucintos e esquizofrênicos, em que cada um pensa ser a nova estrela do amanhã comentando sobre a vida de si mesmo e dos outros. RT “Olha o meu gatinho, ele está doente”.
Os mais velhos, desorientados pelo ritmo crescente de rejuvenescimento e pela velocidade da comunicação entre os jovens, tentam negar as suas rugas e assim freqüentar baladas com os seus filhos ou tirar fotos na frente do espelho para parecer mais legais - cool. Estes pais rejuvenescidos pensam: “meus filhos são jovens gênios já que passam todo o dia em frente ao computador mexendo nesses renovados instrumentos tecnológicos”. É decerto inútil que conheçam literatura, artes, ciências ou o que quer que seja, mas que sorriam ao comentar a disenteria do seu animal de estimação, o horário em que vão tomar banho ou novidades sobre o horóscopo diante de um público de outros jovens ciosos do espetáculo vazio.
Os pais new age – travestidos de adolescentes – acham seus filhos engraçadinhos vendo montes de imagens no monitor do computador: o fato de estarem ali o dia todo é de alguma forma um indício da genialização das crianças. Não importa que se exibam seminus para milhares de outros adolescentes na frente da webcam, que difamem colegas e professores, que vandalizem comunidades virtuais ou mesmo que não consigam articular frases com mais de 10 palavras sem a rechearem com uma porção de erros gramaticais. Nada disso tem importância e nada disso é imoral.
A carência de educação doméstica, quando os pais assistem à estupidez de seus filhos com a hipocrisia de quem simplesmente vê chegar a novidade, recai como responsabilidade nas costas de uma escola cada vez mais esvaziada de suas funções e cada vez mais impotente. Isto é, cada vez mais obrigada a atuar como intermediária entre professores desorientados e pais superprotetores. Quando se espera que um aluno chegue aos seus 15 anos dotado de noções básicas de responsabilidade e reconhecimento da autoridade, para na escola ter condições psíquicas de começar o processo de aprendizado, ele apenas reverbera o eco vazio de seu lar e de seu quarto inútil, onde na frente de um computador repete mecanicamente frases de microblogs e se diverte com intrigas fúteis.
Os adolescentes não sabem pra quê serve a escola: quando muito um passo para a aquisição do diploma, quanto pouco um lugar para a reprodução de conflitos que acontecem na própria internet entre grupelhos de adolescentes rivais. A educação se viu relegada a um plano tão inútil e mesmo ridículo que o professor é tratado como mero distribuidor de avaliações e não como o passaporte do aluno para a curiosidade cívica ou científica. O aluno, tornado futuro imbecil coletivo, não tem como primeiros culpados os professores – também eles – mas em primeiro lugar os seus lares deslocados, onde seus pais os imbecilizam e tratam a sua imbecilidade com complacência. Acusam a escola pela delinqüência, reclamam de notas baixas e aparecem histéricos nas portas da escola quando seus filhos, despreparados para assumir qualquer responsabilidade, reclamam terem sido ofendidos por algum professor que é humilhado diariamente.
Estes pais, hedonistas dissimulados que não negam aos seus filhos senão a possibilidade de serem hipócritas, são o passaporte para a sociedade viciada e frívola que vivemos e que é celebrada em novelas de televisão. Nela a autoridade é degradada pelo mau comportamento, a sexualidade é viciada e animalesca e a irresponsabilidade e incapacidade de arcar com os próprios atos é incentivada. Pais protegem os filhos porque assim estão protegendo a si mesmos e, de quebra, justificando a ausência de educação com a qual não querem se comprometer: ou porque estão preocupados com seu carro novo ou porque querem “namorar”.
Se um menor de idade depreda a sua escola ou injuria publicamente um professor deve arcar com as conseqüências disso sendo castigado. O castigo – desculpem-me os apóstatas mais doentios de Foucault – é fundamental para levar o jovem a uma reflexão sobre o dano que causou aos seus pares sociais. No entanto, a maioria dos pais – tanto pais quanto ideólogos inúteis que nunca estiveram numa sala de aula – acaricia seus rebentos ou finge não ver, comportando-se eles mesmos como crianças tolas.
segunda-feira, 6 de junho de 2011
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2 comentários:
Não é só 'a juventude que está perdida', os patriarcas são tão estúpidos quanto à escola. Culpa dos Governos!
O enfrentamento cansa.
Foi precisamente isso que eu disse. Mais do que da juventude ou da escola a culpa é dos genitores - para ficar em termos mais simples e não entrar numa ampla discussão culturológica e bla bla bla...
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