A maioria das pessoas não é capaz de formular pensamentos sobre problemas políticos caros ao coletivo. Elas materializam isso tanto votando de forma pouco meditada quanto levantando bandeiras para homens cujas ideias possuem menor valor que o alarido dos cães ou os piados das gaivotas. Esta maioria depende de porta-vozes que lhes inculquem na cabeça opiniões sobre assuntos diversos, dado o verdadeiro desalento que sentem quanto não aparece ninguém que lhes diga o que pensar. A expressão líder de opinião justifica-se, portanto, diante da impossibilidade de o coletivo lançar um olhar sobre o próprio coletivo; o que fundamenta o processo político de “autoconhecer”.
Quando a Alemanha encarava a guerra franco-prussiana de 1870, Hegel forneceu argumentos para a conquista alemã do espaço francês. Os vários pensamentos que Hegel elaborou, sem querer entrar precisamente no seu mérito, tornam-no um invulgar apóstolo da conquista do território pelo herói político. Aristóteles, quando refletiu sobre a constituição política ideal, menosprezando tanto a democracia quanto a oligarquia, buscou orientar seus compatriotas para a construção de uma República em que as funções sociais seriam distribuídas de acordo com os méritos específicos de cada um dos indivíduos. Os longos e dedicados pensamentos de Aristóteles fazem dele um líder de opinião. Estes indivíduos permitem que a sociedade olhe para ela mesma de forma mais aguçada. Ainda que não estejam sempre certos, fornecem argumentos para que, ao longo da história, exista um acréscimo substantivo de forças pensantes que engrossam a percepção dos homens sobre as organizações coletivas.
O brasileiro não tem seu Hegel ou seu Aristóteles e, na verdade, desde a morte de Sérgio Buarque de Hollanda ou Caio Prado Junior carece de qualquer alto pensador político. A morte da alta cultura brasileira está representada nos preciosos ditos do ex-presidente da República: “nós não precisamos de formadores de opinião. Nós somos a opinião pública”. É detestável admitir, mas Lula está mais do que certo. Lula e seu séquito, agora encarnado na face de Dilma, demonstram a incapacidade do brasileiro para qualquer julgamento crítico; bastando para isso mencionar que o professor, ainda que tenha despendido boa parte da vida entre os estudos – ou assim devesse ter feito –, ganha menos de 5% que um parlamentar que, no caso sincero de Tiririca, admite nem sequer saber o que está fazendo ou para que serve.
A verdade é que Lula pensa por todos nós e portanto não precisamos nos lamentar de não ter um Hegel ou um Aristóteles. José Dirceu pensa por nós. Dilma pensa por nós. Tiririca pensa por nós. Para Dirceu, os jornais brasileiros possuem muita liberdade. É claro que possuem. José Dirceu, o principal mentor do maior esquema de corrupção da história brasileira reclama da liberdade da imprensa. “A imprensa tem liberdade demais”, diz o mensaleiro. Diante da incapacidade absurda do brasileiro para julgar a baixeza moral dos governantes, ao mesmo tempo em que encara com boa fé o relativismo petista que muda de opinião de acordo com conveniências políticas (a ‘metamorfose ambulante’), não temos melhor formadores de opinião do que Lula e seu séquito e absorvemos seus padrões morais nauseabundos como se fossem a coisa mais natural do mundo. Não precisamos ficar sabendo de escândalos envolvendo dinheiro público, de fanfarras sexuais de ministros, do mascaramento de estatísticas para o engrandecimento do Grande Irmão, do uso do Estado para fins eleitoreiros e manutenção do poder.
Lula diz o que devemos pensar: nossa opinião está bem resguardada pelo raciocínio de um indivíduo que subiu na vida mais do que qualquer outro brasileiro e mal aprendeu a ler e escrever. Mas aprendeu a usar terno Armani, a andar de jatinho, a usar roupão de linho egípcio, a andar cercado de uma corja de aduladores e distribuir mercês e benefícios com a mesma pompa de nossos primeiros monarcas.
domingo, 23 de janeiro de 2011
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6 comentários:
Claro fique que Hegel apenas forneceu argumentos para a construção de Bismarck mesmo tendo morrido 40 anos antes da guerra franco-prussiana.
Sua forma de encarar a história, para a qual havia um nexo político finalista, serve aqui para chamá-lo, na ótica do meu argumento, de líder de opinião.
O mais grave, eu creio, é ver nossos "intelectuais", não só apoiando, como aceitando todas as indecências destes indivíduos, como se fossem deuses.
Excelente artigo!
