terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Brasileirismos maçônicos

As maçonarias provocam a curiosidade pública desde que se tornaram espaços privilegiados de discussões políticas, mesclando as trocas de idéias com símbolos esotéricos e passagens hierárquicas relativamente complexas. O privilégio filosófico das maçonarias estava no caráter restrito das suas reuniões, ou seja, teoricamente não se admitia qualquer um que não tivesse o espírito suficientemente aberto para discutir problemas caros à humanidade. Essa restrição fez com que, no Brasil do início do século XIX, a loja maçônica Grande Oriente Brasileiro (GOB), no Rio de Janeiro, concentrasse vários elementos revolucionários e ajudasse a conduzir, pelo menos no plano das idéias, a Independência brasileira.

Os historiadores maçônicos costumam associar a sua instituição de forma muito positiva a importantes momentos históricos. As maçonarias teriam para eles dirigido, quase que desligadas do mundo profano, os seus ideais de forma a possibilitar o exercício pleno das liberdades humanas. Nalguns momentos, os maçons vão até mesmo muito mais longe, catando origens ancestrais confusas, que remetem às pirâmides egípcias, a Moisés ou Salomão, aos cavaleiros templários, e a toda uma obscura genealogia que se liga a triângulos e uma infinidade de outros símbolos míticos.

Mas o objetivo desse breve texto não é discutir a simbologia dos triângulos ou as ligações maçônicas de Salomão. Apenas observar como ao longo da história brasileira e especialmente hoje, as lojas maçônicas apresentam comportamentos ambíguos e contrários aos seus princípios fundadores. Para dar um exemplo de quais eram os seus ideais: no Brasil, em 1821, o maçom José Joaquim Lopes assim definiu seus confrades no Dicionário Corcundático: “todo aquele que proclama a liberdade da sua pátria; que não beija as mangas aos frades; que abomina a Inquisição e as suas fogueiras; que fala sem preâmbulos; escreve sem dedicatórias; e imprime sem censuras”.

No ano seguinte, o imperador brasileiro D. Pedro I ingressava na maçonaria na categoria de aprendiz. Dois meses depois, ele adquiria o grau de Perfeição Universal. O acolhimento do imperador deu prestígio às maçonarias brasileiras que, depois de 1822, passaram a abrigar altos escalões políticos. Elas se consolidaram como um espaço importante para a aquisição de alianças e articulações políticas. A seguir, a Igreja Católica promoveu poderosa repressão aos círculos maçônicos, criando uma briga que, no final das contas, acabou por dar popularidade à imagem dos maçons. A mesma igreja difundiria uma série de boatos, como a prática nas lojas maçônicas de cerimoniais com bodes, invocações do tinhoso, e etc., criando alguma ojeriza pública contra os maçons, logo contraposta por várias iniciativas destes para proteger a imagem de sua instituição, como a criação de escolas, jornais, etc.

Durante a ditadura de Vargas, o maçom e coronel Viriato Dornelles Vargas, irmão do ditador, realiza conferências sobre o Estado Novo no GOB que nada lembram as teses maçônicas da igualdade, liberdade e fraternidade: “Quanto à palavra autoritário, o povo a emprega no sentido de que autoritário é aquele que abusa da autoridade. É por isso uma palavra antipática. Chamemos, pois, nosso regime pelo nome verdadeiro – Ditadura Republicana – que quer dizer governo forte e estável”. Não é preciso acrescentar que o aniversário do presidente Vargas era efusivamente comemorado, por determinação do GOB, nas lojas maçônicas de todo o território brasileiro.

Mas as maçonarias só definiram mesmo a sua identidade durante o regime ditatorial de 1964, quando ingressaram no combate contra o inimigo chamado Comunismo. Nesse momento, elas já estão indissociavelmente ligadas ao mundo profano, tendo fragmentado as suas doutrinas políticas originárias numa miríade de outras prioridades que dizem mais respeito à sobrevivência interna dos membros, confortavelmente associados às esferas de poder. Nesse contexto, por exemplo, ocorre a associação do General Golbery de Couto e Silva, ideólogo da Doutrina da Segurança Nacional, e uma grande centralização das lojas em torno das diretrizes do GOB, que se alia ao clima de ufanismo patriótico, como se vê, por exemplo, no Boletim de 1972: “É preciso, a cada hora, firmardes a fé que tendes nos destinos da nossa nação!”.

Depois da redemocratização brasileira, com o surgimento de tantos fóruns de discussão e espaços de sociabilidade nos quais é possível debater livremente idéias políticas, as maçonarias abandonaram a sua tradição e parecem viver um tanto quanto deslocadas e apáticas. O amadurecimento da nação fez ruir vários preconceitos existentes contra a maçonaria, como as relativas às suas práticas envolvendo bruxarias, mas também fez ruir os positivos, como àqueles que dizem respeito à sua verdadeira isenção das práticas de poder e busca da realização das liberdades dos homens. A Maçonaria brasileira, desde então, tornou-se um espectro do que, supostamente, já foi.

Dados retirados de: O Poder da Maçonaria, de Marco Morel e Françoise Jean de Oliveira Souza.

1 comentários:

Pedrini disse...

Os Demolays desfilam de capa preta no 7 de setembro antes dos carros antigos sem dar risada, olhando eretamente, parecem guardam o grande segredo do Arquiteto Universal e zombam da platéia.