Sou ex-guerrilheira e ex-dona de loja de 1,99. Já acreditei que a luta armada era a única forma de subverter a situação dominante no país, mas hoje vejo que a situação dominante e o ar que emana do poder é uma substância etérea e afrodisíaca. Ideologicamente, eu não represento nada. Represento um vazio grotesco, preenchido pelo rosto redondo e barbudo de meu antecessor. Represento o sorriso malicioso, a cordialidade brasileira, a amizade dentro da política, o tapinha no ombro camarada e a arrogância e maldade com aqueles que não pertencem à minha trupe. Isso é o que nós chamamos de governabilidade.
Por detrás de uma intelectualidade acadêmica arrogante, consigo defender meus projetos que são práticas perenes e duradouras em todos os lugares resolutamente atrasados. Nós transformamos a distribuição de esmolas em algo nobre e bonito. Melhor, transformamos ela num imperativo: não se governa sem distribuir esmolas. A Coréia investiu maciça e asceticamente em educação durante 20 anos. Mas essa não é nossa prioridade. Governo se faz com medidas espalhafatosas, que toquem o coração do faminto e sua realidade esfomeada e imediata. Do ponto de vista ideológico, estamos distribuindo dignidade.
A intelectualidade que está por detrás de nossa plataforma de governo é composta por um conjunto de paladinos plenamente convictos de que está lutando para o bem maior e a redenção da raça humana contra inimigos invisíveis e maravilhosos. Inimigos que antes eram Sarney, Collor, Calheiros, e hoje são as políticas malvadas do antigo governo de FHC ou de D. João VI. O governador não precisa prestar contas, porque ele tem o respaldo do povo. E tem o respaldo do povo porque lhe distribui coisas fáceis. Ele é o césar que constrói estádios, promove grandes eventos e cura a escrófula das pessoas que tocam em sua roupa.
Mas nós temos sim um discurso que extravasa a compra de voto. É o discurso do crescimento. É o mesmo discurso da descoberta do ouro ou do café: agora o país cresce. É o discurso ufanista da era militar, quando as indústrias iam fazer o país deslanchar de vez. Enfim: vamos crescer, porque crescer é o que há. O brasileiro, como o cidadão do drama orweliano, olha para um presente que é sempre a mesma coisa e acredita no futuro. Vamos trabalhar e crescer, enquanto os políticos, essa trama de homens bardos e corajosos, defende os meus direitos no plenário. O meu programa é o programa da despolitização: não queira saber o que acontece por aqui, apenas vote no barbudo.
domingo, 12 de setembro de 2010
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3 comentários:
És a pessoa certa no lugar errado. Deverias estar em Washington DC com residência na Beverly Hills. Alugares-me-ia o Lamborghini?
Luís, você tem toda a razão. O texto está perfeito, o que me dá certo desânimo ao perceber o quanto estamos distantes de uma mudança significativa, pois educação, a curto prazo não rende voto.
Tá louco. Vou dormitar impunemente no porão da casa do meu nôno, no RS. Essa é a glória.
O petismo reinventou a história do Brasil. Da mesma forma como Michelet jogou 1000 anos de idade média numa "longa e tenebrosa noite" o PT esqueceu que antes de 2002 havia uma história. Na lógica petista, Lula reinventou o Brasil, e "nunca antes na história desse país", como diz o bordão. O próprio PT não existe antes de 2002, quando Lula ainda não era uma criação de Duda Mendonça.
Quando eu não estiver com tanto sono escrevo a "história do Brasil segundo o PT".
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