Ele é um balão inflado, até que a sua soberba não o abandone. As pessoas são pela sua natureza voltadas para fora; tanto sobrevivem das impressões que causam quanto se alimentam das impressões que têm dos outros; e assim, coletivamente constroem um conjunto de crenças e formas de comportamento. Nas suas varandas, observam as ruas enquanto as ruas observam-nas, transformam-se em espectadoras dos outros, e, nalguns casos, são capazes de dançar indiscretamente para as ruas quando já não são capazes de viver para alguma coisa além delas.
As impressões da rua enchem o balão, inflam-no com um conjunto de expectativas que o balão, humilde ou orgulhosamente, suga para dentro de si. Muitas dessas criaturas, a que singelamente chamamos balões, não conseguem sobreviver do lado de fora das ruas, já foram por elas engolidas. Trata-se de um tipo muito especial de ser humano. Você é capaz de percebê-lo num rosto contorcido de felicidade exacerbada, maneiras expansivas, indiscrição no falar, riso exageradamente falso.
Essas criaturas não enxergam muito sentido em ficarem, ainda que alguns minutos, sozinhas. Precisam, mesmo para coisas mais simples, ser encaradas por outras pessoas, para se assegurarem de que, intimamente, estão fazendo alguma coisa. Os maneirismos podem crescer e assumir a proporção de uma exterioridade doentia: suas ações, quando não têm publicidade, parecem não existir. Assistir a um filme, alimentar-se, caminhar; tudo lhes é insuportável sem um público que, ainda que com um gesto de cabeça, manifeste a sua segurança e destile um cadinho de ar no balão, sempre inseguro de ficar murcho um dia.
Quando compram alguma coisa, os balões precisam mostrá-la às outras. Roupas, pingentes e, até mesmo livros, se é que os compram um dia, tão penoso lhes é passar o rosto por várias páginas cheias das letras escritas, e sem ser assim, o protagonista de alguma coisa. Quando o lêem, depois de penoso exercício, precisam mostrar aos outros que leram, e então desfilam trazendo cuidadosamente o exemplar debaixo do braço. E se o leram por completo, coisa mui difícil, é porque tantas pessoas à sua volta leram que se tornou impossível não ler também.
Esses balões hiper-inflados parecem ser cada vez mais comuns entre os jovens. Talvez com medo de que sua individualidade seja engolida por uma ego-massa indiferente, eles tomam todas as precauções para não simplesmente deixarem de existir, assumindo gestos exagerados, buscando publicidade em cada canto, gravando-a eternamente na internet. Quando jovens, adoram o Orkut, e nele colocam fotografias de tudo: deles praticando esportes, comprando canetas, se recuperando de alguma doença. Não tenho dúvidas de que esse exagero balonístico é produto de um tempo em que tudo aparece e desaparece com grande velocidade.
Os balões, há que dizer ainda, precisam de grupos. Ainda que o grupo seja uma singela união amorosa. Amor não como afeição íntima e discreta a uma segunda pessoa, mas sim àquilo que ela representa socialmente. Há balões que se tornaram apêndices de seus esposos ou esposas, e são carregados como se fossem maletas, combinando nos detalhes com a calça ou a camisa do parceiro. Esses matrimônios esporádicos sobrevivem da impressão que causam e terminam como se despede de uma camisa velha, que não se quer mais. De forma que, como parecerá óbvio, não se efetivamente se ama uma pessoa sem que isso seja demonstrado através de declarações públicas, passeios em lugares da moda, gestos expansivos e melodramas constrangedores a todos os que estão por perto.
Balões que se enchem de ar ressecam com facilidade, e a muito custo sobrevivem quando uma situação lhes exige muito engenho. Podem ser apenas aquilo que aparentam ser, e quando não o estão demonstrando, provavelmente estão dormindo. E, infelizmente, muitas vezes não seria mau que continuassem dormindo, porque balões inchados de ar os temos aos montes nas avenidas, televisões, etc. Para usar um pensador da moda, Nietzsche, “não te enchas de ar: a menor picadela te esvaziaria”.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
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1 comentários:
A observação de que significativa parcela é paupérrima de espírito não provova grande exclamação.
Uma humanidade boboca que crê a energia elétrica como perpétua avalista de suas aventuras.
E toda combinação de merda é ainda mais aguda e detestável quando acontece nos palcos de um país que há seculos optou pela falocracia. Cultua-se a falocracia.
Basta a queda da energia elétrica, e tudo está resolvido. A cocotta existe porque a energia elétrica a provê. Já alguns quadros do balonismo, ilustrados no texto, resolvem-se facilmente com o homem na guerra ou no campo, sob o sol.
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