Acho que seu texto francamente não expressa o que ocorre no país de verdade. Acredito que falar nos méritos ou nos problemas do governo do PT é algo que tem de ser feito, porém, é necessário entender que o que vem ocorrendo nesse país nos últimos anos são coisas que tornam verdadeiramente o Brasil uma nação, e, até então o único partido realmente capaz de realizar teoricamente um projeto de nação foi o partido dos trabalhadores.
Francamente eu achei essa sua Crônica com um grande complexo de américa latina, ou seja, aquele complexo que coloca os brasileiros e os latino americanos como inferiores a europa e aos eua e como locais que devem seguir os exemplos vindos desses locais. Eu vejo isso claramente na ênfase que seu texto deu em dizer que Lula é um analfabeto, uma das mentiras mais tolas que circulam por ai.
Lula não é analfabeto e eu afirmo com muita tranqüilidade que ele é um dos maiores intelectuais vivos no mundo atualmente. Ai eu sei que muita gente vai se perguntar como um homem sem estudo pode ser isso. Mas será mesmo que é o banco de uma universidade, um mestrado, um doutorado, que faz os indivíduos serem inteligentes?
Já que é para brincar de ser erudito eu digo tranquilamente que Lula é um intelectual orgânico, daqueles que Gramsci propunha em seus escritos. Explicando para os não "eruditos" (estou sendo aqui sarcástico) trata-se de um indivíduo que não freqüentou o banco do ensino formal mas que teve a sua formação intelectual e política a partir da sua vivência e das suas experiências, e, no caso de Lula isso se aplica muito bem, pois para quem não sabe ele é um indivíduo que tem uma leitura muito assídua de Celso Furtado e Sérgio Buarque de Holanda, além de ser um dos "filhos intelectuais" da família Holanda, amigo pessoal de Chico Buarque e de outros muitos.
Mas agora vamos a realidade: Eu não acho que o Brasil tem se tornado um país de não pensantes, que tem apenas um grupo ou líder que pensa por todos nós. Muito pelo contrário, acredito piamente que a ascenção do PT é um fato que mostra que cada vez mais pessoas estão pensando o processo político e a sociedade brasileira, pois o PT conseguiu encabeçar uma vertente intelectual que dá uma outra opção para os brasileiros frente a teoria reinante na política brasileira do entreguismo (submissão aos países europeus e aos eua) e a sua concorrente histórica, o socialismo e o comunismo lenista.
Ou seja, o Brasil optou por tentar se tornar uma nação, por criar um projeto de nação olhando para os seus próprios problemas e tentando resolvê-los, inclusive com o que chamamos de jeitinho brasileiro, que muita gente acha ruim mas que é uma característica de nosso povo e que deveria ser mais valorizado, por ser uma forma de resolver problemas. Nesse sentido eu entendo que cada vez mais pessoas no Brasil andam pensando a sociedade e desejam buscar soluções para os problemas, desejam mudança, e, tudo isso já é um bom começo.
As últimas eleições mostram isso, que o Brasileiro nunca pensou tanto o processo eleitoral, pois eu nunca vi uma eleição tão difícil de ser vencida, que foi tão disputada, o que também pode ser entendido como um resultado da quantidade de jovens que nos últimos oito anos entraram nas universidades e da quantidade de pessoas que estão voltando as salas de aula por todo o Brasil.
continuação:
Quanto a liberdade de imprensa e a declaração de José Dirceu eu digo com muita tranqüilidade que ele tem uma certa razão sim, mas o problema não é muita ou pouca liberdade. O problema é que nossa imprensa tem opções políticas e não admite isso e nem admite ser criticada. No Brasil, quando se faz qualquer crítica a imprensa já se fala em censura. Mas eu digo isso com muita tranqüilidade que a imprensa no Brasil precisa ser duramente criticada por seus atos e deve parar de ser considerada como imparcial e como dona da verdade, pois imparcialidade não existe e nem verdade absoluta, tão pouco os jornalistas são donos da verdade, como pensam William Boner, Arnaldo Jabor e Carlos Nascimento, até pelo contrário, já que a formação intelectual deles é paupérrima.
Enfim, eu concluo que o Brasil tem avançado, não naquele ideal positivista de avanço e progresso que os partidos de direita ainda pregam como se estivéssemos ainda no século XIX, mas avançado dentro de um projeto de nação que inclui os vários setores da sociedade. Antes tínhamos no poder apenas uma elite de bachareis reacionários cultivados dentro dos institutos acadêmicos mais racistas e mais entreguistas possíveis, agora temos um governo formado por uma elite intelectual verdadeira, que mistura indivíduos das camadas menos favorecidas com indivíduos que vem de uma burguesia ativa intelectualmente, com princípios humanos e que deseja inovar e realmente resolver os problemas do Brasil sem massacrar uma parcela da população, incluindo aqueles que nos últimos 500 anos estiveram a margem da sociedade, sendo que gradualmente as pessoas tem sido cada vez mais incitadas a pensarem e preparadas intelectualmente para isso, através de acesso aos estudos, o que sabemos que muito desagrada as elites reacionárias desse país.
