Republico e-mail enviado para a minha lista de dicussões. Oam...
Eu passei boa parte da tarde de hoje jogando “Hard Truck Apocalypse”. Comprei na banca junto com outro jogo de ação chamado “You are empty”, sobre as experiências científicas na Antiga União Soviética – elas deram errado e geraram uma raça de mutantes prestes a destruir o planeta. Esse jogo não rodou e tive que jogar apenas o primeiro. Dois jogos pelo preço de um. A princípio relutei: não gosto de jogos de rpg – não porque não sejam divertidos, mas porque rapidamente constroem um vício em torno das aquisições individuais de um personagem. No caso do Hard Truck, em suma, você é um fazendeiro que tem a sua fazenda destruída e sai dirigindo seu caminhão por plantações de trigo e estradas desertas. No meio do caminho, aparecem inimigos que você tenta destruir com uma metralhadora acoplada ao caminhão – que vai sendo substituída por armas mais letais; eu já tenho raios lasers e armas de plasma que destroem os meus inimigos com apenas um tiro. Os despojos das lutas são recolhidos e vendidos nas cidades. Nelas também você negocia os seus serviços: pode oferecer proteção a agricultores ou escoltar caravanas de comerciantes. O seu caminhão vai ficando mais reforçado – na verdade, eu já comprei outro. Ele tem basicamente quatro propriedades: defesa, ataque, velocidade, equilíbrio. As propriedades vão crescendo conforme você vai atacando inimigos mais poderosos e juntando os destroços de seus veículos para vendê-los nas cidades.
A plataforma lattes só não se tornou um gostoso rpg por falta de engenhosidade dos webdesigners. Aliás, eu aposto que isso não vai demorar a acontecer, o que irá facilitar muito a integração das universidades brasileiras em torno de núcleos de pesquisa. As universidades padronizarão os critérios de geração de pontos curriculares; textos publicados entrarão automaticamente no currículo lattes, assim como aquisições individuais repassadas pelas universidades; o que facilitará a contratação de novos professores ou admissões em programas de doutorado e mestrado. O que existe, agora, é um sistema de avaliação baseado em artigos publicados em seminários nacionais ou internacionais, horas-aula de docência, textos publicados em periódicos não acadêmicos, que o autor precisa enviar ao lattes mantendo a documentação comprobatória. A produção de textos acadêmicos é algo como a coleta de fragmentos de outros textos, ela não se estrutura sem esse princípio básico: o princípio da autoridade especialista, basicamente como a coleta de despojos do Hard Truck Apocalypse. Você usa alguns autores consagrados – ou não – e sua produção é avaliada e aceita – especialmente em grandes eventos para os quais há grande número de submissões. O Lattes aperfeiçoado vai funcionar como um depósito de pontos de experiência e conhecimento, baseados nas informações fornecidas pelo indivíduo. Este começa então a sua escalada pessoal. Uma regra importante torna ainda mais unificada a submissão de artigos – que são como a sucata vendida – a exigência de originalidade. Por dever ser original há uma premissa básica: encher a produção científica com retoriquices misturadas com fragmentos de textos importantes e submetê-lo usando a sua autoridade: mestre, doutor, etc. Uma vez submetido, você vai apresentá-lo num evento e então deposita os seus pontos de experiência. As horas-aula de estágio requerem um engenho um pouco maior: recolher assinaturas, forjar um plano de ensino recheado de floreios de pedagogia diletantista e ir encher os alunos com babaquice academicista ou com algum estrelismo coroado de frases grandiloquentes.
Assim se ascende e se acumula pontuação. A grande diferença poderia estar na avaliação individual feita por cada universidade com relação à capacidade docente ou investigativa do indivíduo; mas mesmo nisso o Rpg tradicional não fica atrás: a desenvoltura adquirida para atirar nos outros adversários, se esconder atrás de rochedos e colocar minas em lugares estratégicos, se transforma na capacidade de articular pensamentos de pedagogos consagrados com rompantes de originalidade incontida, forrada com alguns truques de conversação, quiçá tirados de manuais que discutem a capacidade oratória de Hitler logo ao prefácio e, que, por serem chocantes, adquirem prestígio. Hitler, Mao Tse Tung, Maomé, a física quântica. A Academia assim se torna a própria forma de o sujeito estruturar a sua vida, independente de ela guiar à alguma produção de algum conhecimento ou não.
Voltando da corrida...
