Da mesma forma que qualquer escritor não hesitará em descrever a profissão do jornalista como o corolário das mais deslavadas mediocridades, o jornalista não hesitará em se descrever como o portador imarcescível das mais elevadas verdades já pronunciadas. Nas redações são uma casta de homens concernidos no difícil exercício de pensar com solidez aquilo que há de mais profundo; a vociferar com orgulho estampado no peito a sua influência sobre a "opinião pública".
No Brasil, da mesma forma como a casta política, grupo de homens bardos e corajosos que lutam pela "instituição democrática", a imprensa constitui, segundo o seu próprio discurso, uma falange sagrada que protege os pobres da chusma invisível de opressores. Defende o público com garras de paladino, enunciando verdades objetivas e simplificando as coisas para que o humilde possa ler relatos de tão sagrada importância. Não se trata de tornar o humilde simples massa de manobra, e sim de lhe oferecer, de bandeija, a Verdade, a metafísica Verdade.
Pode-se especular que, em terras brasílicas, a predominância do analfabetismo e de uma leitura empobrecida da realidade permite a associação e mesmo confusão das esferas pública da imprensa com a da política. Essa leitura empobrecida, a que Plínio Arruda atentava quando mencionava a despolitização, é que permite uma crescimento cada vez mais possante da mediocridade. Tudo se vê confundido no discurso simplificado do jornalismo, especialmente televisivo, de forma que a convicção política que está tão-só ao lado do status quo passe por discurso inocente sobre a verdade. Não se percebe que por detrás da "enunciação neutra" existe um direcionamento direto da percepção dos leitores, especialmente na seleção de pautas e na exclusão de temas. Como Chico Buarque lembrava, mencionando o poderio "assustador" da Rede Globo, a emissora pode simplesmente colocar no ostracismo quem quer que seja. Da mesma forma que pode tornar tanto Collor, Sarney, ou qualquer cão uma celebridade da noite para o dia.
A descrição que Lima Barreto fez da redação d´o Globo, há um século atrás, menciona a inércia cultural da empresa. O documentário "Além do cidadão Kane", da mesma forma, demonstra o servilismo e a promiscuidade na relação da diretoria da Globo com lideranças políticas; o que se torna explícito numa programação que apenas reforça diferenças sociais tocando em problemas de superfície. O jornalismo que faz parte dessa hierarquização de pautas está plenamente convicto de que é um componente direto das mais altas virtudes cívicas.
Ele pode ser ilustrado como Lima Barreto o ilustrava há mais de um século com seu "Isaías Caminha":
"Fiquem vocês sabendo que, se o Barba-Roxa resuscitasse, agora com os nossos velozes cruzadores e formidáveis couraçados, só poderia dar plena expansão à sua atividade se se fizesse jornaista. Nada há tão parecido como o pirata antigo e o jornalista moderno: a mesma fraqueza de meios, servida por uma coragem de salteador; conhecimentos elementares do instrumento de que lançam mão e um olhar seguro, uma adivinhação, um faro para achar a presa e uma insensibilidade, uma ausência de senso moral a toda prova... E assim dominam tudo, aterram, fazem que todas as manifestações de nossa vida coletiva dependam do assentimento e de sua aprovação... Todos nós temos que nos submeter a eles, adulá-los, chamá-los de gênios, embora intimamente os sintamos ignorantes, parvos, imorais e bestas... Só se é geômetra com seu placet, só se é calista com a sua confirmação e se o sol nasce é porque afirmam tal cousa... E como eles aproveitam esse poder que lhes dá a fatal estupidez das multidões! Fazem de imbecis gênios, de gênios imbecis; trabalham para a seleção das mediocridades, de modo que..."
terça-feira, 7 de setembro de 2010
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