O cancioneiro sertanejo parece não encontrar limites para a sua criatividade. Nessa tediosa tarde de domingo carnavalesco decidi incrementar o meu conhecimento sobre a música caipira, lendo algumas das suas letras que fazem maior sucesso. Trata-se de um eflúvio de “balas de prata, meteoros, Robin Hoods, fadas, nuvens de amor, magias de outro planeta”, entre tantas outras baboseiras que tocam interminavelmente na rádio todos os dias. Ainda que você duvide que alguém vai escutar aquilo – pois parece que o autor da canção não faz mais nenhum esforço para inventar a música –, parece não faltar público para as aborrecidas invencionices. Vejamos, neste breve e despretensioso texto, algumas das instigantes canções que provocam a convulsão de milhares de adolescentes.
Parte-se de um conjunto interminável de metáforas sem sentido cuja temática é, invariavelmente, a relação entre um mancebo apaixonado e uma mulher que é “pistoleira”, “traíra”, “nariz empinado” ou “danada”. O perigo de flertar com uma mulher dessas é bem explicitado em Fernando e Sorocaba (sic), duas pérolas da moderna literatura sertaneja. A mulher é, por exemplo, um vendaval: “Vendaval, ela devasta minha vida, por causa de um ciúme banal”. Dentre as outras variantes cosmológicas para denominar a mulher outra é “sol”, “meteoro” e “raio”: “Você é raio de saudade; Meteoro da paixão” ou “Quero você meu sol minha luz a minha alegria”. Para não mencionar o furacão: “O amor é bem mais forte que a força de um furacão!”. Em João Bosco e Vinicius (sic) há ainda o terremoto: uma espécie de terremoto grau 7 na escala Richter arrasou meu coração. Guilherme e Santigo agitam um pouco mais o Cosmos: “Está chovendo estrelas, tempestade de paixão, Iluminando o meu coração”.
Outros extrapolam o limite do empirismo cosmológico para metaforizar a mulher e o amor em entidades culturais como o chocolate: “De chocolate nosso amor é feito; Então não tem jeito, gruda em mim”. Já o Robin Hood da paixão é um pólo atrator de mulheres: ao invés de ser atraído pelas mancebas e chorar dolorosamente quando sofre uma traição, ele faz o tipo macho dominante e mantém um vasto “harém”, o que não dispensa a genial tirada literária remetendo ao herói mítico inglês. Eu distribuo o meu amor, logo, sou o “Robin Hood da paixão”.
Estas músicas não costumam ser ouvidas por indivíduos silenciosos que sentem prazer em escutar a música. Ninguém se senta na frente de um aparelho de som e ouve “ei, psiu, beijo me liga” de Michel Telo (sic). Muito pelo contrário. Trata-se do popular “batidão”. Meu vizinho há pouco ouvia, junto com toda a vizinhança, uma música que falava de uma “pistoleira” que, naturalmente, arrebentou o coração do autor da música; da mesma forma, aliás, que a “bala de prata”. Há ainda a “bandidaça” de Hugo Pena e Gabriel (sic): “Bandidaça, Brincou comigo e de pirraça, ainda me desmontou, nem cachaça”. Sem falar na fogueira ou na cobra venenosa de Brenno Reis e Marco (sic). Christian e Ralf (sic) são menos evasivos: “Por que não passa de uma perfeita safada, Canalha, cretina, mal criada, amiga, Sem vergonha, carente, apaixonada, doente”. Em outras palavras, filha da p**a.
O inocente machismo dos caipiras não encontra limites. Além das fadas e anjos, uma infinidade de criaturas mitológicas parece rondar as suas simplórias cabeças, encarnando sempre na figura mítica da mulher amada e malvada. Luan Santana (sic), em “Sobrenatural”, fala em “um lindo lugar, Magia de outro planeta”. Dentre as metáforas anatômicas, quem mais sofre é o coração. Ele está constantemente bagunçado, revirado, há até mesmo quem queira leiloá-lo em algumas músicas. E, diante do mal resultado do leilão, pensa em doá-lo, caso de João Bosco e Vinicius (sic): “Eu vou doar o meu coração, Porque no leilão não tive nenhum lance”.
Mas a maioria das canções é mesmo composta de uma interminável choradeira por causa da mulher amada: “Sem você tudo é saudade, solidão...”, “ “Volta pra mim antes que eu enlouqueça, antes que enlouqueça esse meu coração”, e nenhuma engenhosidade permite extrair delas mais do que alocuções terrivelmente entediantes. Algumas vezes, são simplesmente uma narrativa das aventuras noturnas dos autores e seus flertes com mulheres apaixonadas. Pela quantidade absurda de referências à dor do amor e ao coração sofredor eu tenho certeza de que ninguém gostaria de estar perto desses sujeitos. Eles devem passar o dia inteiro chorando e olhando para o luar. Ou então, apenas ganham dinheiro em cima da ilusão de jovens emotivas que aprendem, desde cedo, que as razões de suas vidas estão nos flertes provenientes de baladas. (sic)
domingo, 14 de fevereiro de 2010
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3 comentários:
Sem tirar, nem pôr. É isso mesmo.
Valeu Lule, sempre elucidando...
Zezé Rules!
"Ninguém se senta na frente de um aparelho de som e ouve “ei, psiu, beijo me liga”...hahaha, muito boa essa!
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