Organizei durante a minha corrida mais um conjunto de idiotices e desculpas para ao invés de estudar jogar Hard Truck Apocalypse. A facilidade da Academia está numa cisão ocorrida dentro das ciências humanas, chamada pelos “especialistas” de “linguistic turn”. Isso veio depois de um conjunto de afirmações que ainda hoje estampam manchetes de revistas. A última Cult, por exemplo, traz Foucault na capa e embaixo a frase: “o homem desaparecerá como um rosto de areia na orla do mar”. A afirmação parte do pressuposto de que não existe realidade humana fora da linguagem e ambiciona destruir aquelas metanarrativas que estruturam os conhecimentos ocidentais tradicionais. Surge assim uma porção de pequenas sabedorias, particulares, derivadas de percepções individuais. Isso desautoriza o saber baseado na autoridade da objetividade linguística e autoriza a linguagem em si mesma enquanto sistema de vida par excelence. Torna mais importantes questões de método e discussões chamadas de epistemológicas, ou seja, baseadas nas formas com que os vários conhecimentos se configuram. Todo um universo semântico surge: “árvore derivativa”, “método arqueológico”, “rizoma”, “formação discursiva”, “hermenêutica do sujeito”, “particularismo analítico”. Isso dá margem a um amontoado de devaneios que trazem para as ciências humanas metáforas da geografia (campos de saber), da biologia (biopolítica), da matemática (tempo linear), sem falar da física: ah, a física quântica, aquelas particulas danadinhas que ficam se revolvendo de um lado para o outro, travessas demais para experimentações racionalizadoras! Um mundo de matéria morta semelhante ao de Hard Truck Apocalypse. Você coleta cacarecos e os transforma em produtos que podem ser trocados por pontos. E não começa um texto sem uma longa “discussão epistemológica”, que demonstra carisma e profundidade, isto é, desenvoltura em avaliar o “mundo da vida”. Ou seja, ao invés de partir de um pressuposto para construir algo fica-se simplesmente discutindo o pressuposto, que é sempre falseável. Eu queria saber o equivalente do Hard Truck Apocalypse para diletantismo.
Em suma, não vou mais jogar (esse é um fragmento póstumo, adicionado logo à hora de salvar uma aula para amanhã no pen-drive e ir dormir): cheguei numa parte do jogo em que sou o “homem mais forte do mundo”, depois de ter destruído Felix. Alicia, uma bandidinha, quando lhe pedi como faço para acessar o submundo, disse: “você não vai conseguir, ele é muito bem guardado”. “Mas eu posso destruir qualquer homem”, respondo. Então ela replica: “mas o que o guarda não é humano”. É sim uma imensa máquina que me atirou latarias e que me aborreceu imensamente, não só por ser difícil de derrotar como por consumir toda a memória Ram do computador. Eu atirei nela durante meia hora com três armas de plasma acopladas no meu caminhão e não surtiu nenhum efeito. Eu já tinha pensado em substituir esse jogo por outro; porque sabia de antemão que ele ia me vir com babaquices do tipo máquina gigantesca e destrutiva que emperra o computador. E já tinha ido ao Shopping comprar algum outro jogo de ação e estratégia, mas a configuração da minha máquina não suportava nenhum deles; o único para que ela dava suporte é o “Todos contra um do Silvio Santos”, que exige 500 Mhz de processador. Isso me levou a sair da Saraiva ir procurar um calção novo para praticar ciclismo: acabei na loja Track & Field, em relato para o qual o Brãns foi ouvinte privilegiado. Uma série de estultices, que termina não sem antes eu sugerir, diante do ouvido imponente da Academia forjada nos bancos da Seção Corey Haim, um longo estudo sobre a genitalização. Um vez estudados os princípios e fundamentos da mancebíase (MUNARETIA, 2005; BRANS e MUNARETIA, 2006), as causas e consequências do matrimonialismo (BRANS e MUNARETIA, 2007; BRANS, 2008), nada mais resta; eis, com convicção, depois do derradeiro estudo sobre a ginecologia do saber, a genitalização pura e simples da sociedade.
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
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2 comentários:
"Hoje" diz respeito à metade do ano passado. Atualmente não jogo mais. Dedico-me apenas a afazeres honrados e adultos, como consertar a calha da casa e ler verbetes de enciclopédia.
Cara, ri muito do que você colocou sobre o Lattes!!! Como pode algo ser tão chato de fazer!! E quando você coloca as informações de um jeito e quando você vê, elas estão em outro lugar?!?!
Aí no fim eles ainda perguntam: Vc está certo disso?!?! Se você colocar informações erradas é criiiimeeee!! ahahahahaha
Por que eles não arrumam aquela porcaria?!
Eh isso ai!! Tchau!!
www.euestoudesorientada.blogspot.com
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