O grande problema de nossa juventude está em que ela é incapaz de perceber o ridículo. Indivíduos que viveram há muito tempo os seus dias sem as tecnologias de que dispomos, sem a internet para comunicar, carros para se locomover, ou dentaduras confortáveis, pareciam guardar dentro de si tal curiosidade pela vida que não encontra paralelo em nossos semblantes desfigurados por tantas paixões mesquinhas. Aqueles homens do século XVIII, e sei que incorro aqui no risco de uma idealização barata, pareciam se encantar intimamente com cada sol que viam nascer ou cada campo que viam florescer. Tudo lhes causava espanto.
Refiro-me mais especificamente a um conjunto de homens que tomaram para si um grande projeto: levar aos seus semelhantes o que chamavam de Luzes, um conjunto de conhecimentos que permitissem a todos que pensassem por si mesmos. Por isso, ficaram sendo conhecidos pela história como iluministas. A tarefa de explicar como esses homens pensavam e no que acreditavam deve sua dificuldade à enorme distância no tempo e às diferentes categorias sociais que dispomos para refletir. E para facilitar essa provisória empreitada, usarei a narração do historiador Robert Darnton, sobre quando visitou o Museu da Independência nos Estados Unidos e se deparou com a cadeira em que se sentou George Washington, um dos pais fundadores daquela grande nação:
“Era uma bela cadeira georgiana com um sol emblemático entalhado nas costas, e Washington estava presidindo a Convenção Constitucional de 1787. Num momento particularmente difícil dos debates, quando o destino da jovem república parecia incerto, Benjamin Franklin, sentado aqui, perguntou a George Mason, que estava a seu lado: “O sol está nascendo ou se pondo?” Eles superaram o impasse em que se encontravam e uma dúzia de outros. E quando, por fim, deram por terminado o seu trabalho, Franklin declarou: “Ele está nascendo”.
Não é fácil para um homem do nosso tempo se imaginar, durante horas a fio, discutindo com outros homens projetos de tão grande importância para a humanidade; no caso de George Washington, o nascimento de uma jovem nação. Essa incapacidade tem na sua parte menos visível a impossibilidade de pensar um futuro coletivo, de desacreditar-se completamente de qualquer projeto e viver mediocremente um presente que se esvai a todo instante.
Nossa geração cresce aprendendo a mentir e mente sem perceber: cultua automóveis, ergue tributos a heróis de brinquedo e vive uma vida tornada espetáculo, recheada de sociabilidades inúteis e conversas comezinhas, nas quais se projeta, quando muito, o que se vai comer ou quem se vai comer. A sexualidade e o prazer se tornaram fetiche: deixaram de ser feitos pelo que valem, e passaram a ser feitos pelo que significam... para os outros. Abandonou-se aquela libertinagem coloridaque tinham os tais iluministas, para se viver a tensão que existe entre o recalcamento do corpo e o desconhecimento de si mesmo.
O mais singular disso tudo é que, ainda que não tenhamos aparentemente muito por que lutar – ou disso queiramos nos convencer –, apegamo-nos à vida de forma muito mais mesquinha: queremos viver a todo o custo anos dilatados e choramos a cada mosca que vem a nos picar. Para isso recauchutamos expressões faciais, escondemos rugas, tornamos o nosso corpo um experimento cirúrgico destinado à eternidade do momento que representamos.
Esse ar pesado, nauseabundo, que tragamos desde os nossos primeiros dias, torna-nos um pouco incapazes de pensar como é durante dias a fio escrever com nossos semelhantes um projeto para o futuro. Por ora, o mínimo que temos feito é tentar desacreditar aqueles homens, os iluministas, dizendo que seus projetos foram enganosos ou terminaram em catástrofes, e assim poupar a nossa consciência da ausência de sentido coletivo e do esvaziamento daquilo que era tão caro ao passado, a civilização. O regresso à barbárie, senhores, tem como primeiro indício a incapacidade de perceber a grandeza.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
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1 comentários:
Aaaaa...
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