Para finalizar eu digo que não sou a favor da candidatura do Tiririca, mas entre Tiririca e Índio da Costa eu fico com o menos pior, Tiririca.
Um grande abraço,
Átila Siqueira.
faço uma breve colocação, a qual não deve distinguir sujeitos pela distinção de uma simples letra, que dirá por diferenças sociais e pensamentos ideológicos.
Seria como definir interesses por letras:
Lula: divisão do capital para com o povo;
Lule: Capitalismo desenfreado em busca do lucro.
Ambos tem seus pontos positivos e negativos e todo mundo sabe disso. Imagino a crítica a políticas e pessoas sejam idéias quando se tem uma resposta e/ou solução para o tema. Fim.
Átila Siqueira, Vanin
Absolutamente não acredito que o PT tenha um projeto de nação para o Brasil. Tem um projeto de poder como tantos outros que encantaram intelectuais ("orgânicos" ou não) e alimentaram discursos ufanistas, seja no Brasil como em qualquer outro lugar do mundo; como se "projetos de nação" igualmente entusiasmados não tivessem vicejado em outros momentos enfatizando da mesma forma o fim da pobreza - nunca mencionando reforma política ou educacional de qualquer espécie para que, paralelamente, se pudesse sim criar cidadãos ao invés de consumidores de carros (já antecipo aqui minha simpatia pelo discurso do Cristovam Buarque de 2006, para que parem de me enquadrar em binarismos toscos). Nem precisávamos de toda essa ufania do Brasileiro que não desiste nunca. Precisamos apenas de um pouco de sobriedade, a mesma que fez os sul-coreanos, estes sim, se tornarem uma nação.
Quem mais enriqueceu (digo isso tranquilamente, para parafrasear o Siqueira) foi o Lula. A família do Lula ganhou rios de dinheiro. Lulinha abandonou sua função no zoológico e no dia seguinte, em função de investimentos maciços da Telemar em sua Gamecorp, uma merda de empresa que já faliu, virou milionário. Quando questionado por isso, Lula deu uma de suas tiradas de intelectual orgânico: "nem todos são gênios, lembrai-vos do Ronaldo Fenômeno". Agora Lulinha está no negócio de promoção esportiva – vai faturar rios de dinheiro com olimpíadas e outros lances circenses do Lula. O capitalismo lulista é brutalmente voltado para a elite petista – é o patrimonialismo que caracteriza o jeitinho brasileiro. Líderes como Hélio Bicudo ou Heloisa Helena migraram dali, prevendo o início de uma comunhão oligárquica em torno das elites mais tradicionais do país.
Esse negócio que tanto encanta o imaginário romântico do brasileiro tanto quanto encantava quem se deparava com a lenda de Robin Hood, não tem sido feito como uma forma de o Estado dar condições efetivas de criar cidadãos votantes – e sim na forma de benesses práticas: são vistas não como projeto para criar uma nação, mas sim como uma forma de liberalidade do próprio Lula, tomando a forma de agressiva máquina de propaganda. O bolsa família é justo, se pensarmos do ponto de vista da construção efetiva de uma nação, mas absolutamente injusto quando visto como algo que parte de um partido político e dele depende, quer dizer, como uma benesse régia, uma mercê, um produto de liberalidade.
Eu acredito numa meritocracia como a que já foi pregada pela própria Dilma Rousseff. O problema é que nunca se sabe de que forma as metamorfoses ambulantes vão conseguir efetivar isso.
Que você esteja certo sobre a sabedoria lulista, Átila. Assim ele vai cruzar o mundo ilustrando a todos com sua imensa sabedoria em ciclos inacabados de palestras, e quiçá desabocanha um pouquinho o poder que tanto o encanta, tirando um nó que torce o pescoço do Estado.
Do meu ponto de vista, esse singelo vídeo ilustra mais do que bem o que pensa Lula: http://www.youtube.com/watch?v=WsvvAwOAmPY O vídeo, capturado em momento de espontaneidade, tira da boca do próprio Lula respaldo para a minha argumentação: “imagine o prejuízo eleitoral”. É um gordinho apaixonado pelo poder. Isso é.
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