Antes de receber Lula no poder, o Brasil era um entreposto comercial português que produzia pau-brasil. Passou por sucessivas mudanças, é verdade, até se tornar o Brasil do açúcar, o Brasil do ouro, o Brasil do café, o Brasil da indústria, o Brasil do Plano Real. Nunca antes na história deste país, no entanto, o destino foi tão dadivoso com o trópico dos pecados, mandando-lhe um locutor das maiorias pobres, um legítimo representante do pauperismo.
A história começou a ser construída a partir de 2002, quando o presidente operário assumiu o poder através da imagem sedutora construída pelo publicitário Duda Mendonça. Logo se tornou senso comum, com as ideias do ideólogo frei Betto, que a fome assolava o Brasil e crescia como um cancro. “Como eu vou poder dormir à noite, sabendo que estou cercado por uma multidão de famintos?” Pouco tempo depois, a Folha de São Paulo exibiu reportagem que mostrava um país cujo principal problema, muito longe da fome, era a obesidade. O Brasil é mais uma nação de obesos bem alimentados do que esfomeados maltrapilhos.
O que não nega a fome, evidentemente. Ela existe. O problema do discurso petista é que ele se transformou num discurso que depende do pauperismo e de outras figuras retóricas que toquem o imaginário romântico e irracional do brasileiro. Não se busca ponderar medidas que estanquem definitivamente esses problemas. Fica-se sempre empacado nos fins mais imediatos, como se a distribuição sistemática de esmolas fosse mais importante do que medidas decididas no terreno da educação – essa sim capaz de fornecer não apenas instrumentos de subsistência aos cidadãos como também um cadinho de dignidade.
A desculpa, quando se fala em educação, é que não se estuda com fome. A fome está em todo o lugar. Ela, por si só, compreende um argumento. Basta dizer, diante de qualquer proposta política, que há, em algum canto, alguém com fome, para seduzir os ouvidos do interlocutor. Diante desse tipo de retórica romântica fundamentou-se um Estado controlador e burocrático, desconectado da vida dos cidadãos. Quer dizer, um Estado que aparece apenas na função de pai. Ele não aparece para conferir cidadania, mas apenas para assistir os necessitados, que nunca têm condições de caminharem com seus próprios pés.
O petismo depende do discurso da fome, e provou que, através da propaganda incutida no bolsa família, baluarte da sua campanha, dificilmente ganharia uma eleição sem a ideia de que se tem fome em todo o lugar. O cidadão que o petismo quer criar não é o cidadão alfabetizado. Ao pedir em 2008, durante a marolinha nos EUA, que o brasileiro continuasse consumindo, Lula ilustrou em que consiste o cidadão petista, ou melhor, o cidadão consumidor. Por mais incrível que pareça, o carro-chefe da argumentação petista é o crescimento das classes médias consumidoras, não importa que analfabetas funcionais, já que o Estado-Pai é capaz de fazer política por elas.
Esse discurso fortemente economicista, que por um lado prega o crescimento a todo o custo e por outro a distribuição de benesses fáceis, é uma forma de infantilizar o cidadão. Em outras palavras, é uma forma de tornar o cidadão político, capaz de amadurecer calmamente as conseqüências do seu voto, num autômato consumidor que se beneficia diretamente do Estado e retorna esse benefício na forma de voto, alimentando o círculo vicioso. Pode-se ilustrar mais amplamente as conseqüências dessa prática através do inchamento do aparato de governo, isto é, da criação de uma chusma burocrática diretamente dependente do dinheiro do Estado.
O petismo, enfim, não trouxe nada de novo. Politicamente, perpetuou a covardia de evitar mexer nos blocos de poder entranhados no Estado. Ao contrário, gerou alianças profundas com estes blocos, comprometendo-se com o continuísmo econômico convertido em ufanismo desenvolvimentista. Representou o crescimento, aquele crescimento que o ouro representou em relação à cana-de-açúcar, que o FHC representou em relação à inflação do Sarney, aquele crescimento de sempre, de todos os anos, transmutado sob a retórica agressiva do “nunca esteve tão bom”, ou melhor, do “nunca antes na história desse país”. Mostra o nosso vício em fórmulas fáceis e salvadoras.
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
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2 comentários:
A democracia consiste justamente nisto: basear toda a sociedade em uma média. Medíocre e médio têm o mesmo radical, mesma raiz epistemológica.
Lula, além de tudo, é o triunfo do oprimido, colonizado sobre o tido pela historiografia como mero opressor, oportunista, sem talentos, qualidades e esforços. Sem dúvidas inteligente, mas não a ponto de se posicionar com liberdade em relação à velhacaria tão particular em nossa canalha.
Em grandes cidades do País, classes altas e baixas - para citar apenas um exemplo da vulgaridade que é a democracia - consomem exatamente os mesmos produtos culturais, a mesma cerveja, falam a mesma linguagem.
A superpopulação compromete notadamente a qualidade de vida de todos com engarrafamentos, certamente, danosos à psique a longo ou médio prazo, com seus fétidos e atrevidos mendigos, para não me ater à massificação da informação que gera neo-hippies viciados, a priori, em maconha, em poucos anos no crack.
A sociedade civilizada caminha a passo largos numa direção que ao meu ver parece medonha. Não ficaria surpreso se, democraticamente, em algumas décadas viesse a ser eleito em nosso País um cidadão de extrema-direita para o cargo de Chefe do Executivo.
Minha análise quanto ao governo atual não difere muito do exposto aqui. A mesma covardia do governo de não querer dar grandes saltos políticos durante esses 8 anos, reflete nos eleitores brasileiros, presumo. E qual seria a melhor opção? O Serra? A Marina?
É terrível isso, mas vejo que todo mundo acaba apelando para o "mais estável", infelizmente.
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