sábado, 28 de agosto de 2010

Eu não tenho opinião

Eu poderia escrever sobre hermenêutica, sobre o amor, sobre paredões rochosos, sobre o livro Crepúsculo ou sobre qualquer outra coisa. Mas eu não tenho opinião. Todos opinam sobre tudo e todos. Meninotas de 15 anos falam sobre a última moda em baladas, rapazolas exaram opiniões profundas sobre o existencialismo e velhos publicam reflexões metafísicas sobre charutos. Eu não sou tão profundo, e nem tão perscrutador. Não tenho nada sobre o que escrever. Pensei em narrar o cotidiano de uma subcelebridade de internet que acompanha seu crescimento de popularidade através de seguidores no twitter, mas eu nem sei como isso funciona. Eu nem sequer tenho um twitter. E, ainda que não tenha nada sobre o que escrever, quando surge algum lampejo de esperança em minha cabeça eu preciso de mais do que 140 letras.

Pensar deve ter sido um dia uma coisa complicada. O indivíduo adotava uma posição solene, quem sabe até parava de caminhar e, não sem alguma comoção, ele descobria uma verdade que demorou anos para descobrir. Na verdade, pensar devia ser o comprometimento com alguma coisa. Devia tirar o sono de muitas pessoas. E quando aquela verdade sempre buscada aparecia, isso com certeza dava motivo para escrever alguma coisa. Eu devo ter envelhecido: as pessoas escrevem e exaram opiniões sobre tudo o tempo inteiro. Desde as calotas polares até literatura infanto-juvenil que fala de vampiros, lobisomens, bruxos e outras criaturas cabalísticas. A velha razão é como suspensório de velho; não serve mais para nada.

Tanto eu sou prova disso que me pús na frente do computador apenas para escrever alguma coisa. Também quero manifestar a minha opinião, ainda que seja sobre o fato de não ter opinião alguma sobre coisa alguma. Ou, se eu a tenho, ela é tão singela e despretensiosa que não merece ser posta a público e, com certeza, não vai ser lida por ninguém. A não ser que seja acompanhada por gestos bruscos e mirabolantes, que façam o leitor se convencer de que eu guardo realmente alguma coisa de muito importante - tão importante que faça ele se sentir importante só por estar lendo. Para isso preciso aprender a ser um cara cool, como certa vez me indicou uma revista masculina (ela dava dicas de como conseguir mais seguidores no twitter). Quem sabe falar sobre cigarrilhas aromáticas, sobre literatura pós-moderna, criticar o Brizola. Será que isso cola? Eu nem sei mais.

O que as pessoas toleram hoje em dia? Talvez qualquer coisa que as faça se sentirem importantes: auto-ajuda, romances mentirosos de mocinhas comuns bem sucedidas, romances espíritas que falam sobre reencarnações sucessivas - se sua vida é absurdamente medíocre, a de todos os outros espíritos também já foi um dia. Enfim, esse é um texto sincero sobre não ter opinião. Eu não a tenho. E, se eu a tiver algum dia, ela com certeza não interessará a muita gente.

Não há mais direito para aquela vida lenta e inexata de outros tempos. As pessoas se tornaram inteligentes e pensam muito, e por isso abandonam o recatado anonimato para conquistar o mundo. Pensam sobre tudo e exaram o seu precioso parecer o tempo inteiro. Enchem blogs, colunas, videos na internet e debatem umas com as outras diante de milhares de telespectadores atentos. Eu sou um sujeito anônimo que não tem opinião e nunca se tornará uma celebridade. Não tenho a inteligência descomunal dos blogueiros que manifestam a sua opinião sobre a alimentação dos golfinhos, pintassilgos azuis e física quântica. Admito-o prostrado.

2 comentários:

Branse de Bransè disse...

Tocar o barco e seguir queimando uma alcatra todo domingo, eis o tudo.

Rodolpho Cabral disse...

Lule, sinto-me atingido em determinados trechos, quando você expressa, justamente, a sua opinião. Sagaz. Há poucas pessoas que respeito no mundo.